Travessia: 10 anos da viagem que mostrou Diadorins de carne e osso
O bastidores da reportagem que revelou, pelos caminhos rosianos, personagens que encarnam na vida real o dilema do amor que desafia preconceitos
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Já se passaram 10 anos – e custo a acreditar nisso – que o Estado de Minas publicou a matéria especial “Travessia – A diversidade no grande sertão de Rosa, Riobaldo de Diadorim”, para marcar seis décadas de “Grande sertão: veredas”. Parece que foi ontem e, nesse caso, não é apenas mera impressão ou cilada do tempo, mas pura verdade. Afinal, quando pessoas que entrevistamos pelo caminho marcam nossa vida, se tornam também companheiras de jornada, não se despedem facilmente. Ficam guardadas no coração, estamos sempre nos lembrando delas com os melhores sentimentos.
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Agora, com mais um aniversário do livro do escritor mineiro, toda a viagem me vem à cabeça. E sei que foi, mais do que uma pauta jornalística, um divino presente da vida. Eu estava lá, e me orgulho muito desse trabalho.
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Para produzir “Travessia”, a equipe do Estado de Minas – formada também por Alexandre Guzanshe, Fred Bottrel e Fernando Ragazzi – percorreu cerca de 2,5 mil quilômetros em 10 dias nas trilhas campeadas pelos personagens principais da obra. Lugares fundamentais na história, como a Barra do Rio de Janeiro, em Três Marias, e o Paredão de Minas, em Buritizeiro. Foram muitas horas de labuta, do amanhecer ao fim da noite, atrás de homens e mulheres com relatos de grande valor para a reportagem. Gente que se veste de coragem para cruzar suas veredas em busca da felicidade plena ao lado de alguém do mesmo sexo.
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A travessia de descobertas foi extensa, incluindo, entre os temas abordados, a violência contra a diversidade no sertão mineiro. Encontramos Diadorins em busca da própria identidade, de um lugar de luz para viver em paz. Pessoas que, a exemplo da misteriosa criação do escritor, tiveram coragem para enfrentar perigos em suas próprias cruzadas. O que sempre me pergunto, às vezes – e agradeço – é a forma como todas as pessoas entrevistadas se colocaram em nossas mãos para contar, muitas vezes, das suas muitas descidas ao inferno para ver um pedacinho do céu.
Do pai de Luana, adolescente que descobriu o amor com uma menina quase da mesma idade e a levou para viver na sua casa, ouvi a seguinte frase: “Para não perder uma filha, achei melhor ficar com duas. Não quero viver sem ela”. Em tempos de tanta crueldade contra as mulheres, independentemente da idade delas, guardo essa frase como de puro amor pela humanidade. Aliás, como escreveu Guimarães Rosa no “Grande sertão”, “o que existe é homem humano”. Maior verdade, impossível.
Quando me perguntaram como foi escrever a matéria, respondi sem titubear: “Na verdade, foram três viagens. A leitura do livro, o roteiro pelo interior e a redação do texto”. Mas, para chegar ao ponto final, precisei de escutar a revelação de Pablo, então com 29 anos: “Sou um homem que se veste de mulher (...) Somente vivendo do jeito que se é, do modo que se gosta, pode haver felicidade. Não vou viver como os outros querem”.
Quanto mais viajávamos sertão adentro, mais o inesperado nos sorria. E trazia surpresas. Foi extraordinário conhecer Carol, mãe de um menino e uma menina “gerados em balada”, conforme contou aos 21 anos. O grande amor se transformara num retrato no espelho do guarda-roupa da moradia humilde: o romance com a menina pela qual era apaixonada desandou e desapareceu na poeira do tempo. Bem distante dali, conhecemos Dália, defensora de uma vida sem amarras e preconceitos, e Genivaldo, o Gegê, que foi cabeleireiro da atriz Bruna Lombardi nas gravações da minissérie “Grande sertão”, de 1985, da Rede Globo.
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Nos caminhos, sentimos a dor de dona Rosa, que reunia forças e provas para saber quem matou seu filho, de nome social Kiara. O assassinato ocorrera no mesmo local onde Diadorim morre durante a batalha final descrita no livro de Rosa. E como tudo na vida tem dois lados, e a esperança deve prevalecer, encontramos Hiago, que, à noite, com peruca e maquiagem, se transformava em Débora. Em poucas palavras, resumiu sua metamorfose: “Não é uma vida fácil, tem sofrimento, mas tem suas alegrias, o luxo”.