“Pai, mãe, irmã, irmão” é um drama familiar episódico de título autoexplicativo, com ao menos dois elementos em comum em todas as partes: um relógio Rolex e a presença de skatistas em câmera lenta. "Esses skatistas estão por todos os lados", diz o filho do primeiro episódio.
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O longa foi o grande premiado com o Leão de Ouro no último Festival de Veneza, o que fez com que os fãs de Yorgos Lanthimos – que concorria com “Bugonia” – e os admiradores de “A voz de Hindi Rajab” dirigissem olhares tortos ao filme. Para eles, Jim Jarmusch é ultrapassado e não merecia prêmio algum.
Drama familiar não é o forte de Jarmusch, diretor do filme, mas o formato episódico, sim, e seus fiéis escudeiros – o mais antigo, o também músico Tom Waits, e o mais recente, Adam Driver – aparecem já no primeiro episódio, como pai e filho, para ajudar na tarefa.
Jarmusch é um dos maiores representantes do cinema independente americano dos anos 1980, quando despontou com filmes característicos como “Estranhos no paraíso”, de 1984, e “Daunbailó”, de 1986, este já com Waits.
Esse cinema foi se modificando com o passar do tempo. À altura de “Ghost dog”, o melhor Jarmusch, o cenário independente já era outra coisa, numa adequação a uma indústria inflacionada e em franca decadência.
Cinemão
Hoje, as fronteiras entre o cinemão hollywoodiano e o cinema independente estão bem menos definidas, mas o cineasta continua em sua trajetória digna, com um ou outro deslize que independe de orçamento.
Driver é um ator irregular, que rende muito bem com Jarmusch – e Martin Scorsese, em “Silêncio” – mas não tanto com outros diretores. Basta comparar o que ele faz com Noah Baumbach – em “Cenas de um casamento”, por exemplo – para ver a diferença, ainda que Jarmusch e Baumbach trabalhem em registros semelhantes.
Mesmo no bom filme de Spike Lee, “Infiltrado na Klan”, seu trabalho tem uma clara fragilidade, que Lee é esperto o suficiente para contornar. De todo modo, o episódio “Father” de “Pai, mãe, irmã, irmão”, o primeiro, é bem forte, o que mais habilmente retrata o mal-estar familiar construído pela passagem do tempo e a distância.
Waits arrebenta como o pai picareta, que sabe viver, mas que se faz de velhinho coitado, pobre e meio senil, digno da piedade dos filhos Jeff e Emily, esta interpretada por Mayim Bialik. É ambientado em New Jersey, numa bela região de lagos e muita neve.
A construção é cuidadosa, com os irmãos na estrada, antecipando problemas e tentando relaxar com a bela paisagem. Eles não sabem que, enquanto viajam, o pai, arisco, enfeia a casa, procurando forjar uma aparência de decadência.
Queda de padrão
Os outros episódios seguem o padrão do primeiro, mas não a qualidade. Há uma queda, não muito drástica. Os laços familiares que vemos tão bem delineados no primeiro episódio são delicadamente sustentados nos outros, e o filme trabalha com nuances desses relacionamentos.
O segundo episódio, “Mother”, se passa em Dublin, na Irlanda, e tem Vicky Krieps e Charlotte Rampling, uma dupla meio estranha de atrizes que nem sempre estão bem. Por vezes, elas parecem estar no mesmo papel – Rampling principalmente. Sorte que Cate Blanchett aparece para equilibrar as coisas, mesmo sem muita inspiração.
O terceiro e o quarto capítulos – surpresa! – surgem unidos. “Sister and Brother” é o mais urbano dos episódios, mas continua tendo com os outros os elementos em comum: o Rolex e os skatistas.
Ambientado em Paris, tem um esquema de drama diferente. Não há a problemática dos outros dois episódios, do idoso que mora sozinho e recebe a visita dos filhos. Mostra os irmãos juntos desde o começo. A junção se justifica também pelo fato de que os irmãos, vividos por Indya Moore e Luka Sabbat, são gêmeos.
O que fazem e como se entendem é o que vemos no decorrer do episódio. E aí surge nova similaridade: eles vão visitar o apartamento onde moravam quando crianças, agora vazio porque os pais – para facilitar a simetria – morreram há pouco tempo.
O desfecho de cada episódio tem algo de especial. Não seria diferente neste derradeiro. “Pai, mãe, irmã, irmão” termina em nota singela, com a voz da juventude. Os jovens pegaram o bastão e agora conduzem a história do cinema. (Sérgio Alpendre)
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“PAI, MÃE, IRMÃ, IRMÃO”
(EUA, 2025, 1h51). Direção: Jim Jarmusch. Com Adam Driver, Cate Blanchett, Indya Moore. Classificação: 14 anos. Em cartaz no Ponteio (Sala 4, 18h55, 21h15), UNA Cine Belas Artes (Sala 2, 16h20, 20h20) e Centro Cultural Unimed-BH Minas (Sala 2, 18h10).
