Amigos, músicos e admiradores de Gatto Jair se reúnem neste sábado (11/4), às 19h, no Botequim Desde 1999 (Rua Mármore, 758, Santa Tereza), para uma homenagem que mistura música, imagens de arquivo e relatos afetivos. O encontro desta noite deve reunir pessoas que conviveram com o artista em diferentes momentos de sua trajetória. Estão previstas apresentações musicais com repertório ligado à banda Último Número, da qual Jair foi vocalista e principal letrista, além da exibição de vídeos raros em telão.

Figura marcante da cena underground da capital mineira, Gatto Jair morreu em março, aos 67 anos. Durante as décadas de 1970 a 1990, transitou entre a poesia, a performance e a música, ajudando a moldar uma geração que buscava novas formas de expressão artística fora dos circuitos tradicionais.

Antes de se firmar na música, Jair esteve ligado ao coletivo Cemflores, que reuniu estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e artistas em torno de publicações independentes e intervenções culturais. Liderado por Marcelo Dolabela, o grupo produzia revistas e livros artesanais em mimeógrafo, além de promover performances em escolas, bares e espaços públicos.

“Era mais voltado para o público estudantil, embora também houvesse intervenções de rua”, relembrou Jair, em entrevista ao blog Fúria 2112, concedida em fevereiro do ano passado. De acordo com ele, as apresentações do grupo variavam de acordo com o ambiente, sendo mais contidas em espaços acadêmicos e festivas, e mais caóticas em bares.

A transição definitiva para a música veio como desdobramento natural dessa experiência. No projeto Divergência Socialista, do qual também participou John Ulhôa, guitarrista e fundador do Pato Fu, Jair participou de uma proposta híbrida que misturava punk rock, performance e experimentação sonora. Era o que o grupo chamava de “dada music”.

Os shows, muitas vezes, causavam estranhamento. Em meio a um público acostumado à sonoridade do Clube da Esquina, as apresentações provocavam vaias.

Foi com a banda Último Número, surgida em meados dos anos 1980, que Jair consolidou sua identidade artística. Diferentemente dos projetos anteriores, passou a assumir a maior parte das letras, construindo uma obra autoral marcada por referências literárias e pela atmosfera do pós-punk. “Nos outros grupos, os poetas eram Dolabela e Rubinho. Nesse, era eu mesmo”, ele costumava dizer.

A banda lançou discos como “O strip-tease da alma” e “Filme”, registrados de forma independente e sob limitações técnicas. Ainda assim, o grupo conquistou reconhecimento da crítica e circulou por espaços importantes do circuito alternativo brasileiro.

As referências de Jair revelam um artista que transitava entre diferentes universos. Da canção brasileira – como Chico Buarque e Caetano Veloso – à poesia de Augusto dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade, passando por nomes centrais do rock e do pós-punk internacional, como Bob Dylan e Ian Curtis.

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Ele próprio se definia menos como músico e mais como um escritor de canções: “Não sou músico, mas poeta que fez canções em parceria”.

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