Escultura, crochê e bordado se amalgamam nas obras de Marlene Barros para propor reflexões contundentes sobre o corpo feminino e as violências de que ele é vítima, bem como a desvalorização histórica das mulheres no campo das artes. Esta é a proposta da exposição da artista maranhense que o CCBB-BH abriga a partir desta quarta-feira (4/3).
“Marlene Barros: tecitura do feminino” reúne 13 obras que transformam o gesto íntimo de costurar em narrativa pública de resistência, pertencimento e reinvenção. A artista destaca que as questões no cerne da exposição sempre permearam seu trabalho.
“Como mulher, seria impossível produzir arte que ficasse à parte, uma arte que não se importasse com essa causa. Nunca pensei em falar sobre outra coisa”, ressalta.
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Durante séculos, mãos femininas bordaram silêncios, costuraram ausências e coseram memórias em linhas quase invisíveis, diz Marlene.
“Restrito ao espaço doméstico e marcado pela desvalorização histórica, o trabalho feminino foi frequentemente relegado à condição de artesanato, visto como menor e privado. Por isso, neste projeto, agulha e linha se tornam instrumentos de denúncia e elaboração simbólica”, enfatiza.
'Saco de pancada'
Contundência é a palavra que melhor se aplica a “Saco de pancada”, obra de 2023, em que o tronco feminino faz as vezes do equipamento usado para treinamento de boxe. Leem-se, escritos à caneta, xingamentos geralmente dirigidos às mulheres.
Espaço doméstico, machismo e a desvalorização do feminino são abordados por Marlene Barros em trabalhos marcados pela contundência
Em “Grávidas” (2000), várias esculturas de gestantes amarradas pelos pulsos pendem da estrutura de onde descem as cordas.
“Meu desejo é provocar reflexão. Não tenho a intenção de escandalizar ou coisa do tipo, embora às vezes até pareça um pouco isso, porque uso muito a arma do próprio agressor para falar com ele. Quer dizer, tem trabalhos realmente incisivos”, explica Marlene.
Pérolas, o contraponto
Peças ornadas com pérolas cumprem a função de contraponto, evocando leveza e beleza. Duas delas – “Entre nós”, instalação imersiva com órgãos femininos feitos em crochê, e “Coso porque está roto”, três casacos que, na parte de dentro, reproduzem o interior do corpo humano – se relacionam com o trabalho de Marlene para o mestrado em arte contemporânea na cidade portuguesa de Aveiro.
O projeto, interrompido pela pandemia, consistia em remendar com costura, bordado e crochê as fissuras de uma casa em ruínas.
“Minha intenção não consistia apenas em abordar questões relacionadas à casa, mas utilizar essa prerrogativa para ir além e tocar em aspectos ligados ao universo feminino”, explica a autora.
“Tecitura do feminino” expõe obras realizadas por mais de duas décadas. A curadora Betânia Pinheiro conta que não fez um recorte cronológico, mas uma narrativa em que a linha é o elemento de união.
A partir da instalação que Marlene criou com calcinhas em São Luiz (MA), Betânia se interessou pela forma como ela “destrava” silêncios e veio acompanhando o processo adotado pela artista. “Resolvi partir das linhas. Como acessar o espectador com as linhas? O que elas estão dizendo? Este foi o recorte”, conclui.
Visita guiada e oficinas
No próximo sábado (7/3), das 15h às 17h, visita mediada à mostra será acompanhada por Marlene Barros e a curadora Betânia Pinheiro. No domingo (8/3), Dia Internacional da Mulher, a curadora ministra, às 16h, a palestra “Tecitura do feminino: processos”.
Na oficina “Arpilleras de si”, proposta pela artista, psicóloga e psicanalista Maria Vasconcelos, homens e mulheres poderão materializar memórias em retalhos. A atividade será realizada de 11 a 14 de março e de 15 a 17 de abril, sob orientação de Maria, e de 11 a 15 de maio, com Marlene, sempre das 14h às 17h. A instalação resultante do processo vai integrar a mostra.
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“TECITURA DO FEMININO”
Mostra de obras de Marlene Barros. De hoje (4/3) a 1º de junho, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Horário: de quarta a segunda, das 10h às 22h. Entrada franca, com ingressos disponíveis no site e na bilheteria do CCBB-BH
