Aos 91 anos, Alice Gonzaga faz as contas em voz alta. Faltam quatro anos para o centenário da Cinédia, estúdio fundado por seu pai, Adhemar Gonzaga, em 1930. “Não posso morrer nesses quatro anos”, diz, entre o humor e a seriedade, em entrevista concedida depois de exibir a cópia restaurada de “O ébrio” (1946), longa de Gilda Abreu, na 21° edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP).
Filha do cineasta Adhemar Gonzaga, fundador da Cinédia – o primeiro estúdio cinematográfico do Brasil –, Alice nunca imaginou que assumiria papel central na trajetória da empresa. Cresceu cercada por câmeras, rolos de filme, sets de filmagem e artistas, mas não pensava em seguir carreira artística, muito menos comandar a Cinédia.
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Na infância, viveu de perto o cotidiano do estúdio. Ainda menina, fez pequenas pontas em filmes como “Bonequinha de seda” (1936), de Oduvaldo Vianna. A família, contudo, não queria vê-la diante das câmeras. “Minha avó ficou apavorada com a possibilidade de eu virar artista de cinema”, lembra.
Apesar da convivência intensa com o ambiente cinematográfico, seu interesse se voltou para os bastidores, mais especificamente para a memória do cinema. Desde os 6 anos, ela ajudava o pai a organizar documentos, fotos e registros do estúdio. Sem saber, dava os primeiros passos em uma trajetória que seria decisiva para a preservação de parte importante do cinema brasileiro.
A virada veio décadas depois, em momento de urgência. Quando Adhemar Gonzaga começou a apresentar problemas de saúde, ela decidiu assumir a empresa. “Pensei: ‘Vou entrar na Cinédia. Se der certo, deu. Se não der, não deu’”.
A decisão mudaria não apenas os rumos da produtora, mas também a relação de Alice com o próprio legado familiar. O que começou como tentativa de organizar o acervo logo se transformou em uma cruzada pela preservação.
Inicialmente, a motivação era a mera curiosidade de assistir aos próprios filmes do estúdio. Muitos títulos estavam incompletos, deteriorados ou desaparecidos. Com o tempo, a curiosidade deu lugar a um entendimento mais profundo sobre a urgência da preservação audiovisual.
Desde então, Alice passou a rastrear cópias, recuperar materiais perdidos, adquirir negativos e coordenar processos de restauração. Ao longo das últimas décadas, tornou-se uma das vozes mais importantes na defesa da preservação do patrimônio cinematográfico brasileiro.
Batalha longe do fim
Hoje, parte significativa do acervo da Cinédia já foi recuperada. Ainda assim, a batalha está longe do fim. Restaurar filmes é um processo caro, complexo e permanente. E a tecnologia, ao contrário do que muitos imaginam, nem sempre simplifica o trabalho.
“O HD não resolve a preservação. Já começa a dar problema”, afirma Alice. De acordo com ela, a película ainda é o suporte mais confiável para garantir a longevidade das obras.
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Alice segue em busca de patrocínio para continuar restaurando obras essenciais do catálogo da Cinédia, sobretudo em resolução 4K. Entre os títulos prioritários estão “Berlim na batucada” (1944) e “Maridinho de luxo”, de Luís de Barros.
