CINEMA

Música da sequência mais eletrizante de ‘O agente secreto’ é belo ‘encaixe’

Diretor Kleber Mendonça Filho conta como foi feita a escolha de ‘A briga do cachorro com a onça’, da Banda de Pífanos de Caruaru, para a trilha do longa

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É difícil encontrar alguém que tenha assistido a “O agente secreto” e passado incólume pela longa (e frenética) sequência de perseguição pelas esquinas e becos do Centro do Recife, no terço final do filme. Um matador no encalço de outro, um rastro de sangue pelo caminho, e música popular explodindo na tela.

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Talvez, nunca saberemos, o impacto tivesse sido outro, não fosse “A briga do cachorro com a onça”, da Banda de Pífanos de Caruaru, a música escolhida para a cena. Escolha feita na ilha de edição, afirma ao Estado de Minas o diretor Kleber Mendonça Filho.


“Lembro do momento na montagem em que a gente a colocou na pista. Parecia que (a sequência) tinha ‘A briga do cachorro com a onça’ como intenção. E nunca foi, mas foi um dos maiores encaixes que eu já vi num filme com a utilização de som e de música”, comenta ele, que descobriu a faixa gravada em 1972 quando comprou o LP com a coletânea “Música popular do Nordeste”.

No início de 2024, Kleber foi à Passa Disco, uma das últimas lojas de discos do Recife. Saiu de lá com quatro LPs de música pernambucana. A loja fechou suas portas em setembro daquele ano, um mês após o encerramento das filmagens de “O agente secreto”. 

João Biano, à frente da Banda de Pífanos de Caruaru, ainda não assistiu ao filme. “Quando as músicas são registradas, é a editora que autoriza (a utilização da faixa). Ela autorizou, mas sem comunicar a gente. Fiquei um pouco chateado, mas a gente está ciente da situação. É superimportante, é gratificante.”

Zabumba

João, que completa 82 anos em 25 de abril, é da terceira geração de Bianos, a família que fundou a Banda de Pífanos de Caruaru. Assumiu a zabumba de seu avô, Manuel, em 1955, aos 11. Em atividade, sem interrupções, desde 1924, o grupo foi criado bem longe da cidade que lhe deu nome.

Pífano (ou pife) é uma flauta transversal popular produzida geralmente de bambu. Forma, com a percussão, a sonoridade de uma banda de pífano (ou banda cabaçal), tradição nordestina. 

Pois em 1924, quatro Bianos de Mata Grande, no sertão alagoano – Manuel (o avô de João), Benedito (o pai), Sebastião (o tio) e Martinho (sobrinho de Manuel) – se reuniram para formar a Zabumba Cabaçal. Lavrador e vaqueiro, Manuel teria vivido na própria pele o acontecimento que inspirou “A briga do cachorro com a onça”.

“Meu avô trabalhava numa fazenda em que estava sumindo muito bode. As onças estavam pegando. Pois ele e meu pai, Benedito, pegaram um carro de boi, fizeram uma jaula de madeira e colocaram uma divisão no meio para que a onça pudesse entrar. Do outro lado colocaram um bode e levaram para o meio do mato. Quando chegaram no outro dia, com um cachorro, a onça tava lá, e o bode berrando.”


Isto ocorreu no final dos anos 1920. Como “o homem tem de estar sempre no lugar onde chove”, em 1939 os Biano chegaram a Caruaru, no agreste de Pernambuco. O grupo teve alguns nomes até ser definitivamente batizado como Banda de Pífanos de Caruaru. Manuel comandou o grupo até sua morte, em 1955.

A “Bianada”, como diz João, está radicada há décadas em São Paulo. Mas a tradição é mantida. O grupo toca vários ritmos: baião, xote, xaxado, arrastapé, valsa, maxixe, frevo. “A briga do cachorro com a onça” é do ritmo baiano. “Não é baião, é baiano”, ensina ele. “Um ritmo criado pela gente mesmo, mais rápido, para que o zabumbeiro tenha possibilidade de levar. A levada é muito rápida, precisa ter agilidade nas mãos.” 

Muita banda toca a música, “mas é totalmente diferente”. Só Caruaru tem hoje 13 bandas de pífano: “de criança, de adolescente, de mulher, de barbado”. Há grupos na Itália, na França, na Alemanha. “Não quero ofender nenhum dos nossos amigos, respeito demais dar sequência a uma cultura nata de um instrumento que não tem partitura. É tudo de ouvido”. Mas...

“Modéstia à parte”, diz João, “eles (integrantes das outras bandas) tentam, mas não conseguem. A pegada do percussionista é complicada, a pancada é diferente”. Ainda hoje, os instrumentos utilizados pelo grupo são os confeccionados por Manuel. “Nossa zabumba é feita de pele de bode, que dá um som mais grave, sustenta a tonalidade”, comenta.


A formação atual mantém a “Bianada”. Da terceira geração estão João (zabumba) e os primos José (prato) e Amaro (surdo); da quarta, os filhos do zabumbeiro, Jadelson (caixa) e João Gonçalves (percussão). Nos pífanos, não tem parente, mas amigos: Junior Kaboclo assumiu, há muitos anos, o principal; no segundo, Ariane Rodrigues ou Tanaka do Pife.

A inclusão na trilha de “O agente secreto” foi a porta de entrada para muita gente para a música da Banda de Pífanos de Caruaru. Mas foi Gilberto Gil o padrinho, quando abriu o antológico “Expresso 2222” (1972) com “Pipoca moderna”, de Sebastião Biano.

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Também em 1972, o grupo gravou seu primeiro LP, lançado pela CBS (atual Sony). Já em 1975, Sebastião se tornou parceiro de Caetano Veloso na nova gravação de “Pipoca moderna”, com letra do baiano – está no álbum “Joia” (1975). Outros discos vieram, inclusive “No século XXI, no Pátio do Forró” (2003), que venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional.

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