Obra monumental, em um dos pontos mais altos do parque. Com “Contraplano”, seu maior trabalho até então, a belo-horizontina Lais Myrrha abre as portas para as comemorações dos 20 anos de Inhotim. Neste sábado (25/4), o museu inaugura outras duas exposições de artistas que também falam de si, dos que vieram antes e dos que estão aqui agora.

“São projetos que nos lembram da vocação de Inhotim. Artistas que nos conectam com todo o mundo, integrando arte, natureza e educação”, afirma a diretora artística Júlia Rebouças. A abertura deste fim de semana reúne o mais impactante conjunto de obras na história recente do museu.

Na programação de hoje, a partir de “Contraplano”, os visitantes vão acompanhar, com os próprios artistas e respectivos curadores, o lançamento das mostras “Tororoma”, de Davi de Jesus do Nascimento, e “Dupla cura”, de Dalton Paula.

O visitante, especialmente o de Belo Horizonte, ao se aproximar de “Contraplano”, vai pensar no Niemeyer, edifício inaugurado em 1960 na Praça da Liberdade. Há alguns anos Lais, radicada desde 2008 em São Paulo, vem trabalhando na obra de Oscar Niemeyer (1907-2012), “para ver como ele se tornou a imagem do modernismo brasileiro”.

O edifício, que ela conhece desde pequena, certo dia lhe chamou a atenção de outra forma. “Quando olhei, vi imediatamente o desenho de uma cava de mineração, o desenho topográfico, com os cortes do terreno. Percebi que essa forma é completamente vinculada ao mundo moderno.”

Lais se lembra da frase que Bernardo Paz, fundador de Inhotim, lhe disse numa conversa inicial. “Faça o que você imaginar, onde você sonhar.” Ela acreditou – e assim foi ao longo dos últimos três anos. “Quando você vê a obra de baixo, ela parece um prédio enorme, mas não. Quando você entra, tem acolhimento.”

Feita em concreto, “Contraplano” é toda vazada, com vista para a imensa área verde de Inhotim. O visitante fica na área de baixo, gramada. Para escolher o espaço, Lais visitou o parque de 140 hectares mais de uma vez.

Ao criar 'Contraplano', a mineira Lais Myrrha seguiu o conselho de Bernardo Paz, idealizador de Inhotim: 'Faça o que você imaginar, onde você sonhar'

Leandro Couri/EM/D.A Press

“São poucas as obras a partir das quais você tem uma vista do horizonte. Também percebi que muito poucas obras de arte externas permitem que as pessoas fiquem ali. São incríveis, geniais, mas muitas vezes você passa por elas. Eu queria que as pessoas perdessem seu tempo, pudessem talvez não fazer nada.”

A segunda novidade de Inhotim está bem próxima a “Contraplano”. Após reforma, o espaço que durante uma década abrigou a Galeria Carlos Garaicoa, dedicada ao artista cubano, foi rebatizado Galeria Nascente. Será aberto com a exposição de Davi de Jesus, mineiro de Pirapora, mas geraizeiro, como os moradores desta região do Norte de Minas são chamados.

Com 10 anos de carreira, Davi se emocionou ao falar de “Tororoma”, outro trabalho inédito comissionado por Inhotim. Guimarães Rosa, carrancas, Rio São Francisco, tudo está reunido na instalação de forte impacto. O trabalho desse artista não pode ser desvinculado nem do próprio território, tampouco de sua família.

'Tororoma', exposição de Davi de Jesus do Nascimento, ecoa Guimarães Rosa e o Rio São Francisco

Leandro Couri/EM/D.A Press

“A permissão de tudo que faço vem através do curso da água e da energia da minha mãe, que morreu afogada em 2013”, conta Davi de Jesus, fruto de uma linhagem de lavadeiras, pescadores e mestres marceneiros.

Mestre Expedito, referência em carrancas de Pirapora e há muitos anos sem esculpir, assina três imagens da instalação – duas postadas no portal que dá acesso à galeria e outra grande, na área central, sobre um pequeno lago.

Davi de Jesus do Nascimento, artista de Pirapora, diz que sua obra se inspira na força da correnteza do Velho Chico

Leandro Couri/EM/D.A Press

Troncos retorcidos retirados dos rios e escorpiões recriados em resina vão se juntando na história contada pelo artista. “Este trabalho traz uma porcentagem pequena do que é o mistério desse lugar, dessa profundidade, da força da correnteza do Rio São Francisco”, acrescenta Davi de Jesus.

Artista goiano “precursor da gramática que reconfigurou a arte contemporânea”, nas palavras da curadora Beatriz Lemos, Dalton Paula abre na Galeria Mata a mais importante panorâmica de suas três décadas de carreira. “Dupla cura” reúne 115 obras (pinturas, vídeos, fotografias) de diferentes períodos, três delas comissionadas por Inhotim.

Leandro Couri/EM/D.A Press

Para quem estiver neste sábado no parque, a exposição vai ressoar ainda mais. A obra que abre a mostra, “Fanfarra”, maior pintura realizada pelo artista (9,6m de comprimento e 1,8m de altura), foi feita a partir da vida real. Dalton criou o Coral do Sertão com 17 integrantes. A partir da experiência com eles, realizou a pintura. Oito daqueles jovens participarão da abertura da exposição ao lado de integrantes da Escola de Música Inhotim.

O coral é mais uma realização do projeto Sertão Negro, iniciativa de Dalton que reúne ateliê e escola em territórios quilombolas na região de Goiânia. O grupo ensaiou uma canção e depois foi fotografado. A partir da imagem, o artista realizou a pintura. “A banda sugere novos caminhos, novas possibilidades e movimentos”, diz Dalton.

Até o fim do ano, haverá outras novidades. Em setembro, será aberta a exposição imersiva “Inhotim 20 anos”. Com curadoria de Lucas Menezes, tem como ponto de partida a maquete de cerca de 20 metros quadrados de todo o parque.

O goiano Dalton Paula, que apresenta a mostra 'Dupla cura', levou saberes quilombolas para Inhotim

Leandro Couri/EM/D.A Press

Outubro vai marcar o reencontro do público com um dos trabalhos mais conhecidos do espaço. Inaugurada em 2009, “The murder of crows”, instalação sonora de Janet Cardiff e George Bures Miller, é uma das atrações mais populares do parque. Noventa e oito caixas de som apresentam o sonho dos artistas.

Nome seminal da arte contemporânea e também de Inhotim, Cildo Meireles terá novidades no mês de aniversário da instituição. A galeria que leva o nome do carioca passará por reforma e receberá nova obra, “Missão/Missões (Como construir catedrais)”.

PROGRAMAÇÃO

• NESTE SÁBADO (25/4)

10h30: Inauguração de “Contraplano”, obra de Lais Myrrha
11h30: Visita com curadoria e artista à exposição “Tororoma”, de Davi de Jesus do Nascimento, na Galeria Nascente
14h: Apresentação do Coral do Sertão e Escola de Música Inhotim, na exposição “Dupla cura”, de Dalton Paula, na Galeria Mata

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INHOTIM

Rua B, 20, Brumadinho, (31) 3571-9700. De quarta a sexta, das 9h30 às 16h30; sábado, domingo e feriado, das 9h30 às 17h30. Ingressos: R$ 65 e R$ 32,50 (meia). Informações e vendas: inhotim.org.br

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