Cinema

Meme do 'Patriota do Caminhão' vira filme de Caco Ciocler, em cartaz em BH

Diretor transforma episódio ocorrido há quatro anos, numa estrada de Pernambuco, em reflexão sobre radicalização política e incomunicabilidade

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A insólita cena ficou gravada no imaginário popular e assim continuará por uns bons anos. Insatisfeito com o resultado das eleições presidenciais de 2022, comerciante de Caruaru (PE) se juntou a apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro no intuito de bloquear um trecho da BR-232, em Pernambuco. Ele se agarrou ao para-choque de um caminhão, cujo motorista não parou. Seguiu por quase seis mil metros, a 100 km/h.

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Rapidamente, as imagens viralizaram, transformando aquele homem no meme “Patriota do Caminhão”. “Como a maioria das pessoas, eu ri muito”, diz o ator e diretor Caco Ciocler, que se inspirou no episódio para fazer o filme “Eu não te ouço”, em cartaz no Cine Belas Artes, na capital mineira.

“Entendi rapidamente que tinha uma coisa trágica acontecendo ali também, algo tragicômico. Senti muita vontade de entrar no meme e entrevistar os dois caras”, acrescenta.

Tal impulso dialogou com outros filmes dirigidos por Caco, “Partida” (2019) e “O melhor lugar do mundo é agora” (2021), ambos estruturados como documentários fictícios. O episódio do Patriota do Caminhão encerra a trilogia política.

Se em “Partida” um grupo de artistas e militantes deixa o Brasil após a eleição de Jair Bolsonaro, na tentativa de repensar o próprio país, e “O melhor lugar do mundo é agora” acompanha os impactos da pandemia sobre a classe artística, “Eu não te ouço” aborda a dificuldade de dialogar com quem pensa diferente.

Ator Márcio Vito está de lado e dirige caminhão em cena do filme Eu não te ouço
Caminhoneiro também é vivido por Márcio Vito, premiado no Festival do Rio como Melhor Ator por seu duplo papel em 'Eu não te ouço' Amaia Filmes/distribuição

Em linguagem de documentário, o filme acompanha entrevistas conduzidas por Caco Ciocler, cuja voz é ouvida, mas o rosto nunca aparece. Dentro da cabine, ele conversa com o caminhoneiro; do lado de fora, debruça-se na janela para ouvir o Patriota.

O para-brisa é metáfora da barreira entre indivíduos de campos ideológicos opostos. Eles se veem, mas não se escutam. Ao mesmo tempo, o reflexo no vidro evidencia um espelhamento. Embora pareçam antagônicos, os dois personagens compartilham medos, certezas e impulsos semelhantes.

“Isso não é um fenômeno estritamente brasileiro. É no mundo todo”, ressalta Caco. “A argumentação foi sequestrada. Os dois lados acham que o outro está louco, perdeu a noção da realidade e que, por isso, é necessário destruí-lo. Acreditam que é preciso ser herói para destruí-lo”, diz.

Assim pensa o homem que se pendura no caminhão. Interpretado por Márcio Vito, que também faz o papel do motorista, o Patriota se vê como herói, “pesticida que vai destruir toda a contaminação que tem na política”. Imagina-se num lugar heroico, como alguém disposto a se sacrificar pela causa, à semelhança do “Rebelde Desconhecido”, que se colocou diante de tanques na Praça da Paz Celestial, em 1989, durante manifestações pró-democracia reprimidas pelo governo chinês.

O caminhoneiro não é a antítese direta do Patriota. Diz não acreditar em ideologias e quer apenas continuar trabalhando sem grandes contratempos. Julga-se isento, embora reproduza discursos políticos sem compreender plenamente o significado deles. Vez ou outra, ameaça o Patriota, gritando xingamentos que não podem ser ouvidos lá fora, assim como o Patriota faz ameaças que sequer chegam à cabine do caminhão.

Prêmio

Os dois personagens renderam a Márcio Vito o Troféu Redentor de Melhor Ator na edição do ano passado do Festival do Rio. Ele construiu duas personalidades completamente distintas, que não se cruzam em momento algum.

A construção da dupla levou dois anos. Ao lado da atriz Isabel Teixeira, Márcio participou de sessões de improviso guiadas por temas como família, fantasmas e memórias pessoais.

Os encontros eram transcritos e enviados a Caco, que preferiu não ver as imagens num primeiro momento, concentrando-se apenas nas palavras para não se deixar influenciar pela aparência dos personagens antes de o roteiro ganhar forma. Em seguida, Márcio recebia devolutivas de Isabel e do diretor, que sugeriam novas provocações e referências para aprofundar as composições.

Com trajetória ligada ao teatro, Márcio Vito aproximou o filme de referências como Samuel Beckett e o Teatro do Absurdo, especialmente pela imagem de duas figuras aprisionadas numa circunstância física que impede qualquer ação efetiva. O desafio era impedir que o longa se resumisse a uma piada sobre o meme, conta o ator.

“A gente tinha medo de que o filme parecesse uma esquete grande. O desafio era chegar ao cinema com a complexidade e a profundidade dos personagens. Foram dois anos de trabalho. Quando fomos filmar, eu já tinha uma rede de proteção imensa. Não era mais uma preocupação diferenciar os personagens. Já tínhamos duas estruturas muito claras”, afirma Vito.

“Eu não te ouço” não oferece respostas fáceis para a incomunicabilidade em tempos de polarização. “Filmes, de maneira geral, não servem para responder, mas para inaugurar perguntas”, conclui o ator.

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“EU NÃO TE OUÇO”

Brasil, 2025, 72 min. De Caco Ciocler. Com Márcio Vito. Em cartaz na sala 2 do Cine Belas Artes, às 17h20.

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