Leonencio Nossa lança em BH primeira biografia de fôlego de Guimarães Rosa
Jornalista participa nesta quinta-feira (23/4) do projeto Sempre um Papo, no auditório do Tribunal de Contas de Minas Gerais
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Veio de um dos mais dedicados e respeitados bibliófilos brasileiros, o poeta, ensaísta e acadêmico Antônio Carlos Secchin, o aval de que o jornalista Leonencio Nossa precisava. “Mas a sua biografia é jornalística, não é?”, perguntou. A sensação de alívio foi imediata, pois foi com a alma de repórter que trafega pelos rincões do país que ele realizou “João Guimarães Rosa: Biografia” (Nova Fronteira/Topbooks).
Com lançamento hoje (23/4), no projeto Sempre um Papo, no auditório do Tribunal de Contas, o livro – aliás, livraço de mais de 700 páginas – é a primeira biografia de fôlego de um dos cânones da literatura brasileira. Não deixa de ser curioso o ineditismo diante da imponência da obra de Guimarães Rosa.
“Talvez o jornalismo tenha avaliado que a verdade já estava na ficção dele”. Assim Leonencio tenta entender a razão de nenhum colega ter se aventurado antes. Em 2026, vêm sendo celebrados os 70 anos de “Grande sertão: Veredas”, os 80 de “Sagarana” e os 90 do prêmio que a Academia Brasileira de Letras deu a “Magma”, único volume de poesia de Rosa – obra que o próprio refutou e foi publicada postumamente.
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As efemérides, obviamente, alavancaram o lançamento. Mas o livro, o autor comenta, foi entregue há mais de um ano. A edição levou algum tempo, pois o projeto é ambicioso – só veio a cabo depois da união de duas editoras.
O volume é aberto com árvore genealógica e linha do tempo, traz dois cadernos de imagens (o primeiro de fotos, o segundo só com reproduções de cartas e dedicatórias de Rosa), farto material sobre os personagens da vida e obra do escritor, além dos lugares onde ele viveu.
Leitura 'possível'
Autor de obras de fôlego, o capixaba radicado em Brasília já publicou livros-reportagens sobre as guerrilhas do Araguaia, as guerras da Independência e o Rio Amazonas. Lançou ainda dois volumes de trilogia dedicada a Roberto Marinho.
O universo literário, até então, era terreno inexplorado. Leonencio deu início ao projeto de Rosa em 2006. “Por vezes, jornalistas entram em certa seara de forma imprudente e vão tocando. Tive consciência, desde o início, de que era possível fazer, pois não queria decifrar a obra, que é superdifícil e infinita. Nosso trabalho, como jornalistas, é fazer uma leitura prévia do mundo. Minha biografia era a leitura possível a partir do ponto de vista jornalístico. Então, não senti temor de enfrentar o personagem.”
A observação de Secchin – Leonencio o considera padrinho do livro – mostrou que ele estava no caminho. O bibliófilo foi um dos mais de 50 entrevistados. O editor José Mário Pereira, da Topbooks, abriu muitos caminhos, inclusive para a família de Rosa. Não só as duas filhas, Vilma (1931-2022) e Agnes (1934-2016), mas também parentes distantes, primos encontrados no interior de Minas Gerais.
“Não é possível fazer uma biografia se você não chegar nas pessoas mais próximas. A família é a guardiã, não tem como fugir. Percebi, através de cartas, que Rosa estava meio que no comando da sua própria biografia, mesmo depois de sua morte”, comenta Leonencio. Só cartas, leu duas mil, tanto de Rosa quanto das filhas. “Criou-se o mito de que Vilma e Agnes criavam obstáculos. O que não se pode negar é que as filhas, quando morreram, deixaram obra valorizada pela crítica e com vendagem alta.”
O autor refez o caminho do escritor no interior de Minas, em Belo Horizonte, no Brasil e no mundo. Chegou à Alemanha, onde Rosa atuou como vice-cônsul em Hamburgo de 1938 a 1942. “A viagem foi mais para impressões, pois os arquivos (da temporada dele) estão nos arquivos do Itamaraty. O mais forte da Alemanha foi o lote com 16 áudios do grande encontro de Rosa e (Jorge Luis) Borges em 1964.”
Para Leonencio, o mais valioso veio do interior de Minas, no retrato que conseguiu da família do escritor. Belo Horizonte foi um local-chave, pois o jornalista encontrou boa parte da correspondência no acervo do Museu Mineiro.
Os “Diários de guerra” de Rosa, cuja única cópia pública está disponível no Acervo dos Escritores Mineiros, da UFMG, foi outra fonte relevante.
“Tão importante quantos os arquivos foi minha imersão na cidade. Fiquei um dia inteiro na Igreja São José, lugar que ele frequentava, para entender a atmosfera de Belo Horizonte.”
Chuvinha
Leonencio lembra a carta de Rosa para um amigo, lida no Museu Mineiro, que termina com um comentário simples: “Nossa, que chuvinha fina, gostosa”.
“Na rodoviária de Belo Horizonte, voltando para Brasília, tentei arrumar passagem para outro horário. Finalmente consegui, e a moça do guichê disse: ‘Ufa, está uma chuvinha gostosa’. O arquivo do Rosa está nas ruas. Ele é tratado como inventor da língua, mas é ouvidor da linguagem das ruas, não apenas do interior. Para mim, a grandiosidade dele é juntar linguagens tão diferentes do Brasil.”
Na próxima terça-feira (28/4), Leonencio Nossa participa do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços), onde se encontra com a tradutora australiana Alison Entrekin para o debate “Traduzir o sertão, biografar o gênio”. Alison realizou nova tradução de “Grande sertão”. O livro “Vastlands: The crossing” será lançado em 2027, quando se completarão 60 anos da morte de Guimarães Rosa.
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SEMPRE UM PAPO
Lançamento de “João Guimarães Rosa: Biografia”, livro de Leonencio Nossa. Nesta quinta-feira (23/4), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (Avenida Raja Gabaglia, 1.315, Luxemburgo). Entrada franca. O volume, publicado pelas editoras Topbooks/Nova Fronteira, tem 736 páginas e custa R$ 199,90.