O 15º Festival de Fotografia de Tiradentes promove neste sábado (14/3) o lançamento do livro “Outros navios: fotografias de Eustáquio Neves” (Edições Sesc), que repassa 40 anos de produção do fotógrafo, mineiro de Juatuba, que se tornou um dos mais importantes nomes da fotografia experimental brasileira.

A publicação reúne 11 séries que ajudaram a consolidar o trabalho do artista: “Caos urbano” (1991), “Arturos” (1993-1995), “Objetificação do corpo” (1994-1995), “Futebol” (1995-2004), “Boa aparência” (2000), “Máscara de punição” (2004), “Encomendador de almas” (2007), “Cartas ao mar” (2015), “Mãe” (2019), “Retrato falado” (2019-2020) e “Sete” (2023).


Além das imagens, o livro traz um ensaio introdutório do fotógrafo Eder Chiodetto, organizador do volume, e textos da cientista social e fotógrafa Barbara Copque, do curador camaronês Bonaventure Soh Bejeng Nkikung e do professor e escritor Edimilson de Almeida Pereira, além de uma entrevista de Eustáquio Neves a Chiodetto e sua cronologia biográfica.

Desde o início dos anos 1990, o fotógrafo desenvolve uma linguagem que amalgama fotografia, pintura, colagem e intervenções químicas para criar narrativas visuais sobre a diáspora africana, o racismo estrutural e a ancestralidade afro-brasileira. 

“Pego muito na questão do racismo estrutural e do racismo sistêmico para falar de como o lugar das pessoas pretas ainda é um espaço de segregação; como elas têm que ultrapassar fronteiras cotidianas de dificuldades impostas”, diz o artista.

Mecanismos de exclusão

Ele evoca o contingente de pessoas negras no sistema carcerário brasileiro, nas periferias e no subemprego. Comissionada para o bicentenário da Independência do Brasil, a exposição realizada em 2022 da qual o livro é um desdobramento questionava: independência para quem? Neves observa que os mesmos mecanismos de exclusão e violência seguem operando, mudando apenas de forma.

Sobre as séries que compõem o livro, ele pontua que algumas se inter-relacionam também pelos procedimentos empregados. “Mãe” e “Sete” são fotopinturas, assim como sua série mais recente, realizada após a feitura do livro e intitulada “Onze”. 

“Minha fotopintura não é clássica; ela pensa o lugar da fotografia – ou a falta dela – na vida das pessoas negras. A história da fotografia é uma história de exclusão e apagamento dessas pessoas. Meu trabalho tenta restaurar essas lacunas, o que foi historicamente apagado e negligenciado”, diz Neves.

O lançamento do livro e a participação no Festival de Fotografia de Tiradentes dão a largada em um ano repleto de eventos que colocam o nome do fotógrafo ainda mais em evidência. Obras do artista estarão na 61ª Bienal de Veneza (9/5 a 22/11). Ainda neste mês, Neves volta ao FotoFest, o maior festival de fotografia dos Estados Unidos, do qual participa desde os anos 1990, para a edição comemorativa de 40 anos.

Ele pretende ainda ampliar a série “Onze” e fazer uma residência no ateliê e escola de arte Sertão Negro, de Danton Paula, em Goiânia (GO). Sobre sua estreia na Bienal de Veneza, diz que vai levar as séries “Arturos” e “Cartas ao mar”, que tem como ponto de partida o cais do Valongo, no Rio de Janeiro.

“Estou feliz, mas não me empolgo, não. Os galeristas estão eufóricos. O anúncio da minha participação em Veneza está ressuscitando gente que eu nem sabia mais que estava por aí, mas para mim é só mais um trabalho”, afirma. 

Quando conversou por telefone com a reportagem, Eustáquio Neves estava no Benin, na África, participando das gravações de um documentário, dirigido pela cineasta baiana Urânia Munzanzu, da Acarajé Filmes, em associação com a Sertão Negro.

“Somos seis artistas estabelecendo uma conversa entre Benin e Brasil, tendo como porta de entrada a Bahia, que recebeu um grande número de escravizados do país africano, então é como se fosse uma volta”, diz o fotógrafo.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


“OUTROS NAVIOS”
Lançamento do livro de Eustáquio Neves, com organização de Eder Chiodetto (Edições Sesc), neste sábado (14/3), às 18h, no Vila Foto em Pauta (Rua Santíssima Trindade, 94, Centro histórico de Tiradentes). Entrada gratuita.

compartilhe