Alexandre Coimbra Amaral e José Eduardo Agualusa lançam livros em BH
Autores autografam 'Cuidar da solidão até virar encontro' e 'Tudo sobre Deus' no projeto Sempre um Papo, nesta quarta (20/5), no Tribunal de Contas de Minas
Psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral diz que a solidão moderna não é fracasso individual, mas fruto do ritmo acelerado imposto pela vida digital crédito: Fliaraxá/divulgação
No aeroporto de Brasília, mulher reconhece o psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral. Sorri, pede foto e se afasta para um canto da sala de embarque. O rosto muda. O entusiasmo vira abatimento e o olhar parece carregado de uma tristeza difícil de nomear. A cena, aparentemente banal, reverberou na cabeça do psicólogo e escritor durante semanas.
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“Teve alguma coisa no olhar daquela mulher que me deixou profundamente comovido”, conta Amaral. “Foi talvez a velocidade com que ela saiu do sorriso para a cara profundamente triste. Aquilo ficou em mim.”
Da inquietação provocada por aquele momento nasceu “Cuidar da solidão até virar encontro”, novo livro de Alexandre. Ele será lançado pela Editora Vestígio, do Grupo Autêntica, nesta quarta-feira (20/5), às 19h30, no Auditório do TCE Cultural, durante o projeto Sempre um Papo – TCEMG. O autor vai dividir a mesa com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que apresenta o romance “Tudo sobre Deus”.
Sintoma
Em seu novo trabalho, Alexandre propõe olhar para a solidão não como fracasso individual ou incapacidade de se conectar, mas como sintoma de um modo de vida marcado pela aceleração, pelas relações superficiais e pela lógica do desempenho permanente.
“A vida contemporânea criminalizou a pausa”, observa. “Ultimamente, as pessoas vivem com a sensação constante de débito, como se estivessem sempre devendo tarefas para o mundo. O esgotamento produzido por essa dinâmica tem levado as pessoas a buscar formas de anestesia emocional. Estamos ficando tão saturados e exaustos que buscamos anestesias. Pode ser comida, bebida, açúcar, trabalho… Mas, hoje, uma das principais é a tela”, afirma.
O problema não se limita ao tempo gasto diante do celular. Há um mecanismo mais sofisticado em operação: o algoritmo. Trata-se do robô programado para manter o indivíduo na plataforma. O sistema aprende continuamente os hábitos de cada pessoa. Curtidas, comentários, tempo gasto em vídeo, pausas involuntárias no feed e até conteúdos ignorados se transformam em informação para as big techs.
Nesse processo, conteúdos emocionalmente intensos tendem a ganhar prioridade. Medo, raiva, escândalo, identificação e desejo costumam gerar mais engajamento do que postagens neutras. Ao mesmo tempo, a repetição de temas e opiniões semelhantes cria bolhas de confirmação, reduzindo o contato com perspectivas diferentes e reforçando a sensação de um ambiente sem atrito.
“Você entra para responder a mensagem e, quando percebe, passou meia hora rolando conteúdo”, afirma Alexandre.
A naturalização desse vínculo, sobretudo entre pessoas emocionalmente mais vulneráveis, traz preocupação. Embora redes sociais e aplicativos prometam conexão, o efeito pode ser oposto, já que as relações humanas pressupõem diferença, conflito e atrito.
Essa dinâmica naturalmente leva o indivíduo ao isolamento, que, de acordo com o livro, não pode ser compreendido apenas como questão íntima. A dimensão coletiva do problema é frequentemente ignorada. As narrativas que se propagam nas redes são, em grande maioria, individualistas, oferecendo soluções também individualistas para problemas coletivos.
“O coletivo perdeu espaço no imaginário contemporâneo”, diz Alexandre, lembrando a forma como tragédias costumam ser apresentadas nas redes. “Na enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, as histórias que ganharam maior destaque foram as de superação pessoal. Do homem que salvou alguém, da mulher resiliente, do voluntário heroico. Enquanto isso, o papel da comunidade organizada recebeu bem menos atenção”, critica.
Apesar deste duro diagnóstico, projeções apocalípticas sobre o futuro estão fora de questão. A própria história humana mostra que momentos de crise costumam produzir movimentos de reinvenção. “O humano se reorganiza diante do caos”, afirma Alexandre. “Nunca houve momento histórico em que o caos acabou com tudo.”
Pactos
Há, inclusive, reações e pequenas transformações por parte das pessoas. No Brasil, grupos de adolescentes se propõem a conviver fora das telas, famílias estabelecem pactos para refeições sem celular e movimentos tentam recuperar espaços de encontro presencial.
“Cuidar da solidão até virar encontro” é um convite à desaceleração, um esforço para reconstruir vínculos nestes tempos que parecem empurrar as pessoas para o isolamento. “A amizade é uma casa de recomeço”, sugere Alexandre Coimbra Amaral.
José Eduardo Agualusa lança romance sobre a finitude da vida Fernando Rabelo/divulgação
“Tudo sobre Deus”
O autor angolano José Eduardo Agualusa, que divide a mesa do Sempre um Papo com Alexandre Coimbra Amaral, lança em BH o livro “Tudo sobre Deus”(Editora Tusquets).
Inspirado no período de convalescença e exames médicos, o romance explora a espiritualidade e a finitude humana por meio da história de um geólogo que se retira para o deserto. Lá, ele reflete sobre laços familiares e a busca por sentido no fim da existência.
SEMPRE UM PAPO
Com Alexandre Coimbra Amaral e José Eduardo Agualusa. Nesta quarta-feira (20/5), às 19h30, no Auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (Av. Raja Gabáglia, 1.315, Luxemburgo). Entrada franca, condicionada à lotação.