Annette Bening, estrela da série 'Lucky', saúda a liberdade de ousar
Aos 68, atriz brilha em séries após décadas no cinema, rompe estereótipos impostos a mulheres na 3ª idade e viaja 'como cigana' em busca de papéis estimulantes
Jornalista com 25 anos de experiência em cobertura cultural. No Estado de Minas, repórter de Cultura. Graduada em Jornalismo pela Puc-Minas e pós-graduada em Produção e Projetos Culturais pelo IEC-Puc Minas.
Annette Bening adorou treinar tiro ao alvo para viver a sociopata Priscilla Matheson na série 'Lucky', que estreia na Apple TV em 15/7 crédito: Apple TV/Divulgação
“Adoro o fato de estarmos vendo bons roteiros que nos dão a chance de romper com os estereótipos sobre as mulheres – seja na juventude, meia-idade ou terceira idade. Enfim, esses estereótipos aos quais ficamos presas por tanto tempo”. Aos 68 anos, Annette Bening vem desbravando terrenos não explorados em suas quatro décadas de carreira.
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A atriz coprotagoniza “Lucky”, minissérie que estreia na próxima quarta-feira (15/7), na Apple TV. A sociopata Priscilla Matheson mata (ou manda matar) sem dó. Está correndo atrás de milhões de dólares roubados por seu próprio filho, Cary (Drew Starkey), e a nora, Luciana “Lucky” Armstrong (Anya Taylor-Joy).
“Poder fazer coisas que você nunca faria na vida real é, na verdade, bastante terapêutico. Interpretar personagens (como Priscilla) é muito libertador”, afirma.
Sem entregar muito da história sobre núcleos familiares de criminosos – pai e filha, mãe e filho, um chefão por trás, mais a polícia no encalço –, dá para dizer que uma das sequências de que a atriz mais gostou foi o treino de tiro ao alvo. “Não planejei o que ia fazer, mas foi catártico”, revela, em entrevista com a imprensa internacional da qual o Estado de Minas fez parte.
Em essência atriz de cinema, com cinco indicações ao Oscar (a mais recente delas por “Nyad”, em 2024), Annette só muito recentemente começou a fazer séries. Produção da Hello Sunshine, de Reese Witherspoon, “Lucky” é a terceira atração do streaming da qual Annette participa.
Ela interpretou a matriarca desaparecida em “Segredos de família” (2024, disponível no Globoplay) e está no elenco do recente melodrama “Rancho Dutton” (com segunda temporada confirmada pelo Paramount+).
“Nessas séries de streaming, a maior parte dos roteiros é escrita enquanto estamos filmando. Acaba sendo empolgante, pois (os produtores e roteiristas) veem o que você está fazendo e podem te dar novos elementos para trabalhar. Ou então certas partes da cena podem ser alteradas, ajustadas, para incorporar novas ideias”, conta.
Processo colaborativo
Annette vem se ajustando ao novo modo de produção. “É algo ainda novo para mim: você faz alguns episódios com um diretor e, de repente, entra outro no set. Como cinema é mídia do diretor, geralmente é a visão dele que fica. Mas na televisão e nas plataformas, o processo é mais colaborativo. Certas coisas, obviamente, já estão definidas. Mas tendo a propor algumas coisas. Uma das diretoras, Jet Wilkinson (que assinou dois episódios de ‘Lucky’), ficava muito empolgada quando eu mergulhava de cabeça na cena.”
Ainda que o streaming seja novo para ela, antes do cinema Annette fez TV. Estreou em pequeno papel no telefilme “Caçada a Claude Dallas” (1986), baseado na história do assassino de dois guardas-florestais que entrou na lista dos 10 mais procurados do FBI, e logo engatou uma participação em episódio da série “Miami Vice” (1984-1989).
“O único motivo pelo qual consegui aquele trabalho, de namorada do vilão, foi porque alguém não pôde fazer na última hora. (Na época) Eu não tinha atuado muito em frente às câmeras, me sentia desconfortável”, conta Annette, que se formou no American Conservatory Theater e começou a carreira nos palcos. Em sua estreia na Broadway, na peça “Coastal disturbances” (1987), foi indicada ao Tony de Melhor Atriz Coadjuvante.
