No ano passado, o festival literário Bitita: Festa da Palavra ainda engatinhava. Sua primeira edição foi realizada junto com a Primavera dos Livros, com programação descentralizada, dividida entre a alameda da Praça da Liberdade, a Biblioteca Pública Estadual, a Academia Mineira de Letras e o Palácio das Artes.


Agora, o evento já parece caminhar com as próprias pernas. Desta quinta-feira (19/3) até domingo, o Bitita será realizado inteiramente no Palácio das Artes, com rodas de conversa, lançamentos de livros, projeções e sessões de cinema.


“Na primeira edição, o evento estava mais voltado para as infâncias, com a literatura infantil e juvenil. A ideia agora é ampliar o conceito do Bitita para a poesia expandida, com a literatura expandida”, diz o curador Renato Negrão. Para este ano, o tema escolhido foi “Luz, palavra e imagem”.


A literatura, então, deixa de estar restrita à página e passa a dialogar com outras linguagens. Ultrapassando o formato tradicional do livro, ela se desdobra em imagem, som, performance e projeção. A escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) – que inspira e dá nome ao festival, já que seu apelido era Bitita e ao qual ela recorreu em “Diário de Bitita” – flertava com esse fazer artístico. Em 1961, gravou o LP “Quarto de despejo”, com composições próprias.


Conhecida sobretudo por seus relatos sobre a vida na favela, a autora teve uma produção multifacetada, que inclui poesia, música e escritos de caráter fragmentário, como os “Provérbios”. Essa dimensão menos explorada abre caminho para uma leitura estética mais ampla de sua obra.


Luminoso e experimental

“Existe uma tendência de associar a Carolina apenas à narrativa social, mas a gente quis destacar também esse lado mais luminoso, mais experimental”, afirma Negrão. Nesse sentido, a ideia de literatura expandida dialoga com a forma como a escritora lidava com a linguagem e com a materialidade, transformando fragmentos do cotidiano em criação literária.


No festival, essa expansão se traduz na presença de diferentes formas de expressão artística, como o cinema, as artes visuais e a música. Tudo articulado em torno da literatura.


Estarão reunidos em mesas-redondas os artistas visuais Angélica Freitas, Preto Matheus e Sylvia Amélia, que debatem “Luz-palavra-imagem: construtivo, intuitivo e orgânico” (sábado, às 10h30, na Sala Juvenal Dias); Wilson de Avelar e Paulo Nazareth, em “Arte como circulação viva da memória: emoção, corpo e imagem contra a narrativa hegemônica” (sábado, às 15h, no mesmo espaço).


A jornalista Jéssica Balbino, colunista do Estado de Minas divide com a poeta Brisa Marques a mesa “Voz, corpo e imagens insurgentes na escrita contemporânea” (sábado, às 19h30).


No Cine Humberto Mauro, serão exibidos o curta “Barravento” (1962), de Glauber Rocha, na sexta-feira; além de minidocumentários sobre artistas brasileiros contemporâneos – entre eles, Jaider Esbell (1979-2021), Denilson Baniwa, Carmézia Emiliano e Rosana Paulino –, no sábado; e no domingo, será exibido “Memórias póstumas de Brás Cubas” (2001), de André Klotzel, a partir da obra de Machado de Assis.


A cantora e poeta Nívia Sabino e o escritor Marcelino Freire gravaram performances que serão projetadas nas paredes do jardim interno do Palácio das Artes em todos os dias do evento. Já a Galeria Mari’Stella Tristão recebe a exposição “A primeira vez que voei foi na página 35”, de Maré de Matos. Em cartaz até 26 de abril, a mostra reúne obras que mesclam frases, pinturas e videoinstalações.


“A gente pensou o poema em movimento, a literatura em movimento”, afirma Negrão. “Uma vez dado o conceito, é preciso acomodar tudo no tempo, no espaço e no orçamento do projeto”, observa.


“Eu não queria que a programação ficasse estritamente presa à tradição da poesia visual brasileira da década de 1970 para cá, onde há grandes nomes. Tivemos, então, que pensar em artistas que trabalham com múltiplas linguagens. Nesse sentido, são artistas novos sobre os quais a gente precisa jogar luz”, diz.


PROGRAME-SE

Quinta-feira (19/3):

• 18h – Abertura oficial na Sala Juvenal Dias


• 19h – Visita guiada à exposição “A primeira vez que voei foi na página 35”, da artista Maré de Matos, na Galeria Mari’Stella Tristão


• 20h – Projeções no jardim interno


Sexta-feira (20/3):

• 16h – Exibição de “Barravento” (1962), de Glauber Rocha, no Cine Humberto Mauro


• 18h – Exibição de minidocs de Helena Bagnoli (“Castiel Vitorino Brasileiro”, “Antonio Obá”, “Uyra”, “Luana Vitra” e “Rafa Bqueer”), no Cine Humberto Mauro


• 19h30 – Exibição de curtas de Maré de Matos (“Estudos sobre justiça” e “Outros nomes para a dignidade”), no Cine Humberto Mauro


• 20h - Debate “Museu das emoções: Leituras decoloniais na obra de Maré de Matos”, com Maré de Matos, na Sala Juvenal Dias


• 20h – Projeções no jardim interno

Sábado (21/3):

• 10h30 – Debate “Luz-palavra-imagem: Construtivo, intuitivo e orgânico”, com Angélica Freitas, Preto Matheus e Sylvia Amélia, na Sala Juvenal Dias

• 12h – Lançamento dos livros “Porca gorda”, de Jéssica Balbino; “Escrevam-me”, de Renato Negrão; e “Mostra monstra”, de Angélica Freitas, no jardim interno

• 15h – Oficina de poesia e desenho com Angélica Freitas, na Midiateca João Etienne Filho

• 15h – Debate “Arte como circulação viva da memória: Emoção, corpo e imagem contra a narrativa hegemônica”, com Wilson de Avelar e Paulo Nazareth, na Sala Juvenal Dias

• 16h – Exibição de minidocs sobre os artistas Hélio Oiticica, Paulo Nazareth, Jaider Esbell, Denilson Baniwa, Carmézia Emiliano e Rosana Paulino, no Cine Humberto Mauro

• 18h – Exibição do filme “Vaga carne”, de Grace Passô e Ricardo Alves Jr., e de videopoemas de Ana Martins Marques

• 19h30 – Debate “Voz, corpo e imagens insurgentes na escrita contemporânea”, com Jéssica Balbino e Brisa Marques, na Sala Juvenal Dias

• 20h – Projeções no jardim interno

Domingo (22/3):

• 17h30 – Exibição de “Memórias póstumas de Brás Cubas” (2001), de André Klotzel, no Cine Humberto Mauro

• 19h – Exibição de minidocs sobre os artistas Josi, Isael e Sueli Maxakali, Thiago Gualberto, Sonia Gomes, Nei Xakriabá, Gustavo Caboco e Maxwell Alexandre, no Cine Humberto Mauro

• 20h – Projeções no jardim interno e festa de encerramento com DJ Black Josie

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BITITA: FESTA DA PALAVRA
Rodas de conversa, exposição, projeções, lançamento de livros e exibições de filmes. Desta quinta-feira (18/3) até domingo, no Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Programação completa disponível no Instagram (@bititafestadapalavra). Entrada franca.

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