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Leonencio Nossa: 'Minas é a chave para entrada no mundo de Guimarães Rosa'

De questões de gênero à brutalidade do Estado, biógrafo explica como o clássico de 1956 antecipou os maiores dramas sociais do Brasil do século 21

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O fascínio pela obra de Guimarães Rosa acompanha o jornalista e historiador Leonencio Nossa desde a adolescência. Mas foi nos últimos 20 anos que ele, movido pelo desejo de escrever sobre a vida do mineiro de Cordisburgo, transformou admiração, pesquisas e reflexões em palavras. O mergulho profundo resultou em “João Guimarães Rosa – Biografia”(Topbooks e Nova Fronteira), lançado neste ano em que “Grande sertão: veredas”e “Corpo de baile”, duas das obras mais importantes do escritor, completam sete décadas de publicação. 

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“A chave para a entrada no mundo de Guimarães Rosa é Minas Gerais, não apenas os Gerais. Então, o que mais fiz, nos últimos anos, foi percorrer o cerrado, andar pelos lados da caatinga, conhecer povoados e lugares citados no romance e nas novelas do autor. A biografia é um olhar sobre Minas”, afirma Leonencio, certo de que “não é tarefa muito fácil reconstituir fatos de uma vida que se forjou na busca de uma ficção densa”. 

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A decisão de escrever a biografia não foi bem um ato de coragem, explica o historiador e jornalista. E por quê? Eis a resposta: “Quando você começa uma viagem a um lugar remoto, não é possível saber com antecedência o grau de dificuldade que terá pela frente. É claro que um gênio pode assustar. No entanto, sempre tive consciência de que meu trabalho de biógrafo não era, necessariamente, decifrar uma obra literária, mas levantar informações sobre o intelectual por trás da criação”. 

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A partir da biografia, será possível entender mais sobre a obra do homem que revolucionou a linguagem e criou um universo ficcional místico, de referências a religiões e à fé. Leonencio explica que não seguiu a velha receita de separar o homem do mito – não é algo possível. “Essas faces dialogam, e entender seus limites parece ser o desafio. Nós, jornalistas, temos alguns instrumentos para fazer um perfil, mostrar fragilidades, limitações, desejos. É claro que, no caso de um inovador da literatura, de vida sóbria e reservada, esse trabalho costuma levar anos.”

Escrever sobre Guimarães Rosa é quase como entrar num “espaço sagrado” da literatura – e muitos pensam assim em Minas Gerais. Se o próprio autor de “Grande sertão: veredas” deixou registrado que “o que a vida quer da gente é coragem”, como o senhor se preparou para essa missão? 

A decisão de escrever a biografia de Guimarães Rosa não foi bem um ato de coragem. Passei muito tempo na pesquisa, em reflexões e estudos. Quando você começa uma viagem a um lugar remoto, não é possível saber com antecedência o grau de dificuldade que terá pela frente. É claro que um gênio pode assustar. No entanto, sempre tive consciência de que meu trabalho de biógrafo não era, necessariamente, decifrar uma obra literária, mas levantar informações sobre o intelectual por trás da criação. Isso não quer dizer que segui a velha receita de separar o homem do mito – não é algo possível. Essas faces dialogam, e entender seus limites parece ser o desafio. Nós, jornalistas, temos alguns instrumentos para fazer um perfil, mostrar fragilidades, limitações, desejos. É claro que, no caso de um inovador da literatura, de vida sóbria e reservada, esse trabalho costuma levar anos. A propósito, o pessoal de Minas deve considerar que escrever sobre Rosa é entrar em um espaço sagrado, porque se trata de um autor que revolucionou a linguagem. E, por outro lado, criou de um universo ficcional místico, de referências a religiões e à fé. 

Como foi o mergulho na obra de Guimarães Rosa? O senhor conheceu os lugares onde se passa, por exemplo, “Grande sertão: veredas”, e outras localidades do interior mineiro? 

