Ela está longe de ser do bloco do eu sozinha, ainda mais porque o teatro, por excelência, é a arte do encontro. Mas ao contrário de muitos de seus pares, a atriz, diretora e dramaturga Rita Clemente construiu sua carreira de forma única. Completando 35 anos exclusivamente dedicada às artes cênicas, como artista e professora, ela nunca se fixou num grupo, mesmo que tenha trabalhado com vários.
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“Acho que tenho alguma dificuldade no jogo com muita gente, embora sempre entenda a necessidade de equipe”, afirma Rita, que celebra o aniversário de carreira com novo espetáculo. Mais um solo, diga-se.
Rita adapta, dirige e encena “Delírio e queda”, sua versão para “Macbeth”, de Shakespeare. A montagem estreia nesta quinta (26/3) em sessão só para convidados no Teatro de Bolso do Sesc Palladium. A curta temporada vai até domingo (29/3) – há ingressos disponíveis apenas para a sessão extra, no sábado (28/3), às 18h.
Na peça, ela se coloca na pele da ambiciosa Lady Macbeth. “Mesmo sendo uma mulher que está caminhando para os 60 anos, várias coisas me movimentam. Tenho pensando nesse texto há um tempo. Não é só a história nem Shakespeare em si, mas pegar um autor desta época (final do século 16 e início do 17) e fazer sobre ele uma adaptação”, comenta.
Mostra Ao Teatro
“Delírio e queda” encerra a programação da segunda edição da Mostra Ao Teatro, projeto de montagens inéditas criadas pela própria Rita. A partir de várias traduções do clássico shakespeariano, ela fez a própria escrita. Criou dois textos, por sinal: “Escorpiões na alma”, cena apresentada na semana passada por Júlio Maciel, como Macbeth, e o supracitado “Delírio e queda”.
Ela se serviu muito do texto original, obviamente, mas também criou seus petardos. “No final, a culpa sempre recai sobre uma mulher.” A frase, que está em cena, é da própria Rita. “Tentei me misturar ao Shakespeare. Venho trazendo esse questionamento sobre a culpa da esposa, como ela lida com isso e arquiteta seu plano. A ideia foi trazê-la para o protagonismo e repensar os personagens, questionando fundamentalmente o desejo do ser humano pelo poder. Algo que ultrapassa a ética, o amor.”
Os trabalhos são desenvolvidos em seu próprio estúdio, Clementtina, espaço que ela montou em 2018. Até chegar a ter “casa própria”, a artista atuou em várias instituições. Sua história no teatro começa no Palácio das Artes, onde se formou em 1991. Nascida em Araxá de uma família de Nova Lima, onde foi criada, foi levada por um amigo ao curso de formação teatral da Fundação Clóvis Salgado.
“Sou de uma família humilde, então não tinha dimensão de que poderia assumir o teatro como profissão. Quando entrei no Palácio das Artes, um mundo se abriu para mim. Não planejei nada.” Uma vez formada, descobriu que para conseguir pagar as contas, teria que se dividir.
Sonho e Drama
No início da década de 1990 entrou para a Cia. Sonho e Drama, onde ficou por alguns anos, estreou seu primeiro trabalho profissional, “Tempestade e ímpeto”, quando atuou com dois alunos, e passou a integrar o corpo docente do Palácio das Artes. Ficou quase uma década como professora do Centro de Formação Artística (Cefar, atual Cefart, da Fundação Clóvis Salgado).
Foi ainda nos primeiros anos que foi convidada para integrar o Grupo Galpão. O convite ocorreu após a morte de Wanda Fernandes, em abril de 1994. “Me esquivei porque dava muita aula, não conseguia me desvencilhar. Foi quase triste não poder integrar o grupo, mas a minha trajetória inicial era de conciliar a criação com a manutenção da vida. Não tinha quem pagasse as minhas contas”, diz ela, que também foi professora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e do próprio Galpão Cine Horto. Quando o espaço cultural foi criado, Rita tinha quatro turmas ali.
Marcos em sua trajetória são a passagem pelo Palácio das Artes – “Foi lá que fui apresentada à arte da cena e ao teatro” –; a participação em novelas, entre elas “Amor à vida” (2013) e “Liberdade, liberdade” (2016) – “Embora muita gente ache que é desimportante, é algo importante, que me deu experiência e dimensão do que é fazer TV” – e a abertura do Clementtina.
Ela não deixa de citar também os espetáculos solo, realizados com cerca de uma década de diferença. São eles “Dias felizes” (2006), “Amanda” (2015) e “Delírio e queda”. Independentemente do formato, o teatro de Rita é sempre marcado pela independência. “Não é independência financeira, isso não existe na arte. Mas é ser independente na escolha do que vou criar”, comenta.
Terça da dança
Rita Clemente dirige “Zuzus”, espetáculo que será apresentado nesta terça (24/3), às 19h, no Teatro Marília (Avenida Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia), dentro da programação do projeto Terça da Dança.
As bailarinas Márcia Neves, Marise Dinis, Flavi Lopes e Gabriela Christófaro jogam luz sobre a luta da estilista Zuzu Angel para denunciar o autoritarismo e a violência que marcaram a ditadura militar no Brasil. Entrada franca. Ingressos podem ser retirados meia hora antes na bilheteria.
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“DELÍRIO E QUEDA”
O espetáculo estreia na próxima sexta (27/3), às 20h30, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia), disponíveis apenas para a sessão extra, sábado (28/3),às 18h. À venda no Sympla e na bilheteria.
