CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Um envelope que o poeta paranaense Paulo Leminski esqueceu em uma poltrona de avião há mais de 40 anos será devolvido à família dele nesta quarta-feira (18/3).

O volume tinha sido guardado pelo ex-funcionário da Varig Ernani Edson de Paula, de 84 anos, e veio à tona só agora, quando a filha dele, Caroline de Paula, encontrou o material e o levou para o jornalista Célio Martins.

Leminski morreu em 1989, aos 44 anos. "A gente se conhece há alguns anos e ela sabe que eu gosto de poesia e conheci o Leminski nos anos 1980. Aí teve um dia que ela abriu a mochila e tirou o envelope. Foi muito surpreendente", conta Martins. "Ela me explicou que o pai dela reunia muitas coisas que eram esquecidas no avião", continua o jornalista.

"E ele sabia quem era Leminski, mas não conseguiu contato na época, sem internet. Ele tentou ligar, não conseguiu, guardou no baú, esqueceu e foi cuidar da vida". Martins foi quem fez a ponte há alguns meses com a família de Leminski para confirmar a autenticidade do que foi encontrado no envelope.

Dentro dele, além do cartão de embarque de Leminski, há 12 folhas de manuscritos com anotações de ideias, poemas datilografados com algumas alterações feitas a caneta e também uma tradução para o inglês da música "Esotérico", de Gilberto Gil.

No envelope também estavam duas páginas de um exemplar do "Folhetim", antigo suplemento de cultura da Folha de S. Paulo, de 7 de novembro de 1982, no qual havia um texto de Leminski diagramado em duas páginas sobre o poeta e letrista Torquato Neto.

Todo o conteúdo será entregue nesta quarta à poeta Alice Ruiz, que foi casada com Leminski, e às filhas deles, Aurea e Estrela, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná, no centro de Curitiba. Em uma primeira análise do conteúdo, as filhas do Leminski afirmam que não há poemas inéditos, mas que os achados mostram seu "processo de escrita".

"O que é interessante é o recorte de coisas diversas. Porque mostra a forma como ele produzia, que era 'tudo ao mesmo tempo agora'. Ideia para uma música, um artigo, um exercício literário. A cabeça dele criava o tempo todo", diz a escritora e compositora Estrela Leminski.

"Minha mãe lembrou que ele tinha muito medo de avião. Ele brincava que o avião não fazia sentido. Então me ocorreu que ele tratou de se ocupar também", brinca ela. Dentro do envelope, Leminski deixou o cartão de embarque emitido pela Cruzeiro do Sul, então propriedade da Varig, indicando que o avião fazia o trajeto entre Curitiba e São Paulo no dia 24 de abril.

O ano da viagem não aparece, mas Célio Martins diz que parece se tratar de 1983, a partir da análise do que foi encontrado e também com a ajuda da memória de Ernani de Paula. "A história é muito curiosa", afirma Estrela Leminski. "Hoje, como a gente vive este mundo digital, com tudo disponível, a gente não tem mais a possibilidade de ter uma descoberta assim. Ficamos empolgadas".

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Além da cerimônia de entrega do material à família, Célio Martins diz que será feita uma pequena mostra com alguns dos achados para exibição na Biblioteca.

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