“Hora do recreio”, longa da diretora Lúcia Murat que estreia nesta quinta-feira (12/3), no UNA Cine Belas Artes, só tem a força que tem graças aos problemas – que foram vários, durante as filmagens com alunos da rede pública carioca, em 2023. Operação policial em comunidade e proibição de filmar dentro de uma escola são apenas dois deles.
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“Cada situação fez com que a gente mudasse a proposta que tinha sido feita. E a proposta inicial era um documentário bem padrão mesmo, de ir nas escolas e ouvir o que os garotos tinham a dizer”, afirma Lúcia. Não foi apenas uma questão de mudar a intenção, mas também de levar para a cena as dificuldades. E é isto que garante originalidade ao projeto.
Lançado no Festival de Berlim de 2025, de onde saiu com menção especial do júri jovem da mostra Generation, voltada ao público infantojuvenil, “Hora do recreio” trata da educação sob o ponto de vista de adolescentes de regiões periféricas do Rio de Janeiro.
São quase dois filmes em um, pois ele traz sequências documentais, em que alunos falam para a câmera sobre os problemas que enfrentam dentro de casa e também fora dela: racismo, violência, abuso sexual, bullying.
Encenações
O longa também trabalha com a recriação. Três grupos de teatro de comunidades – Nós do Morro, do Vidigal; Vozes, do Pavão, Pavãozinho, Cantagalo; e Instituto Arteiros, da Cidade de Deus – fizeram encenações baseadas no livro “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto, sobre a jovem negra do subúrbio que é seduzida e abandonada por um malandro branco.
Lúcia já tinha trabalhado com grupos de teatro de jovens oriundos de favelas em “Quase dois irmãos” (2004) e “Maré, nossa história de amor” (2007). “Então eu já tinha profunda admiração pelo trabalho dos grupos, que cresceram muito. Mas, nesses filmes, os jovens acabaram fazendo papel de bandido, ou então no entorno. Pensei que seria interessante eles falarem das situações que vivem no ambiente da escola”, comenta.
“Hora do recreio” é aberto com um grupo de estudantes falando para a câmera. Eles parecem estar numa sala de aula, mas não estão. Às vésperas da filmagem, a equipe ficou sabendo que a escola havia proibido que o filme fosse rodado lá dentro. “A produção falou que eu tinha que abandonar o [projeto de filmar estudantes do] Ensino Médio. Falei: ‘Não vou mesmo’”, relembra Lúcia.
Como ela já tinha estado no colégio e conversado com os meninos, usou de sua experiência de ficção para rodar com o grupo. Uma locação foi alugada e os garotos levados, de van, para as filmagens. Mesmo que fora de seu ambiente, os adolescentes contaram, sem subterfúgios, seu cotidiano. As falas são fortes, por vezes duras – e sempre muito honestas.
Das sequências puramente documentais, tudo o que está no filme foi rodado uma única vez. “Quando chegamos, estava uma certa bagunça. Eu disse que eles tinham que falar um por um ou então não conseguiria gravar. Estávamos com duas câmeras, tudo preparado para não cortar. A ideia era que eles falassem à vontade”, relembra.
“A primeira menina que aparece no filme começou a falar, depois veio a segunda, a terceira, quarta. A gente foi ficando boquiaberto, quase não conseguimos filmar, porque estava todo o mundo chorando”, comenta a diretora. Houve poucos cortes, a montagem basicamente mudou a ordem das falas de acordo com os temas.
Uma operação na Favela da Penha impediu que a equipe chegasse até a escola da comunidade. O filme mostra não só Lúcia recebendo a notícia como os desdobramentos com a equipe.
Filmar o livro póstumo de Lima Barreto com jovens de grupos teatrais era uma intenção da diretora desde o início do projeto. Mais uma vez, a realidade mudou os planos. “A ideia era fazer no teatro e fazer depois uma discussão, uma visão da academia mesmo. A primeira leitura foi uma tragédia, porque o texto é muito difícil, longo, do início do século (20), com uma série de expressões que não são mais usadas. E elas não cabem na boca dos meninos.”
Uma vez frustrada essa ideia, foi feita uma segunda leitura. “Os meninos começaram a brincar, a fazer piada. Eu falei: ‘Bem, é uma maneira de fazer esse texto ser contemporâneo.’” A decisão foi fazer “Clara dos Anjos” em três momentos: em um ensaio, outro no teatro e um último, com um debate em sala de aula. “Nessa altura, quando houve a discussão, eles já estavam com completo domínio do livro”, diz Lúcia.
Novo filme
Tema central na obra de Lúcia Murat, a ditadura militar retorna ao próximo longa da diretora. Em processo de finalização, e ainda sem título, o filme acompanha três sobreviventes da tortura, entre eles a própria diretora. Integrante do MR-8, ela foi presa em 1971, aos 22 anos.
Permaneceu sob o jugo dos militares até 1974. No longa, o trio vai do Rio de Janeiro até a Bahia, pois eles têm uma relação com a história do assassinato de José Campos Barreto, o Zequinha, ex-metalúrgico também do MR-8 que morreu em setembro de 1971, na Operação Pajuçara, junto a Carlos Lamarca.
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“HORA DO RECREIO”
(Brasil, 2025, 83 min.) Direção de Lúcia Murat. O documentário estreia nesta quinta-feira (12/3), no UNA Cine Belas Artes (Sala 2, 14h).
