Lindo como ele só, Djavan arrebatou Brasília em show no Mané Garrincha
Set list reuniu 28 hits, entre eles "Linha do Equador", com referências à cidade. De poucas palavras, Djavan privilegiou a música e as cores de seu cancioneiro
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Brasília – Desde que Milton Nascimento se despediu dos palcos com “A última sessão de música” (2022), outros grandes da MPB seguiram o modelo revisionista de shows em estádios. Cada qual à sua maneira – Caetano e Bethânia juntos, Gilberto Gil com convidados – reviu a própria história para multidões.
Djavan escancara sua intenção já no nome da temporada: “Só sucessos” é o subtítulo da turnê “Djavanear”. Ao elencar número enorme de músicas – 28 em 160 minutos no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 27 de junho, parada anterior à de BH –, Djavan nos fez lembrar a quantidade de hits que coleciona desde que ganhou o público com “Fato consumado” (1975).
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Não há versão para música de ninguém, não há hagiografia, não há falatório. É só ele, sua música, uma superbanda e projeções criadas a partir de trabalhos de artistas brasileiros – a obra de Djavan é carregada de cores.
Gringo Cardia, que assina a direção artística, criou como que uma história gráfica para cada canção. Cinco telões verticais exibem as projeções (mais dois, um em cada lateral, destacam a movimentação de Djavan no palco).
As imagens se fundem com obras de artistas visuais conhecidos, como Vik Muniz, Walter Firmo e João Farkas. A azulejaria de nomes essenciais do modernismo brasileiro, Athos Bulcão e Candido Portinari, é destacada no show. No Mané Garrincha, a plateia foi saudada com o verso “Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim”, do hit “Linha do Equador”.
“Azul” é recheada de peixes e estrelas do mar de Portinari – um olhar mais atento revela azulejos do painel “Peixes” (1961), do Pampulha Iate Clube (PIC), em BH.
A costura de canções obedece mais a gênero do que a cronologia. “Sina”, do álbum “Luz” (1982), o primeiro gravado nos Estados Unidos, abre e fecha o show. “Eu te devoro”, “Boa noite” e “Cigano” vêm na sequência, fusão sofisticada de ritmos brasileiros com elementos do soul e do jazz.
Djavan é econômico nas palavras. Conversa com o público em dois momentos pontuais. No primeiro, reverencia Gal Costa, sua maior intérprete (gravou 13 canções dele). “Ela entendia totalmente as minhas músicas, dava a elas interpretação sempre muito emocionante”, disse.
O set inclui “Azul”, “Açaí” e “O vento” (parceria com Ronaldo Bastos). Essa última, que Gal lançou em 1987, foi recuperada por Djavan no disco “Improviso” (2025).
É também deste trabalho a única canção dos anos 2000. “Um brinde”, finalizada depois de uma ação nas redes sociais, quando Djavan convidou o público para criar a letra a partir da melodia, teve em Brasília recepção mais do que calorosa. A partir dela, veio o set de baladas, com “Meu bem querer” e “Oceano”.
Novelas
A popularidade de Djavan deve muito à teledramaturgia. “Meu bem querer” esteve na trilha de três produções da Globo, dando título a uma novela. Nesse momento, ele vai sozinho para uma área na frente do palco. O encontro com a plateia é lindo, e em mais de um momento Djavan deixa o microfone para dar vazão às milhares de vozes. Menos popular do que as anteriores, “Lambada de serpente”, com letra do poeta Cacaso, é certamente um acerto do show.
Djavan só volta a conversar com a plateia em “Quase de manhã”. Lançada há 40 anos no álbum “Meu lado”, feito nos EUA, foi gravada com o saxofonista David Sanborn. É um lado B entre os hits. Quando ouviu o resultado do disco, Djavan não gostou – mixou novamente quando voltou ao Brasil.
Na parte final, solto no palco, Djavan dá algum espaço para improviso dos músicos. Emenda três sucessos oitentistas: “Seduzir”, “Samurai” e “Lilás”. Esta última, acompanhada de chuva de papel colorido, faz o estádio virar micareta. Lindo como ele só.
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* A repórter viajou a convite da Live Nation