Ouro Preto – Entre os quatro documentários e o longa-metragem que compõem o ambicioso projeto audiovisual sobre a trajetória de Frei Betto, “Fraternura” ocupa lugar singular. Mais do que revisitar a militância política, a produção literária ou a atuação religiosa do dominicano, o filme volta o olhar para o homem por trás da figura pública.


Exibido na Cine OP – 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, o documentário dirigido por Evanize Sydow e Américo Freire aborda o impacto da prisão de Frei Betto sobre familiares e amigos durante a ditadura militar.

O projeto nasceu da biografia escrita por Evanize e Américo em 2016, após cerca de quatro anos de pesquisa. A dupla percebeu que a trajetória do religioso reunia múltiplas camadas narrativas que poderiam ser exploradas no cinema.

O que começou como a ideia de um único filme acabou se expandindo. Hoje, o projeto inclui quatro documentários temáticos e um longa de ficção.

Educação popular

O primeiro filme foi “A cabeça pensa onde os pés pisam – Frei Betto e a educação popular” (2024). O segundo, “Múltiplos: Os percursos literários de Frei Betto” (2025), mergulhou em sua trajetória literária. Já “Fraternura” se concentra no impacto do cárcere no círculo íntimo do escritor mineiro.

“Tínhamos muito medo de fazer um filme raso”, diz Evanize. “A trajetória dele é muito rica e diversa. Separar os filmes por tema foi a forma que encontramos de abordar cada dimensão com mais profundidade”, explica.

"Fraternura” apresenta narrativa em terreno mais sensível e intimista. O foco deixa de ser o intelectual, o militante e o escritor para revelar o lado menos conhecido de Frei Betto.

“Muita gente fala que este é o filme que mostra não o Frei Betto, mas o Beto. É um filme muito afetuoso. O Américo costuma dizer que ele é um abraço”, destaca a diretora.

Embora trate de um período sofrido, pois Frei Betto foi preso entre 1969 e 1973, submetido a torturas físicas e psicológicas, o documentário constrói a narrativa a partir dos laços de afeto e da rede de apoio que o sustentou.

Um dos momentos mais marcantes é o depoimento da irmã de Frei Betto, Maria Thereza. “É uma entrevista de muitos silêncios”, comenta Evanize. “Foi difícil gravar, mas fundamental para entender aquele contexto.”

Durante os anos de prisão do irmão, Maria Thereza deixou Belo Horizonte e se mudou para São Paulo para acompanhá-lo. Tornou-se presença constante nas visitas, nas trocas de cartas e na rotina de resistência da família.

A correspondência revela o impacto emocional sobre aqueles que permanecem fora das grades, algo menos visível nas histórias de repressão política.

Mas há momentos de alívio cômico, como as histórias da juventude de Betto, “penetra” em festas de BH; o curioso auxiliado pelo irmão mais problemático ao experimentar o chá de Santo Daime; e o filho do jornalista Antonio Carlos Vieira Christo, que trocou a UDN por Fidel Castro por causa da militância política dele. A mãe, dona Stella, era expert em culinária mineira.

“Você vê uma família muito unida, que deu suporte fundamental para o que Frei Betto viria a se tornar como personagem histórico brasileiro”, conclui Evanize.

21ª CINEOP

A Mostra de Cinema de Ouro Preto prossegue até terça-feira (30/6), na cidade histórica mineira. Programação completa em cineop.com.br.

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*O jornalista viajou a convite da Universo Produção

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