Trabalho como jornalista em Brasília. A capital está no polígono geográfico do “Grande Sertão”. O romance descreve um território que abrange o Oeste baiano, o Norte e o Noroeste de Minas, o Jalapão, hoje região de Tocantins, e os Gerais de “Goiás abaixo”, como descreve Riobaldo no livro, até Luziânia, a antiga Santa Luzia, logo passa pela área do Distrito Federal. Então, posso dizer qu escrevi a biografia em pleno sertão rosiano... Quando não era possível viajar para o interior de Minas, eu visitava a rodoviária do Plano Piloto (Brasília). Ali você encontra os sertanejos, sente o sertão no centro da capital modernista e planejada. É quase um paradoxo. Aliás, a academia classificava a obra do escritor como “regionalista”, depois, diante do impacto da narrativa, passou a afirmar que ele adotara o “regionalismo universal”. Às vezes. penso que a ideia de um sertão imaginário, formado inclusive por mitos da antiguidade e personagens universais, tem um efeito colateral. Não podemos esquecer o ambiente imagético e humano do romance, não menos decisivo no entendimento da obra. A chave para a entrada no mundo de Guimarães Rosa é Minas Gerais, não apenas os Gerais. Então, o que mais fiz, nestes últimos anos, foi percorrer o cerrado, andar pelos lados da caatinga, conhecer povoados e lugares citados no romance e nas novelas do autor. A biografia é um olhar sobre Minas. 

Muito já se escreveu sobre o escritor, mas há sempre algo para se descobrir. O que pode surpreender o leitor nesta biografia?

É a primeira biografia de Guimarães Rosa, ao menos no modelo do gênero literário consolidado por Ruy Castro no Brasil: um perfil exaustivo, de história corrida, com foco no personagem central. O trabalho coletivo de duas casas editoriais de tradição, a Topbooks e a Nova Fronteira, na produção da biografia do escritor preenche uma lacuna. A equipe que produziu esse livro é fantástica, conhece a obra de Rosa a fundo. Ele bebeu de fontes como o samba, a política partidária, as publicações populares. Viveu seu tempo sempre com o intuito de aproveitar as experiências em sua produção literária. 

Participei, há 10 anos, da equipe do Estado de Minas que buscou encontrar, no interior de Minas Gerais, na região do cerrado, versões atualizadas de Diadorim. Passados 70 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, pergunto se o senhor vê algo de contemporâneo na obra.

O especial “Travessia” evidenciou que o drama da mulher-soldado, isto é, o desafio de uma pessoa de se posicionar com sua própria identidade, permanece no nosso dia a dia tanto tempo depois da publicação do romance de Guimarães Rosa. O trabalho do Estado de Minas é uma releitura jornalística muito sensível. Acredito que a questão da diversidade de gênero, a violência à espreita, ilustra a contemporaneidade do “Grande sertão”, que propõe ainda outros debates cruciais pendentes, urgentes. É característica de um clássico apresentar personagens e situações que ajudam na compreensão da vida do leitor a qualquer momento histórico. Isso é ainda mais forte no caso de uma obra ambientada na transição de um país rural para o urbano, um período que não acabou. Estamos ainda nessa transição, com todos os seus choques e dramas – o êxodo constante, a urbanização desenfreada das cidades, as tragédias nas periferias, as questões de saúde mental, a brutalidade do Estado. O olhar jornalístico apresenta um diagnóstico especial de uma obra literária. Afinal, consegue enxergar a realidade descrita pela ficção, mesmo a mais escondida. 

Certamente, todo esse trabalho sobre vida e obra do escritor provocou no senhor muito fascínio. Quando começou sua admiração pelo escritor natural de Cordisburgo? 

Minha adolescência foi um mergulho nas obras dos grandes escritores contemporâneos. Vem daí o fascínio por Guimarães Rosa. Entretanto, o momento da escrita da biografia me afastava da condição de leitor. O biografado que surgia na tela do computador não era, necessariamente, o autor de “Sagarana” e de “Tutameia”. Mas um sujeito em uma situação cotidiana, trivial ou difícil, que, fora de sua rotina de médico ou diplomata, escrevia histórias. É possível que o esforço de levantar informações sobre o homem contribua para a compreensão de seus textos. Agora, não é tarefa muito fácil reconstituir fatos de uma vida que se forjou na busca de uma ficção densa. 

Quanto tempo durou o processo de pesquisa e redação de “João Guimarães Rosa – Biografia”? 

