CINEMA

‘Criadas’ aborda relações familiares marcadas pelo ‘amor sujo’

Primeiro longa-metragem de Carol Rodrigues tematiza a estrutura social e racial que permite a exploração de parentes como domésticas; filme está em cartaz em BH

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Em seu primeiro longa-metragem, a paulistana Carol Rodrigues investiga as relações construídas em torno de empregadas domésticas que são parentes de seus próprios patrões.

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Enquanto no Brasil persiste a ideia de que essas profissionais são “quase da família”, aquelas que realmente pertencem ao núcleo familiar acabam, paradoxalmente, excluídas. A contradição que a diretora define como “amor sujo” é o mote de “Criadas”, que estreou nos cinemas nesta semana.


“Esse grau máximo de comunhão pode gerar coisas lindas e divinas, mas também atrocidades. Me interessa essa natureza dual das nossas próprias relações familiares, sejam famílias de sangue ou escolhidas”, afirma a cineasta.

Formada em Cinema e também em Ciências Sociais, Carol construiu trajetória no audiovisual que inclui trabalhos para produções da Netflix e da HBO. A primeira versão de “Criadas” foi escrita em 2015. Desde então, ela dividiu o tempo entre projetos para o streaming e a busca por financiamento para o longa.

“Meu trabalho no streaming é para sustentar meu trabalho no cinema”, diz. O intervalo entre a concepção e a realização do filme também permitiu aprofundar as questões e contradições que atravessam a narrativa.

Na trama, Sandra (Mawusi Tulani) retorna à casa da prima Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) em busca de uma fotografia da mãe, Ivone (Ivy Souza), que trabalhou ali como empregada. Criadas juntas, Sandra, uma mulher negra retinta, e Mariana, uma mulher negra de pele clara, tiveram experiências distintas dentro da mesma família.


Temas difíceis

“É um filme complexo, de temas difíceis e delicados, que lidam com as contradições das famílias brasileiras. Estamos falando de violências que muitas vezes são reproduzidas no cotidiano”, afirma Carol.

O reencontro das primas se transforma em um acerto de contas marcado por ressentimentos. Embora tenham crescido na mesma casa, a distância entre elas era tão grande que Sandra sequer consegue encontrar um registro da mãe. No passado, ela e Ivone limpavam a casa e cuidavam de Mariana.

Nas festas de família, eram convidadas a participar, mas precisavam cozinhar e limpar tudo depois. “Quando me tornei patroa da Ivone, nós deixamos de ser família”, afirma Olívia, mãe de Mariana, em uma das cenas do filme.

A história tem origem em experiências vividas pela própria diretora. “Foi inspirada na contradição da minha própria família, junto com a minha própria situação”, conta Carol, que se identifica como uma pessoa parda. “A minha vida inteira precisei negociar o meu pertencimento racial.”

A avó, Esméria, deixou o interior para trabalhar como empregada doméstica em São Paulo aos 14 anos. Décadas depois, tornou-se funcionária pública e alcançou ascensão social. Para ajudar parentes, passou a trazer familiares, principalmente primas, para trabalhar em sua casa.

Estruturas coloniais

Se o debate sobre a permanência de estruturas coloniais no trabalho doméstico ganhou projeção nacional com o lançamento de “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, em 2015, Carol vê “Criadas” como uma continuidade dessa discussão, agora a partir de um recorte racial.

“A gente mantém uma conversa acesa porque é uma conversa que precisa continuar. Mesmo quando a patroa é negra, a estrutura do racismo que sustentou a desvalorização do trabalho doméstico permanece”, afirma.

No filme, Sandra carrega uma tensão constante. Para a diretora, esse estado de alerta permanente está ligado à experiência das mulheres negras na sociedade. “Ela está sempre em alerta, porque, quando baixa a guarda, pode ser atacada. Parte do filme é uma tentativa de fazer a Sandra descansar um pouco, largar as armas”, explica.

A cineasta enxerga na experiência da protagonista os reflexos de uma estrutura que atravessa a história do país. “A escravidão talvez seja a história de terror mais pesada da história do Brasil. É o nosso grande monstro, a nossa grande ferida emocional, que estrutura toda a sociedade. E quem vive a sua face mais cruel são as mulheres negras retintas.”


Segundo ela, essa herança ainda é tão presente que não pode ser enfrentada com mudanças pontuais. “Eu particularmente não acredito em pequenas reparações. A violência é tão profunda e tão presente que, para imaginar um Brasil possível para mulheres como as do filme, seria preciso implodir essas relações e construir outra coisa”, diz.

Para o futuro, Carol Rodrigues pretende seguir contando histórias protagonizadas por pessoas historicamente marginalizadas. Pessoa não binária, ela afirma que seu trabalho busca ampliar as possibilidades de identificação e afeto no audiovisual brasileiro.

“Quero continuar contando histórias protagonizadas por pessoas negras e queer. Tenho pensado muito em naturalizar nossas existências e expandir o imaginário sobre por quem a gente se comove no Brasil”, afirma.

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“CRIADAS”
(Brasil, 2026, 106 min.) Direção: Carol Rodrigues. Com Ana Flavia Cavalcanti, Mawusi Tulani, Ivy Souza e Alli Willow. Em cartaz no Cine Belas Artes (Sala 2, 18h30, exceto sexta.)

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