CENÁRIO DE LIVRO

No sertão de Guimarães Rosa, brilham as Cores do Cerrado

Coletivo de bordadeiras, tingideiras e fiandeiras de Uruana, no Noroeste mineiro, mantém viva tradição de gerações e produz objetos com matéria-prima local 

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Arinos (MG) – “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado”, diz Riobaldo logo no início de “Grande sertão: Veredas”. A história publicada por Guimarães Rosa há 70 anos e ambientada no final do século 19 encontra eco nos dias atuais, de modo que outra frase clássica do narrador-personagem ainda soa atual: “Viver é perigoso”.

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O sertão roseano, naturalmente, não existe mais da mesma forma. Os bandos armados de jagunços nômades desapareceram, estradas cortaram regiões antes isoladas e a presença do Estado se tornou mais constante, ainda que desigual e irregular.


Nas últimas décadas, assentamentos rurais, avanço do agronegócio e disputas fundiárias redesenharam a paisagem do Noroeste mineiro. Ainda assim, a terra segue no centro de conflitos que persistem há gerações.


Em áreas próximas ao rio Urucuia, famílias assentadas convivem com episódios de tensão, ameaças e disputas judiciais que revelam como o controle do território continua decisivo no sertão contemporâneo.


Assentamentos

“Entre 1980 e 2000, Arinos era um dos municípios com mais assentamentos no estado. O povo ocupava terra todo dia porque a situação era muito difícil”, diz o produtor rural Haroldo Mendes Barbosa, de 63 anos. “Havia muitas tensões com fazendeiros locais. Aqui, no município, morreram umas três pessoas em conflitos. Inclusive o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Francisco”, acrescenta, referindo-se a Eloy Ferreira da Silva, morto na zona rural de Arinos, em 1984.


A situação dos donos de terra era obscura. “Havia fazendas grandes, de 3 a 4 mil hectares, na mão de uma única pessoa, muitas vezes sem documento. Tem histórias de gente que trocou centenas de hectares por semente de capim, sinal de que a terra foi adquirida com muita facilidade ou sem custo”, conta Haroldo.


Vivendo em terra assentada há cerca de 10 anos, ele não convive mais com esse tipo de conflito. Trabalha atualmente com o cultivo de acerola e goiaba, e, diferentemente dos personagens errantes de Guimarães Rosa, conseguiu fincar raízes onde vive. Não precisa mais ir de fazenda em fazenda oferecendo serviços diários.


Cerrado

Ao redor do rio Urucuia, cidades como Uruana de Minas, Urucuia, Formoso, Chapada Gaúcha e Morrinhos mantêm certas tradições que remontam não só ao universo de “Grande sertão: Veredas”, mas também de outras obras do escritor mineiro, como “Manuelzão e Miguilim”, “Primeiras estórias” e “Sagarana”. São tradições passadas de mãe para filha, como as fiandeiras, tingideiras, bordadeiras e artesãs que trabalham com elementos locais.


Espalhada em horizontes largos e chapadas secas, a vegetação do cerrado mistura buritis, mangaba, baru e plantas medicinais como copaíba e velame. Adaptadas ao fogo e à estiagem, espécies como o pau-terra ajudam a compor a paisagem retorcida do sertão do Urucuia. Quando elas não servem de matéria-prima, funcionam como inspiração para as artesãs.


A urucuiana Vanderlúcia Martins Soares, de 69 anos, por exemplo, passou grande parte da vida usando fibras de buriti para confeccionar porta-joias, caixas e bolsas. Ela corta folhas de buriti numa vereda próxima e as utiliza como base de seu artesanato, trabalhando apenas com a fibra e o barbante

Já a uruanense Maria da Glória Rezende, de 61, transforma fios de algodão em novelo. Ela integra o Cores do Cerrado, um coletivo de bordadeiras, tingideiras e fiandeiras de Uruana – projetos de conservação, associações e cooperativas, aliás, são recorrentes na região.


“Minha mãe era fiandeira, mas não deixava a gente mexer nas coisas dela. Eu ficava observando e, quando ela não estava por perto, tentava repetir. Fiz muita roupa de boneca”, conta, bem-humorada.


Depois de transformar o algodão bruto em fio, Maria da Glória passa o material para o tingimento, realizado a partir de folhas de mangueira, amoreira, baru, tingui ou eucalipto. “Tem que ser folha mais velha, de preferência que já está caída no chão. Quanto mais velha a folha, mais forte a cor”, explica.


As folhas são fervidas com água. “Folha de mangueira com a de amoreira dá verde. Folha de eucalipto sozinha fica cinza. Casca de tingui dá rosa e, casca do fruto de baru, rosa claro”, diz. Depois de tingidos, os fios de algodão vão para as bordadeiras ornamentar tecidos com desenhos da fauna e flora locais.


“Em ‘Grande sertão: Veredas’, Guimarães Rosa registra minuciosamente a região, citando locais específicos como Morrinhos, Arinos, Chapada [Gaúcha], Urucuia e Serra das Araras”, destaca o historiador Ricardo Lourenço Neto, nascido e criado em Arinos. “Embora seja famoso pelos neologismos, na verdade, ele simplesmente registrou o linguajar real do sertanejo. Ele capturou o falar cantado e expressões locais, algumas usadas até hoje”, afirma.


O sertão contemporâneo do Noroeste de Minas revela uma paisagem em transformação contínua, onde memória, disputa e pertencimento permanecem vivos ao longo de gerações. As antigas guerras de jagunços ficaram para trás. Ainda assim, a terra continua determinando caminhos, disputas e permanências em uma região onde passado e presente convivem lado a lado. n

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*O jornalista viajou a convite do Programa Copaíbas/Funbio

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