A pesquisa começou há 20 anos, exatamente em 2006, no aniversário de 50 anos do “Grande Sertão”. Não parei mais. Ao longo do tempo, fiz outras coisas na vida, publiquei alguns livros, me dediquei a trabalhos complexos. Posso afirmar que a biografia de Guimarães Rosa tornou tudo mais suave. Contei com a ajuda de muita gente. O editor José Mario Pereira abriu portas de pessoas do círculo mais íntimo do escritor, o que permitiu novos olhares e percepções. Durante a pandemia, finalizei o livro, uma síntese das informações obtidas em arquivos e depoimentos orais. Foi quando estive mais próximo mesmo de Rosa. 

O senhor pode nos dizer como foi o “nascedouro” de “Grande sertão: veredas”? Onde o livro foi escrito, em quem o escritor se inspirou? 

A princípio, o “Grande sertão”era uma das novelas de “Corpo de baile”, obra de dois tomos que Guimarães Rosa preparava no tempo em que vivia em Paris, no pós-guerra. Mas, no decorrer da escrita, ganhou forma independente, virou um romance. As primeiras menções ao “Grande sertão”são de 1949. O romance reúne memórias e descrições, em especial, do interior de Minas, do Pantanal e de Belo Horizonte, onde viveu a juventude. A capital mineira teve forte impacto na construção das bases do romance, ambientado fora dela, no sertão. Talvez seja a menos lembrada das “cidades rosianas”. 

A célebre viagem, em 1952, de Guimarães Rosa ao longo de 240 quilômetros ao lado do vaqueiro Manuelzão, teve importância vital na escrita do “Grande sertão”, certo? 

As viagens de Rosa à região Central de Minas, em 1945, e ao Pantanal, dois anos depois, talvez tenham sido mais decisivas para a estrutura da obra. A primeira excursão ao interior mineiro com o amigo Pedro Moreira Barbosa, logo após a Segunda Guerra, foi um divisor de águas, com a fixação das veredas no romance e também nas novelas de “Corpo de baile”. A viagem de 1952, por sua vez, não rendeu tantos subsídios, embora tenha contribuído com registros de tipos humanos, plantas e bichos. Entrou para o imaginário do meio literário por conta da divulgação em “O Cruzeiro”. Quando a revista foi publicada, o “Grande sertão” e as novelas de “Corpo de baile” estavam em preparação havia tempo. Percebe-se que nos anos 1970 e 1980, a publicidade e o jornalismo supervalorizaram essa viagem. 

Na biografia, há passagens que o leitor e admirador de Rosa ainda não conhece? Pode nos contar alguma? 

Minha pretensão é que o leitor de Guimarães Rosa se surpreenda com informações inéditas. A biografia deve abrir novos ângulos sobre uma obra literária que fascina o Brasil e o mundo. O livro descreve situações corriqueiras da vida do escritor, momentos conturbados de um intelectual que fugia da História – foi para a Alemanha e a guerra se intensificou, estava na Colômbia, e de repente surgiu uma insurreição popular. Também descreverá situações complexas de um homem que se entregou totalmente à literatura. 

De todas as frases dos livros, qual o senhor destaca como inesquecível? Se quiser, fique à vontade para citar várias. 

Gosto das reflexões que nos levam a acreditar na mudança interior. Uma delas está no “Grande sertão”: “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”Também no romance aparece um trecho que gosto muito: “Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado”. Aliás, o sentido dessa última análise apareceu mais tarde no filme “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola, quando o personagem de Marlon Brando diz que é “o julgar que nos derrota”. Ainda há uma outra que destacaria, do conto “O espelho”, de “Primeiras estórias”: “Soube-o: os olhos da gente não têm fim”.

LANÇAMENTO EM BH

O lançamento da biografia de João Guimarães Rosa em Belo Horizonte será no dia 23 deste mês, às 19h, em conversa de Leonencio Mossa com Afonso Borges no projeto “Sempre um papo” no auditório do TCE-MG (Av. Raja Gabaglia, 1.315).

