FILME/ESTREIA

Em 'Primavera', garota violinista rouba a cena de Vivaldi

Filme sobre autor de "As quatro estações", que estreia hoje, dá destaque a Cecilia, menina de orfanato que se apaixona pela música nas aulas do mestre italiano

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A riqueza melódica da obra de Antonio Vivaldi (1678-1741), além de sua extensa produção – quase 500 concertos, cinco dezenas de óperas –, fez dele um dos autores mais populares da Veneza de seu tempo. No entanto, morreu pobre e esquecido em Viena, para onde havia se mudado. Ficou esquecido por quase 200 anos.

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Com chegada nesta quinta-feira (9/7) aos cinemas, “Primavera” (estreia em longas do diretor de ópera Damiano Michieletto) recupera parte da trajetória do “Padre Vermelho”, apelido do compositor graças aos cabelos ruivos. Mas assim como o recente “Hamnet”, que fala de Shakespeare com destaque para sua mulher, é uma personagem feminina a protagonista.

Adaptação do romance “Stabat Mater”, de Tiziano Scarpa (inédito na Brasil, ganhou o Prêmio Strega, o Booker Prize italiano, em 2009), a produção ítalo-francesa é quase integralmente ambientada entre paredes. Durante quatro décadas, Vivaldi atuou no Ospedale della Pietà, em Veneza.

Criado no século 14 para receber meninas órfãs ou abandonadas, o orfanato se tornou, a partir do século 17, uma instituição de rigorosa educação musical. Crianças e jovens que exibiam talento passavam a fazer parte da orquestra e coro, as demais ficavam relegadas às tarefas domésticas. O auge do Ospedale se deu com a chegada de Vivaldi, que entre 1704 e 1740 foi professor de violino, regente e compositor da orquestra e coro.

Cecilia (Tecla Insolia), a protagonista de “Primavera”, é personagem ficcional. Deixada bebê à própria sorte pela mãe que ela nunca soube quem é, passa as noites escrevendo cartas para a mulher que não conheceu – ora com raiva, ora com amor.

A solidão é a grande companheira dela e das colegas. A vida se resume a tocar e esperar que algum homem rico escolha uma das jovens para casar. O arranjo será selado por meio dos muitos ducados (moeda corrente em Veneza) que o noivo destinar à instituição.

Gilead

As meninas vivem de forma quase monástica, longe dos olhos de todos. Nos concertos, ficam escondidas no alto do coro. Se vestem de vermelho, como as personagens da distopia Gilead de “O conto da aia”. Se, porventura, saírem em público, usarão máscara.

A plateia do Ospedale della Pietà está pequena frente aos concorrentes. Por isso, a direção decide chamar Vivaldi (Michele Riondino) para assumir a orquestra feminina.

Um ano antes de chegar à instituição, ele havia sido ordenado padre. Foi dispensado de celebrar missas por causa da saúde frágil – asmático, sofreu por toda a vida. Chegou ao orfanato já com muito prestígio na cena veneziana. No início, mantém distância das alunas. Mas sua maneira muito franca de ensinar e os métodos fora do convencional encantam as meninas.

Em especial Cecilia, dedicada violinista de 16 anos que descobre a paixão pela música com a entrada de Vivaldi no orfanato.

Os dois dão início à relação de mestre e aluna – é tudo platônico, diga-se. Mesmo sem ser a virtuose do grupo, ela se torna a primeira violinista. A presença do compositor a afeta consideravelmente – graças à música, escapa da mesmice de sua existência no orfanato.

Só que o destino dela já foi definido. Cecilia deverá se casar com um nobre recém-chegado da guerra. Com o casamento, abandonará definitivamente a música. Este é o ponto crítico do filme, e seu desenrolar vai enfatizar a opressão com que as mulheres eram tratadas em outro tempo, em especial aquelas sem nome e dinheiro.

Em meio ao drama das órfãs, há muita música. Em especial, fragmentos dos primeiros esboços de “As quatro estações”. No entanto, somente quando os créditos aparecem é que se ouve a obra máxima de Vivaldi que deu título ao filme: “Primavera” é o primeiro daqueles quatro concertos.

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“PRIMAVERA”

(Itália/França, 2025, 110min.) De Damiano Michieletto, com Michele Riondino e Tecla Insolia. O filme estreia nesta quinta (9/7), às 18h40 e 20h40, no Belas Artes 1; 19h55, no Centro Cultural Unimed-BH Minas; 13h30 e 19h, no Pátio 6; e 20h30, no Ponteio 2.

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