O Hospital Colônia de Barbacena, fundado em 1903, ficou conhecido por manter os pacientes em condições desumanas durante tratamento psiquiátrico. A estrutura precária desumanizou quem esteve internado no local, que ficou conhecido como “hospital de loucos”, assim como o trem que levava os pacientes até a colônia foi batizado de “trem de doido”. Anos depois, toda a situação passou a ser chamada de “holocausto brasileiro”. 

Impactada pela história, após fazer uma visita técnica ao antigo hospital, a atriz Clarice Rodrigues criou o espetáculo “Canção da barbárie”, que conta a história da enfermeira Dora, que trabalhou no Hospital Colônia. O espetáculo tem apresentações nesta quinta-feira (26/3) e sexta, no Centro Cultural UFMG, às 19h. 

“Durante a peça, que é um solo, ela vai contando suas histórias pessoais de vida, dentro do próprio manicômio, a lida do dia a dia com os pacientes, falando também sobre sentimentos e conflitos éticos que ela atravessava trabalhando ali dentro. Dora é um pseudônimo que utilizei para uma enfermeira real do hospital”, explica. 

DEPOIMENTOS

Clarice Rodrigues é cientista social formada pela Universidade Federal de Viçosa. Foi durante o curso que ela fez a visita ao hospital. “Eu me deparei com uma pesquisa sobre como as pessoas veem o acontecimento e como existe uma diferença geracional nas opiniões e no conhecimento. Coletamos vários áudios, depoimentos de famíliares, de funcionários e de pacientes. Isso me atravessou muito”, conta.

Foi quando a atriz encontrou o diário da enfermeira, e ficou “chocada” com o material, segundo diz. “Decidi  guardar essa história e não utilizar na pesquisa, porque senti que era muito cruel expor esse relato de uma forma tão imparcial e impessoal, mas aquilo foi me incomodando durante um tempo. Sempre voltava a isso, a esse lugar e assunto, e isso foi mexendo comigo. Quando comecei a trabalhar de vez somente com o teatro, decidi escrever o texto”, comenta. 

Clarice utilizou não apenas o diário da enfermeira, como os relatos coletados durante a pesquisa. Ela também incorporou referências do livro “Holocausto brasileiro” (2013), da jornalista Daniela Arbex, e o documentário “Em nome da razão” (1979), do cineasta Helvécio Ratton. 

Cerca de 60 mil pessoas morreram no Hospital Colônia de Barbacena em condições desumanas. Os pacientes nem sempre sofriam de transtornos mentais ou psiquiátricos – em sua maioria eram internados por serem “excluídos da sociedade”. Em períodos como o da ditadura militar, oponentes políticos, prostitutas, homossexuais, negros, pessoas em situação de rua ou aqueles que foram simplesmente “esquecidos” pela família, eram enviados ao “hospital de loucos”. 

“Eu me sentia muito impotente, porque é uma história muito pesada mas, ao mesmo tempo, muito esquecida. Poucas pessoas sabem o que foi o ‘holocausto brasileiro’, especialmente em outros estados. Começava a ficar incomodada e pensar que era preciso falar sobre isso, abrir essa ferida que não está cicatrizada. Acredito no patrimônio de memória, imaterial, e ele é construído por essa memória viva”, afirma a atriz e dramaturga. 

“CANÇÃO DA BARBÁRIE” 

Nesta quinta-feira (26/3) e sexta (27/3) no auditório do Centro Cultural UFMG (Avenida Santos Dumont, 174, Centro), às 19h. Entrada gratuita mediante retirada de ingresso pela plataforma Sympla. 

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

*Estagiária sob supervisão da editora Silvana Arantes

 
compartilhe