Laboratório de restauro escava pérolas do cinema mineiro
Projeto do curso de cinema da PUC Minas investe em catalogar e recuperar acervo produzido no estado, além de divulgar clássicos internacionais
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A primeira graduação em cinema do Brasil foi fundada em Belo Horizonte, em 1962. O legado da pioneira experiência do Padre Edeimar Massote (1929-1982) na Escola Superior de Cinema, iniciativa da Universidade Católica de Minas Gerais (atual PUC Minas), está vindo, gradativamente, à tona.
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Centenas de rolos de filmes produzidos a partir da década de 1960 estão sendo recuperados por equipe de professores e alunos do curso de cinema e audiovisual da PUC. Em atividade desde agosto de 2025, o Lunar – nome do Laboratório Universitário de Preservação de Arquivos e Acervos Audiovisuais – trabalha na catalogação de aproximadamente 300 filmes, produzidos em 16mm, 35mm e Super-8.
Entre os destaques estão produções do próprio Padre Massote, uma delas “Viagem de D. Pedro à Província de Minas em 1822” (1972). Realizado com recursos do governo federal para celebrar o sesquicentenário da Independência do Brasil, é uma raridade. “Desconhecemos a digitalização dele. É possível que exista outra cópia na Cinemateca Brasileira, mas a nossa pode ser a única”, afirma Pedro Vaz Perez.
Coordenador do curso de cinema e audiovisual (lançado pela PUC em 2014) e também responsável pelo Lunar, ele trabalha com quatro monitores/bolsistas na limpeza e catalogação dos filmes. “O material estava guardado há décadas. Quando abrimos as latas, havia muita coisa deteriorada. Adquirimos uma mesa enroladeira em que se pode processar os filmes com manivelas para limpar as películas, fazer alguns reparos”, conta Perez.
Não há como projetá-los. “Como são muito antigos, há alguns com encolhimento.” O material já organizado está disponível on-line. A previsão é de que até o fim do semestre essa fase esteja concluída.
Aula de Mauro
Uma pesquisa no site mostra que, além de outros filmes de Massote, o acervo conta também com produções de Charlie Chaplin (“Em busca do ouro” em 16mm), D. W. Griffith (“Intolerância”, também em 16mm), Helvécio Ratton (“Em nome da razão”, seu primeiro curta, de 1979) e Humberto Mauro.
Último longa-metragem do pioneiro do cinema mineiro, “Canto da saudade” (1952) tem uma cópia em 35mm no acervo da PUC.
“O que devo dizer aos que querem aprender cinema é que façam cinema. Sem fazer não se aprende. Mas fazer por si mesmo, obedecendo à sua própria concepção, ao seu estilo pessoal, sem subordinação, mas respeitando sempre os princípios básicos da técnica mecânica”, afirmou Mauro, convidado por Massote para dar a aula inaugural da Escola Superior de Cinema.
Além deste acervo mais antigo, o Lunar trabalha também em dois outros. Professor de cinema que formou gerações de alunos que passaram pelo Prédio 13 – hoje chamado Faculdade de Comunicação e Artes –, Paulo Pereira (1940-2016) promoveu, durante as décadas de 1970 e 1980, um festival de filmes realizados pelos estudantes em Super-8 e 16mm.
“Ele fazia esse festival todo semestre. Convidava jurados de fora e premiava o Melhor Filme, Ator. Era um frisson, um grande momento de muitos na passagem pelo curso. Cerca de 40 filmes foram digitalizados pelo Paulo. O restante são quase 300. Uma parte se perdeu, mas tem aparecido gente que tem filme em casa e vai doar. Neste momento, estamos limpando para uma futura digitalização. O que não é simples, pois, que eu saiba, não existe um scanner de película em Minas Gerais”, afirma Perez.
Futuro
A terceira parte do acervo é o que ele chama de natodigital, produções realizadas no curso desde 2014. São quase três centenas, que estão sendo organizadas agora – 200 títulos já foram catalogados. “A ideia é pensar no futuro. Daqui a 20, 30 anos, com material organizado e disponível, pode ser que tenha um ex-aluno ganhando um grande prêmio de cinema. A trajetória acadêmica desse realizador vai estar toda registrada.”
O trabalho de resgate da memória do curso não se limita à organização do material fílmico. O Lunar também tem ido atrás de ex-alunos da Escola Superior de Cinema para uma série de entrevistas com profundidade. Aluno da primeira turma do curso, o professor e diretor de fotografia Hélio Gagliardi foi um dos primeiros entrevistados.
Seu colega de turma, Márcio Batitucci também deu depoimento. Seu acervo fotográfico, conta Perez, traz o registro de vários filmes produzidos nos anos 1960. Uma exposição com essas fotos está no radar do Lunar. Outra entrevistada foi Maria Stella Ribeiro, aluna da segunda turma e realizadora do filme “E agora, Dona Leopoldina?” (1966).
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O curso de Cinema e Audiovisual acabou de sofrer uma reforma curricular. Com ela, veio também uma nova disciplina, de preservação audiovisual. Prevista para o quinto período, ela vai ser ministrada a partir de 2028. “É uma maneira de garantir que o projeto seja longevo e que a preservação seja um dos pilares do curso”, comenta Perez.