O Cine Humberto Mauro exibe, até o próximo dia 31, mais de 40 produções reunidas na mostra “As faces da showgirl: desejo e ruínas”, que propõe uma reflexão sobre o papel das mulheres nas artes e no entretenimento.


O termo em inglês “showgirl” se refere a um tipo feminino que se consolidou no imaginário popular durante a Era de Ouro de Hollywood, entre as décadas de 1930 e 1950. Eram mulheres com figurinos exuberantes (plumas, lantejoulas, saltos altos e grandes adereços de cabeça) que se tornaram símbolo de glamour no cinema norte-americano.


No ano passado, o termo voltou ao debate ao aparecer como título do 12º disco de Taylor Swift, “Life of a showgirl”. Na mostra, a noção de showgirl é ampliada. Não se restringe à figura clássica associada ao imaginário burlesco de Hollywood, mas abrange diferentes profissionais que atuam no universo do entretenimento e tensionam as ideias de feminilidade e espetáculo.


A figura é representada na mostra por meio de atrizes, cantoras, bailarinas, trabalhadoras sexuais, drag queens, rainhas de escola de samba e outras artistas que mobilizam e questionam ideais de feminilidade. Temas como espetáculo, corpo, desejo e poder marcam presença na programação.


“A partir desse tema e dessa figura que talvez a gente relacione de uma maneira mais imediata a uma figura do teatro, da dança, de uma cena burlesca ali do começo do século 20, resolvi alargar ou mesmo incluir essa figura em várias fases”, afirma a professora e pesquisadora Juliana Gusman, que assina a curadoria da mostra.


“Bagunçar a ideia”

Segundo a professora, a proposta é “desacomodar um pouco essa ideia da showgirl, dar uma bagunçada nela”. Em vez de se restringir à Era de Ouro, a seleção atravessa mais de um século de imagens, com filmes produzidos entre 1918 e 2025, em 14 países, entre curtas e longas-metragens, ficções, documentários e obras experimentais.


Nesta quinta (4/3), o público poderá assistir a “No teatro da vida”, de Gregory La Cava, às 15h, e “A malvada”, de Joseph L. Mankiewicz, às 17h, dois títulos emblemáticos da Era de Ouro de Hollywood. À noite, às 19h30, será exibido “Klute”, de Alan J. Pakula, protagonizado por Jane Fonda.


“Talvez seja uma das representações mais interessantes do trabalho sexual no cinema. Embora leve o nome do protagonista masculino, esse thriller é totalmente dominado pela presença de Fonda em cena”, afirma a curadora.


Na sexta-feira, serão exibidos “Chicago”, de Rob Marshall, e “Os sapatinhos vermelhos”, de Michael Powell e Emeric Pressburger. “Talvez um dos filmes de balé mais bonitos já filmados na história do cinema”, diz Juliana Gusman.


A programação inclui ainda “As golpistas”, de Lorene Scafaria. “É um filme que nos interessou por falar justamente desse universo das strippers a partir do ponto de vista de uma diretora mulher”, explica a curadora.


Distanciamento histórico

No sábado, às 16h30, haverá sessão comentada de “Showgirls”, de Paul Verhoeven, com a pesquisadora Nanda Rossi. A mostra pretende rever o longa lançado em 1995 e cercado de polêmicas sob outra perspectiva.


“Vai ser um momento importante de pensar esse filme com um distanciamento histórico de três décadas. Um filme extremamente elétrico e ácido. É um filme que merece uma discussão para ser recebido de uma forma justa”, comenta Juliana.


Ela pesquisa cinema feito por mulheres há anos. Sua tese de doutorado abordou a figuração de trabalhadoras sexuais no cinema, e ela integra o grupo Poéticas Femininas, da Universidade Federal de Minas Gerais. Também atua como crítica e programadora. “Tenho essa preocupação política em também reivindicar as trabalhadoras sexuais nessa cena”, afirma.


No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a programação traz “Maria Gladys”, dirigido por Norma Bengell, e “Seja bela e cale a boca”, de Delphine Seyrig. O último propõe uma reflexão dos percalços da indústria cinematográfica sobre a dificuldade de ser atriz no ambiente do entretenimento.


A linha do tempo proposta mostra transformações dessa figura ao longo das décadas. Nos anos 1940 e 1950, durante a Era de Ouro, a artista burlesca convivia com a bailarina clássica, misturando ideias de pureza e perigo. A partir dos anos 1970, o jazz e o teatro musical ganham força, com uma virada importante marcada por “Cabaret”, de Bob Fosse. Já nos anos 1990, cresce a aproximação com o universo das trabalhadoras sexuais e das strippers.


A mostra contará ainda com outras sessões comentadas, nos dias 12, 13, 15 e 19. Na última data, a curadora apresenta “Espelhos partidos”, de Marlene Gorris, thriller feminista dos anos 1980. “É um motivo de muito orgulho trazer esse filme para a mostra, porque, pelas minhas pesquisas, é a primeira vez que ele vai ser exibido no Brasil”, afirma Juliana.


A programação inclui também a estreia em Belo Horizonte do documentário “Atravessa minha carne”, de Marcela Borela. A cineasta recebeu este ano o prêmio do júri da crítica na Mostra de Cinema de Tiradentes. O filme será exibido no dia 14, às 20h, com a presença da diretora para um bate-papo após a sessão.


PROGRAMAÇÃO

HOJE (5/3)

• 15h - “No teatro da vida”, de Gregory La Cava


• 17h - “A malvada”, de Joseph L. Mankiewicz


• 19h30 - “Klute”, de Alan J. Pakula

AMANHÃ (6/3)

• 15h - “Chicago”, de Rob Marshall


• 17h15 - “Os sapatinhos vermelhos”, de Michael Powell


• 20h - “As golpistas”, de Lorene Scafaria

SÁBADO (7/3)

• 16h30 - “Showgirls”, de Paul Verhoeven. Sessão comentada por Nanda Rossi.


• 20h - “Mutantes”, de Virginie Despentes

DOMINGO 8/3

• 17h30 - “Maria Gladys”, de Norma Bengell, e “Seja bela e cale a boca!”, de Delphine Seyrig20h - “Temas e variações”, de Germaine Dulac e “Momento de decisão”, de Herbert Ross

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“AS FACES DA SHOWGIRL: DESEJO E RUÍNAS”
Até 31 de março no Cine Humberto Mauro (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro) com sessões de terça-feira a domingo. Entrada gratuita com retirada de ingresso pelo Sympla e bilheteira do local.

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