cinema

Carmen Miranda além do turbante

Documentário ‘Carmen Miranda: Bananas is my business’, de Helena Solberg, revisita a artista para além da caricatura tropical eternizada por Hollywood

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OURO PRETO (MG)*  – Muito além do turbante carregado de frutas, do salto plataforma altíssima e da imagem tropical que Hollywood cristalizou, Carmen Miranda (1909-1955) permanece como uma das figuras mais complexas e mal compreendidas da cultura brasileira no século 20.

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Essa é a percepção que se tem ao assistir “Carmen Miranda: Bananas is my business” (1995), documentário dirigido por Helena Solberg, que revisita a trajetória da cantora e atriz. A versão restaurada do longa foi exibido dentro da programação da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), que tem Helena Solberg como homenageada. Também está disponível no Prime Video.

No intuito de romper com caricaturas e devolver humanidade à mulher por trás do mito, Helena apresenta Carmen a partir do que o imaginário popular preservou – sempre elétrica, expansiva, engraçada e colorida – para tratar as ambiguidades de uma artista cuja trajetória desafia leituras simples.

“Em inglês, existe a expressão ‘lost in translation', que é aquilo que você perde quando se traduz. Com Carmen acho que aconteceu exatamente isso”, avalia Helena. “Ela decidiu se transformar para se adequar ao olhar estrangeiro. Fiz esse filme justamente porque achava que havia alguma coisa nela que deveria ser retirada para saber quem era aquela pessoa de verdade”, acrescenta.

Antes de conquistar os Estados Unidos, Carmen já era consagrada no Brasil. Cantora de enorme sucesso no rádio e nos discos, ela se tornou uma das vozes mais populares do país e ajudou a consolidar uma linguagem moderna na música popular brasileira. Não foi um produto inventado por Hollywood. Quando cruzou as fronteiras – com o apoio do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) como prática da “política da boa vizinhança”, cumpre dizer –, já era uma artista plenamente formada.

O que Hollywood fez foi transformar Carmen em símbolo. Ao desembarcar nos Estados Unidos, em 1939, como peça importante da “política da boa vizinhança”, Carmen passou a ser vista como síntese de uma latinidade exuberante, tropical, sensual e exótica.

Isso teve efeitos no Brasil. De orgulho nacional, Carmen Miranda passou a simbolizar uma versão estereotipada do país, moldada para agradar ao olhar estrangeiro. Quando voltou ao Rio de Janeiro, em 1940, foi recebida de maneira fria por setores da imprensa e da elite cultural. Inclusive, foi vaiada em uma das apresentações que fez na cidade.

Exibição do documentário 'Carmen Miranda: Bananas is my business', de Helena Solberg, na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP)
Exibição do documentário 'Carmen Miranda: Bananas is my business', de Helena Solberg, na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

“Ela foi um ícone, que tem uma máscara que, ou puseram nela, ou ela se colocou. Tem uma coisa ali meio indevassável”, destaca Helena.

Ainda que fosse tratada de modo muito estereotipado, não se pode dizer que Carmen só foi vítima de Hollywood. Pelo contrário, ela lucrou com a imagem que fizeram dela. Chegou a morar em uma mansão nos Estados Unidos e, numa das cenas de “Carmen Miranda: Bananas is my business”, ela exibe a enorme coleção de sapatos.

A questão que fica ainda hoje, no entanto, é: Carmen traiu o Brasil ao vender uma imagem caricatural do país, ou foi o Brasil que nunca soube lidar com a ascensão internacional de uma artista popular?

Helena Solberg parece menos interessada em oferecer respostas definitivas. O documentário foca nas contradições. Ao mesmo tempo em que a artista era enérgica e sempre muito simpática com todos, havia uma mulher submetida a uma rotina brutal de trabalho, pressionada por estúdios e pela indústria do entretenimento. A alegria permanente exigida de Carmen escondia exaustão, solidão e desgaste emocional.

Nesse sentido, o filme de Helena Solberg encontra reverbera no presente. Muito antes de discussões sobre burnout e saúde mental, Carmen Miranda já vivia, em escala extrema, a pressão de sustentar uma versão idealizada de si mesma em sua profissão.

O documentário também joga luz nas estruturas de poder que moldaram e ainda moldam a experiência das mulheres. No caso de Carmen, isso foi intenso. Ela operava dentro de uma indústria amplamente comandada por homens. O corpo dela e performance que fazia eram continuamente enquadrados por desejos masculinos.

“Carmen Miranda: bananas is my business” não fala apenas sobre o fenômeno Carmen Miranda. Fala sobre controle da imagem feminina, sexualização e estereótipos.

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* O jornalista viajou a convite da Universo Produção

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