“Envelhecer é perder a capacidade de se espantar”, afirma o principal personagem de “Tudo sobre Deus”, mais recente romance de José Eduardo Agualusa. Nascido em 1960, o autor continua suscetível a surpresas e descobertas. 

“Felizmente, ainda me espanto. Usufruo, quase todos os dias, de pequenas cintilações”, afirma o angolano, em entrevista ao Estado de Minas. O envelhecimento, portanto, está fora dos planos de Agualusa. Também o fim: “Não tenciono morrer. Não tenho mesmo a menor intenção.”


José Eduardo Agualusa está de volta a Minas Gerais para três encontros neste mês de maio. Será o autor homenageado da 14ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá (Fliaraxá). Participa, na sequência, de edições do projeto Sempre um Papo em Paracatu e em Belo Horizonte.

“Gosto de Minas. Das pessoas, das cidades históricas, e de um certo vagar, que também temos na minha cidade natal, o Huambo, no interior de Angola, ou na Ilha de Moçambique, onde agora vivo”, conta, antes de chegar ao Brasil. 

O escritor angolano revela que “Tudo sobre Deus” surgiu em 2025 após uma doença que o obrigou a fazer uma bateria de exames.

“Escrevi-o muito rapidamente, com grande paixão, e isso ajudou-me a superar a sombra daqueles dias. Posso não ter encontrado respostas, mas a euforia da escrita, só por si, já me ajudou”, conta. “Queria escrever um livro que respirasse, que duvidasse. Não um tratado sobre Deus, mas um tratado sobre o espanto diante da ideia de Deus”, complementa. 

No romance, dedicado aos três filhos e com “participação especial” do amigo Mia Couto, o angolano apresenta os últimos meses de vida de um poeta e geólogo que toma decisão inusitada.

“Quando soube que estava a morrer, Leopoldo G. Borges comprou uma igreja abandonada, no deserto do Namibe, e fez dela a sua última morada”, narra, na abertura do primeiro capítulo. Ele inclui trechos do diário de um homem movido “pela perplexidade, a inquietação, a cerveja, a liamba e o fracasso”, decidido a deixar as certezas para os fracos e enxergar nas pedras o infinito.

 Sábado, 13 de março de 2021, 23h40
Tudo o que escrevo se desfaz entre os dedos como areia. Como nuvens no céu.
E no entanto escrevo. Não por esperança, não movido por algum arcaico imperativo ético – mas por vício.
Entre todos os erros que cultivo – e são muitos! – a escrita é o único que se disfarça de virtude.

Por meio das desventuras e diatribes de seu personagem, Agualusa expõe reflexões sagazes sobre as diversas etapas da existência humana em narrativa ágil e fluente, pontuada por passagens espirituosas e emotivas.

Pais e mães, em especial, não passarão indiferentes pelas páginas dos embates, sumiços e reencontros do protagonista e de sua filha, Gaia, amada “tão desastradamente, tão profundamente, como se amar fosse tentar manter uma vela acesa em pleno temporal”.

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É para Gaia que Leopoldo, em carta de despedida, faz um pedido (“Peço-te que me guardes inteiro”) e revela o último desejo: “Espero que um dia consigas sentir por mim um orgulho semelhante ao que eu sempre senti por ti.”

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