Livro reúne correspondência entre Mário de Andrade e Wilson Castelo Branco
'O mestre e o moço', que será lançado nesta terça (2/6), na Academia Mineira de Letras, traz cartas trocadas por jovem estudante mineiro e o pioneiro modernista
Mário de Andrade se revela desencantado com o mundo em guerra nas cartas ao estudante mineiro, mas se coloca à disposição para a troca de ideias com os jovens crédito: Pintura de Candido Portinari
O ano era 1939. Cursando direito em Belo Horizonte, o jovem Wilson Castelo Branco, com 21 anos e grande entusiasmo pela literatura, decidiu escrever para um dos intelectuais mais importantes do país, Mário de Andrade (1893-1945). O modernista estava às voltas com o peso da fama, das críticas, principalmente de Oswald de Andrade, com quem já havia rompido, e das inquietações do mundo em guerra. Mário respondeu. E a troca de cartas não parou mais.
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Esse diálogo ganha forma de livro em “O mestre e o moço – As cartas de Mário de Andrade e Wilson Castelo Branco” (Relicário Edições), organizado por Maria Cristina Castelo Branco, filha de Wilson. O lançamento será nesta terça-feira (2/6), às 19h, na Academia Mineira de Letras (AML). Na ocasião, Maria Cristina fará palestra.
As 51 cartas revelam uma relação de formação intelectual, amizade e afeto. Mário se mostra generoso e paciente, disposto a orientar um jovem ainda em busca de voz própria; Wilson surge inquieto, ávido por compreender literatura, crítica e os rumos do romance brasileiro.
Wilson Castelo Branco, que morreu em 1986, guardou cuidadosamente as cartas e os conselhos que recebeu de Mário de Andrade Pintura de Edésio Esteves/1955
Em plena Segunda Guerra Mundial, os dois discutem estética, trocam leituras, comentam sobre escritores e refletem sobre o papel do intelectual em tempos de crise.
“Quando meu pai começou essa correspondência, ele tinha 21 anos. Mário de Andrade já tinha mais de 40. Era experiente, já vinha escrevendo há muito tempo e se correspondendo com várias pessoas”, conta Maria Cristina.
A publicação é resultado do trabalho iniciado por ela depois da aposentadoria, em 2007. No ano seguinte, passou a organizar os documentos deixados pelo pai. Eram cartas, telegramas, manuscritos e recortes. Foi assim que reencontrou a correspondência com Mário, da qual ouvira falar constantemente durante a juventude nas conversas do pai com a mãe.
“Lendo as cartas e depois digitando todas elas, fui percebendo a riqueza daquilo”, afirma. “Eu pensava: ‘Não posso ficar com isso só para mim’”.
O caminho até a edição foi longo. Passaram-se anos entre pesquisas, visitas a instituições, conversas com pesquisadores e tentativas frustradas até a chegada à Relicário.
A correspondência nasceu de um encontro decisivo. Em 1939, Mário de Andrade visitou Belo Horizonte a convite de alunos da então Universidade de Minas Gerais. Entre eles estava Wilson Castelo Branco (1918-1986), que, além de estudante de direito, trabalhava como jornalista na Folha de Minas. A aproximação rapidamente se transformou em troca de cartas.
Nelas, Mário assume papel de mestre. Recomenda bibliografias, comenta leituras, responde dúvidas, sugere métodos de estudo e corrige o estilo do interlocutor. Envia ao jovem extensa lista de obras fundamentais para quem deseja se dedicar seriamente à crítica literária.
Em outra, faz observações francas sobre a escrita de Wilson. “Você precisa cuidar um bocado mais da clareza de estilo”, aconselha. “Suas frases são complicadas, e embora você procure ser simples e despretensioso de linguagem, sua sintaxe, seus períodos se complicam demais e se tornam às vezes de difícil compreensão.”
A generosidade aparece na disponibilidade quase pedagógica em relação aos jovens mineiros. Em carta enviada ao grupo de Belo Horizonte do qual Wilson fazia parte, Mário fala de sua “alma de mestre-escola” e diz que o tempo pertence aos mais novos.
“Se precisarem de mim para qualquer esclarecimento, qualquer novo pedido de indicações de livros, ou qualquer conversa fiada de pura camaradagem, não hesitem em me escrever”, afirma.
Fascínio
O papel de mentor ajuda a explicar o fascínio duradouro que aquela relação exerceu sobre Wilson – as trocas de cartas se estenderam até dezembro de 1944. Segundo Cristina, o pai sempre valorizou figuras mais velhas, com quem buscava aprender.
Décimo-quarto filho de família numerosa, criado sobretudo pela mãe e pelas irmãs após a morte precoce do pai, Wilson desenvolveu personalidade discreta e observadora, que mais tarde definiria como “encaramujada”.
“Meu pai era uma pessoa tímida, muito observadora. Sabia exatamente quem era Mário de Andrade e o quanto podia aprender com ele”, diz Cristina.
Se o Wilson das cartas é um jovem cheio de perguntas, surge na correspondência a face menos conhecida de Mário de Andrade: vulnerável, cansada e profundamente humana. O “mestre-escola” revela angústias pessoais, crises de exaustão e desencanto crescente diante do mundo.
Livro reúne cartas de Mário de Andrade e Wilson Castelo Branco. Organização de Maria Cristina Castelo Branco, Relicário Edições, 260 páginas. Preço: R$ 89,90. Lançamento nesta terça-feira (2/6), às 19h, na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1.466, Centro), com palestra da autora. Entrada franca.