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A vida nos deu de presente uma DESCOBERTA 

O bastidores da reportagem que revelou, pelos caminhos rosianos, personagens que encarnam na vida real o dilema do amor que desafia preconceitos 

Já se passaram 10 anos – e custo a acreditar nisso – que o Estado de Minas publicou a matéria especial “Travessia – A diversidade no grande sertão de Rosa, Riobaldo de Diadorim”, para marcar seis décadas de “Grande sertão: veredas”. Parece que foi ontem e, nesse caso, não é apenas mera impressão ou cilada do tempo, mas pura verdade. Afinal, quando pessoas que entrevistamos pelo caminho marcam nossa vida, se tornam também companheiras de jornada, não se despedem facilmente. Ficam guardadas no coração, estamos sempre nos lembrando delas com os melhores sentimentos. 

Agora, com mais um aniversário do livro do escritor mineiro, toda a viagem me vem à cabeça. E sei que foi, mais do que uma pauta jornalística, um divino presente da vida. Eu estava lá, e me orgulho muito desse trabalho. 

Para produzir “Travessia”, a equipe do EM – formada também por Alexandre Guzanshe, Fred Bottrel e Fernando Ragazzi – percorreu cerca de 2,5 mil quilômetros em 10 dias nas trilhas campeadas pelos personagens principais da obra. Lugares fundamentais na história, como a Barra do Rio de Janeiro, em Três Marias, e o Paredão de Minas, em Buritizeiro. Foram muitas horas de labuta, do amanhecer ao fim da noite, atrás de homens e mulheres com relatos de grande valor para a reportagem. Gente que se veste de coragem para cruzar suas veredas em busca da felicidade plena ao lado de alguém do mesmo sexo. 

A travessia de descobertas foi extensa, incluindo, entre os temas abordados, a violência contra a diversidade no sertão mineiro. Encontramos Diadorins em busca da própria identidade, de um lugar de luz para viver em paz. Pessoas que, a exemplo da misteriosa criação do escritor, tiveram coragem para enfrentar perigos em suas próprias cruzadas. O que sempre me pergunto, às vezes – e agradeço – é a forma como todas as pessoas entrevistadas se colocaram em nossas mãos para contar, muitas vezes, das suas muitas descidas ao inferno para ver um pedacinho do céu. 

Do pai de Luana, adolescente que descobriu o amor com uma menina quase da mesma idade e a levou para viver na sua casa, ouvi a seguinte frase: “Para não perder uma filha, achei melhor ficar com duas. Não quero viver sem ela”. Em tempos de tanta crueldade contra as mulheres, independentemente da idade delas, guardo essa frase como de puro amor pela humanidade. Aliás, como escreveu Guimarães Rosa no “Grande sertão”, “o que existe é homem humano”. Maior verdade, impossível. 

Quando me perguntaram como foi escrever a matéria, respondi sem titubear: “Na verdade, foram três viagens. A leitura do livro, o roteiro pelo interior e a redação do texto”. Mas, para chegar ao ponto final, precisei de escutar a revelação de Pablo, então com 29 anos: “Sou um homem que se veste de mulher (...) Somente vivendo do jeito que se é, do modo que se gosta, pode haver felicidade. Não vou viver como os outros querem”. 

Quanto mais viajávamos sertão adentro, mais o inesperado nos sorria. E trazia surpresas. Foi extraordinário conhecer Carol, mãe de um menino e uma menina “gerados em balada”, conforme contou aos 21 anos. O grande amor se transformara num retrato no espelho do guarda-roupa da moradia humilde: o romance com a menina pela qual era apaixonada desandou e desapareceu na poeira do tempo. Bem distante dali, conhecemos Dália, defensora de uma vida sem amarras e preconceitos, e Genivaldo, o Gegê, que foi cabeleireiro da atriz Bruna Lombardi nas gravações da minissérie “Grande sertão”, de 1985, da Rede Globo. 

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Nos caminhos, sentimos a dor de dona Rosa, que reunia forças e provas para saber quem matou seu filho, de nome social Kiara. O assassinato ocorrera no mesmo local onde Diadorim morre durante a batalha final descrita no livro de Rosa. E como tudo na vida tem dois lados, e a esperança deve prevalecer, encontramos Hiago, que, à noite, com peruca e maquiagem, se transformava em Débora. Em poucas palavras, resumiu sua metamorfose: “Não é uma vida fácil, tem sofrimento, mas tem suas alegrias, o luxo”.

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