Alexei Bueno deixa imenso legado para a cultura brasileira
Poeta, ensaísta, tradutor e editor, morto aos 63 anos, foi 'uma das maiores figuras da cultura da língua portuguesa', afirma a Academia Brasileira de Letras
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O corpo do poeta, ensaísta, tradutor e editor Alexei Bueno, de 63 anos, será velado a partir das 10h deste domingo (28/6), no Cemitério dos Ingleses, no Rio de Janeiro, onde será sepultado à tarde. Ele morreu de câncer do fígado, no Rio de Janeiro.
Bueno passou mal no início deste mês, em Lisboa, onde participava de evento sobre Camões. O tumor foi diagnosticado pouco depois, no Rio de Janeiro.
Vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Alphonsus de Guimaraens, entre outros, o intelectual carioca organizou as obras completas de Augusto dos Anjos, Mário de Sá-Carneiro, Cruz e Sousa, Álvares de Azevedo e Olavo Bilac. Também coordenou edições com a poesia completa de Jorge de Lima, Gonçalves Dias e Vinicius de Moraes. Publicou, pela Nova Fronteira, edição comentada de “Os Lusíadas”.
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Tradutor para o português de Gérard de Nerval, Edgar Allan Poe, Leopardi e Stephane Mallarmé, Bueno escreveu vários livros de poesia, entre eles “As escadas da torre”, “Lucernário”, “Anamnese”, “Naquele remoto agora” e “A chave quebrada”.
A Academia Brasileira de Letras (ABL) publicou neste sábado (27/6) detalhado obituário, ressaltando a importância da obra de Alexei Bueno.
“Um dos grandes poetas e uma das maiores figuras da cultura da língua portuguesa, grande estudioso da história da cidade do Rio de Janeiro, colaborou com a ABL durante muito tempo, desde a presidência de Alberto da Costa e Silva, em 2002. Atualmente, fazia revisão dos textos literários das bibliotecas da Casa para as redes sociais, especialmente das efemérides”, destacou a nota.
Criado em Copacabana, Alexei estudou no Colégio Santo Inácio. Aos 16 anos, editou por conta própria seus primeiros versos em “O tempo anoitecido”. Seu “A via estreita” (1995) foi eleito o Melhor Livro de Poesia do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e contemplado com o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional, relembra a nota da ABL.
O multi-intelectual
“Foi um homem de letras e um enciclopedista como poucos: paixão pela literatura e pela arte, interesse por uma vasta gama de assuntos, conhecedor profundo de história, de cinema, exímio tradutor, ensaísta, crítico de arte, bibliófilo”, destacou Antonio Carlos Secchin, secretário-geral da ABL.
“Um carioca de incontido amor pela cidade. Deixa qualificada e volumosa bibliografia, com destaque para sua produção poética, requintada e personalíssima, demonstrando grande mestria tanto na prática do verso regular quanto na do verso livre, conforme se lê no recente 'A chave quebrada' (2026), espécie de testamento poético e existencial do mais alto nível”, apontou Secchin.
Ruy Castro, também integrante da ABL, destacou o estudioso do Rio, que deixou livros e artigos fundamentais sobre a história da cidade. “Sua atualização do livro de Brasil Gerson, 'Histórias das ruas do Rio', é 10 vezes melhor do que o original e, modesto como era, seu nome não está na capa e é difícil de achar dentro. Fomos amigos por mais de 30 anos e sempre aprendi muito com ele”, afirmou Castro.
Além da premiação da APCA, Bueno ganhou o Jabuti (2004), o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de Poesia (2004) e o Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional (2022).
Em 1998 o intelectual carioca publicou, pela Lacerda Editores, a primeira edição brasileira, prefaciada e anotada, da “História trágico-marítima” e uma edição dos “Sonetos” de Camões, além do ensaio introdutório e fixação do texto da “Jerusalém libertada”, de Torquato Tasso, pela Topbooks, informa a Academia Brasileira de Letras.
Em 1999, organizou, com Alberto da Costa e Silva, a “Antologia da poesia portuguesa contemporânea – Um panorama” (Lacerda Editores). Em 2002, coordenou, a convite da Unesco, a “Anthologie de la poésie romantique brésilienne”, editada em Paris.
Alphonsus de Guimaraens
Bueno também organizou, a pedido da ABL, “Correspondência de Alphonsus de Guimaraens”, livro precioso para Minas Gerais. O simbolista Guimaraens (1870-1921) nasceu em Ouro Preto, morreu em Mariana e é um dos ícones da literatura do estado.
Em 2006, Alexei organizou e publicou, com George Ermakoff, “Duelos no serpentário, uma antologia da polêmica intelectual no Brasil”.
Em 2007, Bueno lançou “Uma história da poesia brasileira” (G. Ermakoff Casa Editorial). O prefácio foi destacado hoje pela ABL: “Há duas definições de poesia que sempre nos pareceram, no limitado de toda definição, das melhores possíveis. Diz a primeira: a poesia é uma indecisão entre um som e um sentido. Afirma a segunda: a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer.”
Em 2009, Alexei lançou o livro de poesia “As desaparições” e, no ano seguinte, a biografia de seu avô capitão da FEB, “João Tarcísio Bueno: O herói de Abetaia”. Em 2017, a editora portuguesa Exclamação lançou “Desaparições”, antologia reunindo poemas de Bueno.
Em 2012, em “Euclides & outros monstros”, Alexei Bueno reuniu ensaios sobre Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Machado de Assis, Castro Alves, Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Raul Pompeia, Coelho Neto, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva, Ronald de Carvalho, Drummond e Vinicius de Moraes.
Escravidão na poesia brasileira
Em 2022, Alexei Bueno lançou, pela Record, o livro “que preenche uma grande lacuna na historiografia literária brasileira”, de acordo com a Academia Brasileira de Letras. O ensaio “A escravidão na poesia brasileira: Do século XVII ao XXI” reuniu 80 poetas, 220 poemas e abarcou período de 350 anos.
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“Muitos poemas jamais publicados em livro ou totalmente desconhecidos, e incontáveis obras-primas. Foi um trabalho enorme, na verdade toda uma vida de leitura, e nele são analisados todos os tópicos principais e recorrentes com que o tema foi tratado, sem solução de continuidade, desde o barroco até a plena atualidade”, destaca a ABL no obituário de Alexei Bueno.