CINEMA

Incômodo, drama iraniano ‘Mãe e filho’ leva protagonista ao limite

Longa-metragem em cartaz em Belo Horizonte usa ambiente profissional e familiar de viúva com dois filhos para retratar a opressão do regime iraniano 

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O cineasta iraniano Saeed Roustayi gosta do desconforto. Conhecido por retratar famílias em colapso, conforme fez em “Uma vida e um dia” (2016) e “Os irmãos de Leila” (2022), o diretor volta a um território familiar com “Mãe e filho”, em cartaz no UNA Cine Belas Artes. Dessa vez, com foco maior na experiência feminina diante de estruturas sociais sufocantes.

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A história, em si, não tem nada de extraordinário. Trata-se de uma mulher viúva tentando reorganizar a vida. No entanto, são as camadas mais profundas que o longa atinge que o transforma em um filme denso. Cada decisão das personagens parece esbarrar em regras não ditas, expectativas sociais e pequenos constrangimentos.


Na trama, Mahnaz (vivida por Parinaz Izadyar) é uma enfermeira viúva que cria dois filhos com a ajuda da mãe e da irmã mais nova. Ela é dessas personagens tenazes, que não suplicam por empatia. Ao mesmo tempo, não é idealizada. Mahnaz erra, insiste, recalcula suas ações e, sobretudo, não deixa de seguir suas convicções. O problema é que, ao redor, tudo parece conspirar contra ela.


Quando decide se casar novamente, com um motorista de ambulância do hospital onde trabalha, a condição imposta pelo noivo é que Mahnaz esconda os dois filhos dos futuros sogros. Ela aceita e deixa o casal de garotos com o avô paterno por dois dias, tempo necessário para conhecer a família do noivo.


É quando tudo começa a dar errado. O noivo rompe a relação logo após a reunião com a família e, em um movimento ainda mais cruel, revela interesse pela irmã mais nova de Mahnaz. Ao mesmo tempo, acontece um acidente grave envolvendo uma das crianças na casa do avô paterno.


Regime autoritário

Saeed Roustayi traz o contexto familiar de Mahnaz para denunciar o regime autoritário do Irã, principalmente sob o governo do aiatolá Ali Khamenei, assassinado em fevereiro passado, num ataque promovido conjuntamente pelos Estados Unidos e Israel, em sua guerra contra Teerã.


O foi exibido no Festival de Cannes do ano passado, como concorrente à Palma de Ouro. O caráter crítico da obra ao regime iraniano é inegável. O cineasta foi condenado a seis meses de prisão em 2023 por “contribuir para a propaganda da oposição contra o sistema islâmico” ao exibir “Os irmãos de Leila” no Festival de Cannes do ano anterior.


Para entender a denúncia sutil que “Mãe e filho” faz, é necessário levar em consideração a realidade do Irã e as restrições de toda ordem impostas pela Revolução Islâmica, desde 1979. No regime dos aiatolás, cabem aos homens decisões sobre a vida de filhas e esposas. As rígidas regras de conduta são fiscalizadas e sua desobediência é punida pela polícia moral, sendo o uso obrigatório do hijab em público o exemplo mais chamativo.


Paradoxalmente, ao longo do regime de Khamenei, que ocupou o posto de líder supremo desde 1989, as mulheres foram maioria das alunas dos cursos de graduação, participaram ativamente da vida cultural do país e trabalharam em diversas áreas, principalmente na saúde, educação e artes.


Saeed Roustayi não deixa de levar isso em conta. No hospital em que Mahnaz trabalha, não se veem homens, a não ser em funções subalternas, como a do noivo que dirige ambulância. Contudo, na dinâmica social, é a perspectiva masculina que se impõe.


Mahnaz aceita esconder os próprios filhos, como se a maternidade fosse um obstáculo a ser removido, mesmo que temporariamente. O gesto soa “natural” dentro da lógica do filme, mas carrega uma violência silenciosa e decisiva que o diretor não deixa de ressaltar.


Confronto

Os apartamentos pequenos, com quartos e corredores apertados, contribuem para a sensação de opressão. E, mesmo quando a protagonista parte para o confronto direto, há sempre algo fora de lugar, como se o ambiente já estivesse preparado para esmagar toda tentativa de autonomia.


A partir da tragédia envolvendo o filho de Mahnaz, a narrativa cinematográfica muda completamente, com conflitos e reviravoltas que, para grande parte da crítica internacional, beiram o excesso e se aproximam do melodrama. Ainda assim, mesmo quando parece perder medida, o filme não perde força, sobretudo pela interpretação da atriz Parinaz Izadyar.


Mais do que comover, “Mãe e filho” incomoda. Saeed Roustayi não está interessado em oferecer uma narrativa conciliadora, mas em expor um sistema em que as escolhas individuais são sempre condicionadas por estruturas maiores. E, no limite, por homens.

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“MÃE E FILHO”
(Irã/França/Alemanha, 2025, 131 min). Direção: Saeed Roustayi. Com Parinaz Izadyar, Payman Maadi e Soha Niasti. Classificação: 16 anos. Em cartaz UNA Cine Belas Artes (Sala 3, às 16h).

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