Trilogia sobre a história da Globo termina com ‘A metamorfose’
Recém-lançado, o último volume da série escrita por Ernesto Rodrigues aborda a reconfiguração da empresa, a partir do início dos anos 2000
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No início dos anos 2000, as relações comerciais entre a Globo e entidades de futebol como a Fifa e a Confederação Sul-americana de Futebol (Conmebol) eram, no mínimo, suspeitas. Era corrente a tese de que havia pagamento de propina aos dirigentes da Fifa, mas não havia provas. No almoço de despedida de Ciro José, um dos pioneiros na diretoria de esportes da Globo, o homenageado fez um brinde, dizendo: “Contem com meu obsequioso silêncio”. Todos entenderam o recado.
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Na mesma época, o polêmico “Linha direta”, conhecido por seus escorregões éticos, era comandado por Marcelo Rezende (1951-2017). “Está difícil conviver com ele. A equipe não o suporta. Maltrata quase todo mundo”, desabafou o então diretor-geral do programa, Milton Abirached.
Ainda nos anos 2000, Benedito Ruy Barbosa, que morreu no último dia 7, aos 95 anos, vivia sob pressão para alcançar bons números de audiência com suas novelas. Angustiado, exagerava nas doses de cerveja e de cigarro.
Esses são alguns dos bastidores contados no terceiro volume da biografia da Rede Globo, “A Globo – Metamorfose” (Autêntica), escrita pelo jornalista Ernesto Rodrigues. Foram sete anos de trabalho. “Período em que mergulhei em mais de 450 entrevistas com ex-funcionários e pessoas importantes na história da emissora”, conta.
A trilogia procura desmontar uma visão simplificada sobre a Globo. “Existem várias teorias e lendas. Mas os livros mostram que a Globo é um pouco do que o país é. Quando alguém diz que ela é manipuladora, de certa maneira, está negando a própria história”, afirma.
RETROSPECTO
Essa perspectiva está em todos os três volumes. O primeiro, “A Globo – Hegemonia”, acompanha a ascensão da emissora desde sua fundação, em 1965, passando pelo controverso acordo com o grupo Time-Life, pelo alinhamento ao regime militar e pela cobertura das Diretas Já!, duramente criticada pela demora em reconhecer a dimensão do movimento. Também revela os conflitos nos bastidores da dramaturgia, marcados por disputas internas e episódios de assédio moral.
No segundo volume, “A Globo – Concorrência”, o recorte temporal é entre 1985 a 1998. O período foi marcado pela morte de Tancredo Neves antes da posse; debate presidencial entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, editado de forma favorável ao candidato alagoano; guerra empresarial entre Roberto Marinho (1904-2003) e Silvio Berlusconi (1936-2023); e pelo desgaste físico imposto ao elenco diante do intenso ritmo de produção de novelas.
Agora, em “A Globo – Metamorfose”, Ernesto mostra a transformação da emissora desde a virada do milênio até a consolidação das plataformas de streaming, que romperam a hegemonia da emissora na TV aberta.
Muita coisa aconteceu durante esse período. A seleção brasileira foi pentacampeã mundial, com direito a cobertura ao vivo do “Jornal Nacional” dentro do ônibus do time – na verdade, conforme Ernesto conta, aquela transmissão não foi bem “ao vivo”, mas um truque que fez parecer que Fátima Bernardes estava no ar em tempo real –, a morte de Roberto Marinho; as coberturas do Mensalão e da Lava Jato; a queda preocupante da audiência das novelas; as mudanças no jornalismo esportivo depois da Copa do Mundo de 2014 e as importantes decisões tomadas por diretores da emissora que implicaram no orçamento da empresa.
Ernesto não evita capítulos mais espinhosos da história recente da Globo. Um deles é a cobertura da Lava Jato. O noticiário acabou reforçando a percepção de que apenas o Partido dos Trabalhadores estava associado aos esquemas de corrupção e adotou, por longo tempo, a versão apresentada pelos procuradores como narrativa predominante. Posteriormente, vieram à tona as relações entre integrantes da força-tarefa e o então juiz Sergio Moro.
“BBB”
No entretenimento, uma das disputas mais emblemáticas envolveu o "Big Brother Brasil". Antes da estreia do reality, o SBT negociou a compra do formato com a Endemol, mas desistiu de fechar o negócio. Pouco depois, lançou “Casa dos artistas”, programa de estrutura praticamente idêntica, provocando uma disputa judicial e comercial entre as emissoras e a detentora dos direitos.
Enquanto isso, a dramaturgia enfrentava outro desafio. Já não era o excesso de produção que levava autores ao limite, mas a dificuldade de conter a perda contínua de audiência diante do avanço do YouTube e das plataformas de streaming. A Globo respondeu a esse novo cenário com o lançamento do Globoplay, numa tentativa de adaptar seu modelo de negócios à nova forma de consumo audiovisual. Mas o resultado ainda está aquém das grandes plataformas.
Também nessa época, começaram a surgir ataques massivos contra a Globo, inflamados, principalmente, por perfis nas redes sociais. Frases de efeito como “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” e neologismos como “Globolixo” passaram a ser comuns. Saíram do ambiente digital, sendo incorporados ao mundo político. E encontraram eco no então deputado federal Jair Bolsonaro, que viria a ser presidente e ameaçaria cassar a concessão da emissora.
Bolsonaro, aliás, chegou a diminuir consideravelmente a verba publicitária destinada à Globo. Mas, de acordo com Ernesto, a atitude do ex-presidente não abalou o caixa da emissora, já que cotas de patrocínio de futebol e "BBB" praticamente garantiam o orçamento anual da empresa.
Assim como os dois volumes anteriores, “A Globo – Metamorfose” tem formato narrativo que não exige leitura linear. O leitor pode escolher temas ou episódios. “Embora seja um livro muito grande [são pouco mais de 800 páginas], é fácil de ser ‘consumido’. Ouso até dizer que seja agradável”, arrisca Ernesto.
Juntos, os três volumes somam pouco mais de duas mil páginas. Não é algo que vai atrair o público, reconhece o autor. “Mas, como disse minha agente: ‘Esse projeto talvez não seja best seller, mas vai ser um long seller’. Espero que seja. Não quero a ribalta da fama, só um reconhecimento de um trabalho que foi muito sério”, afirma
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“A GLOBO – METAMORFOSE”
• Autor: Ernesto Rodrigues
• Autêntica
• 872 páginas
• R$ 164,90