O argentino Luis Brandoni, ator de teatro, cinema e televisão, morreu no domingo (19/4), aos 86 anos, e seu corpo será velado com honras na Assembleia Legislativa de Buenos Aires, nesta segunda-feira.

Primeiro ator

"Com 'Beto', se vai o último primeiro ator de uma geração inesquecível. Impulsionador do teatro nacional", expressou no X seu produtor e amigo Carlos Rottemberg em sua conta Multiteatro.

Brandoni tinha sofrido um acidente doméstico, que lhe causou um hematoma na cabeça e estava hospitalizado na capital argentina desde 11 de abril.

Até este momento, ele protagonizava a peça de teatro "Quién es quién", ao lado de outra personalidade nacional, Soledad Silveyra.

"Você é o último dos grandes a partir. Sempre com você na lembrança. Dia muito triste para a cultura", escreveu Silveyra no X.

No cinema, Brandoni trabalhou em sucessos como "La tregua" e "A Patagônia Rebelde" (ambos de 1974), o clássico "Esperando la carroza (1985), "Made in Lanús" (1987) e "A Odisseia dos Tontos" (2019), este último ao lado do renomado ator argentino Ricardo Darín, todos sucessos de bilheteria em uma extensa filmografia de mais de 60 longas-metragens.

Brandoni também brilhou no teatro com peças inesquecíveis que estiveram em cartaz por várias temporadas, como "Conversaciones con mamá" (2012) e "Parque Lezama" (2013-2016). A recente versão cinematográfica da peça, dirigida por seu amigo Juan José Campanella, foi seu último filme, e estreou em fevereiro passado.

Na TV, protagonizou inúmeros sucessos e um de seus últimos trabalhos foi a minissérie argentina "O Faz Nada", na qual trabalhou com o americano Robert De Niro, de quem era amigo. A comédia dramática estreou na plataforma Disney+ em 2023 e marcou a primeira atuação de De Niro numa série televisiva.

Brandoni alternou seu trabalho como ator com um forte compromisso político como militante da União Cívica Radical (UCR), ideais que abraçou desde a juventude.

A atuação das Avós da Praça de Maio tornou-se uma referência internacional na defesa dos direitos humanos e na luta contra crimes de Estado. A organização foi fundamental no julgamento de lideranças envolvidas nos crimes da ditadura militar argentina, considerada a mais violenta da América do Sul. Reprodução do Instagram @memorialdademocracia
Na ESMA (Escola de Mecânica da Armada), que foi um dos espaços de repressão da ditadura, foi instalada a Casa por la Identidade, local destinado a preservar a memória e símbolo da busca por encontrar os desaparecidos. Leandro Kibisz/Wikimédia Commons
A organização Avós da Praça de Maio tem como presidente Estela de Carlotto, ativista de direitos humanos que teve uma das filhas, Laura Estela Carlotto, que estava grávida quando foi sequestrada pela ditadura. Micaela Ayala/Wikimédia Commons
O homem identificado em abril de 1977 nasceu no centro clandestino La Escuelita, em Bahía Blanca, cidade a 630 quilômetros de Buenos Aires. Ele é filho de dois militantes do período, Graciela Alicia Romero e Raúl Eugenio Metz. Casa Rosada/Wikimédia Commons
"O apoio da sociedade, que segue fornecendo informações sobre possíveis filhos e filhas de pessoas desaparecidas e acolhendo quem tem dúvidas sobre sua origem, demonstra que essa busca não pode ser solitária", declarou a organização em comunicado de julho de 2025, por ocasião da identificação do 140º neto. Mónica Hasenberg/Wikimédia Commons
O trabalho das Avós da Praça de Maio já conseguiu recuperar a identidade de mais de 140 pessoas. Assim, essas vítimas puderam ter contato com suas famílias biológicas e conhecer sua história. Reprodução do Youtube Canal AFP Português
Em mais de quatro décadas de atuação, a organização foi ganhando mais integrantes e criou um banco nacional de dados genéticos para identificar os desaparecidos e comprovar os crimes perpetrados pelo regime. Reprodução do Youtube Canal Euronews em Português
Em um sábado, dia 30 de abril de 1977, 14 mulheres trajando um lenço branco na cabeça ocuparam a Praça de Maio, no primeiro ato do que seria um dos mais importantes movimentos de direitos humanos da América Latina. Reprodução do Youtube Canal Euronews em Português
Após o fim da ditadura militar, a organização formada por avós de crianças desaparecidas passou a se reunir na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires, como símbolo de resistência. Domínio Público/Wikimédia Commons
Durante o regime, muitas das vítimas presas ilegalmente estavam grávidas e, ao nascerem, os bebês dessas mulheres foram entregues à adoção, geralmente para famílias de pessoas ligadas à ditadura. -Reprodução do Instagram @janaina.teles.927
A ditadura militar na Argentina durou de 1976 a 1983 e, segundo organizações de direitos humanos, a repressão do regime provocou o desaparecimento de cerca de 30 mil pessoas. Em 1977, um grupo de mulheres fundou a Avós da Praça de Maio (Abuelas de Plaza de Mayo, no original), organização de direitos humanos que tem como objetivo principal identificar crianças sequestradas durante a ditadura. Reprodução do Instagram @janaina.teles.927
No dia 24 de março de 2026, milhares de manifestantes foram às ruas de Buenos Aires, capital da Argentina, por ocasião dos 50 anos do golpe militar no país. Muitos se concentraram na tradicional Praça de Maio, que ganhou projeção com o movimento das Avós da Praça de Maio. A seguir, veja a história dessa organização! Reprodução do Instagram @maxiferraro

Atuação política

Foi perseguido durante a ditadura militar (1976-1983) e viveu um sequestro de várias horas em julho de 1976 junto com sua esposa, Marta Bianchi, com quem foi casado por mais de duas décadas e com quem teve duas filhas. Os dois se exilaram no México, mas voltaram à Argentina 10 meses depois.

Seu engajamento político o levou a ocupar um assento como deputado federal por este partido por dois mandatos consecutivos (1993-2001) e também foi assessor cultural do falecido ex-presidente radical Raúl Alfonsín (1983-1989).

"Tenho muita má vontade com a política", disse nos últimos anos, ao admitir que não queria disputar mais nenhum cargo eletivo.

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Era um crítico ferrenho da ex-presidente peronista Cristina Kirchner (2007-2015) e também do atual presidente ultraliberal Javier Milei, a quem tachou de "ignorante" por suas críticas a Alfonsín. "Tem uma personalidade que me inquieta", dizia sobre Milei.

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