Annette Bening (à direita) contracena com Fairuza Balk em 'Valmont: Uma história de seduções', seu segundo filme, lançado em 1989 Pathé Films/divulgação
“Quando comecei, vinda da formação que tive, o foco era distanciar de si mesma e interpretar uma personagem que estivesse fora de você. Agora, não penso mais tanto dessa maneira. Como tenho muito mais experiência, vejo (os papéis) mais como uma espécie de expansão de mim mesma. Aprendi que tudo depende de com quem você está contracenando. Se você está observando alguém em quem realmente acredita, isso meio que elimina todo o esforço do trabalho. Você só precisa reagir, sabe? E essa é a melhor parte de atuar, de verdade”.
Warren Beatty
Annette não demorou muito para ascender em Hollywood. E também ter o encontro que mudaria sua vida. Em seu segundo longa, “Valmont – Uma história de seduções” (1989), de Milos Forman, chamou a atenção de Warren Beatty, que escalava o elenco de “Dick Tracy” (1990). O astro dirigiria e estrelaria a versão dos quadrinhos, que tinha Madonna e Al Pacino no elenco.
Beatty pensou nela para Tess Truehart, a namorada do personagem-título. Marcou uma reunião para conhecê-la – Annette cancelou o encontro.
Annette Bening e Warren Beatty em 'Bugsy' (1991). Os dois se casaram um ano depois do lançamento deste filme, têm quatro filhos e estão juntos até hoje Tristar Pictures/divulgação
Um ano mais tarde, teve início a produção de “Bugsy”, cinebiografia assinada por Barry Levinson do gângster fundador de Las Vegas. Beatty, que faria o protagonista, se lembrou da atriz que o havia dispensado no filme anterior para fazer Virginia Hill, amante de Bugsy Siegel. Marcaram um almoço – e esse único encontro bastou não só para que Annette fosse escolhida para o papel.
À revista “Entertainment Weekly”, em 2016, Beatty relembrou o primeiro contato. “Depois do almoço, eu disse: ‘Quero que saiba que não vou dar em cima de você durante o filme”, contou.
Annette simplesmente respondeu: “Eu não perguntei”. Além de um dos grandes de Hollywood, ele era conhecido por se envolver com várias atrizes com quem contracenou: Leslie Caron, Julie Christie, Diane Keaton e Madonna, por exemplo.
Sabe-se que o ator manteve a promessa durante boa parte das filmagens. No final do processo, a convidou para jantar. Os dois se casaram em 1992 e foram juntos à cerimônia do Oscar daquele ano, quando “Bugsy”, indicado em 10 categorias, saiu com dois prêmios. Annette e Beatty, com 21 anos de diferença, estão casados desde então. Têm quatro filhos.
O casal Annette Bening e Warren Beatty na cerimônia do Oscar, em fevereiro de 2011, quando ela disputou o prêmio de Melhor Atriz por seu trabalho no filme 'Minhas mães e meu pai'. A estatueta ficou com Natalie Portman, protagonista de 'Cisne negro' Mario Anzuoni/Reuters/2011
Hoje, o ator, com 89 anos, está longe dos holofotes e pouco sai de casa. “Na fase em que estou, gosto de trabalhar porque me sinto mais livre. Nossos filhos são adultos, não estão mais em casa, o que tem suas vantagens. Ele (Beatty) está gostando da aposentadoria. E eu estou aproveitando, porque posso ser como uma cigana, viajar por aí e fazer coisas”, diz Annette.
Dividir-se entre a maternidade e a carreira não foi fácil. “Quando meus filhos eram pequenos, eu mergulhava na vida doméstica. Uma parte de mim se perguntava – e acredito que isso valha para muitas mulheres profissionais – se perderia a paixão pelo trabalho se ficasse sentada no chão brincando com os bebês. Ser mãe exige muito, física e emocionalmente. Gostaria de ter sabido disso na época em que tive os filhos. Se você tiver sorte, como eu, os filhos crescem, ganham o mundo e você pode acordar de manhã, ler, fazer qualquer coisa que queira de novo”, diz ela.