130 ANOS DE GUIGNARD

Nancy Junqueira, de 94 anos, tem na sala seu retrato pintado por Guignard

Aluna do pintor na Escolinha do Parque, dona Nancy guarda cartas que recebeu dele e o quadro levado pessoalmente pelo mestre à casa dela, em Juiz de Fora

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Lúcida, cheia de vitalidade e com muitas histórias para lembrar e contar, Nancy Guedes Junqueira vai completar 95 anos em 24 de março, rodeada dos filhos Luiz Otávio, Carlos Roberto, Maria Ignez, Vera Lúcia, Max Luiz e Eliana, 11 netos e nove bisnetos. “Sou de 1931, nascida em São João del-Rei, onde morei até os 19 anos”, revela, com firmeza na voz. Em seguida, anuncia o nascimento da décima bisneta, Letícia, que chegará em março.

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Ao unir passado e futuro, dona Nancy pode revisitar décadas de sua vida, da qual é testemunha o quadro pendurado na parede da sala de casa, em Juiz de Fora, na Zona da Mata. Trata-se de um óleo sobre madeira compensada, medindo 49cm por 39,5cm. “Foi pintado por Guignard, em Belo Horizonte. Tenho muito carinho pela obra”, revela.

A última quarta-feira foi dia do aniversário de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), um dos pintores mais importantes do Brasil, que faria 130 anos.

Em 1952, a jovem Nancy Junqueira, recém-formada normalista, se encontrava em Belo Horizonte, na casa de uma amiga, quando foi convidada para um evento no qual Guignard estaria presente. Já profissional consagrado, o artista chegara a BH oito anos antes.

A convite do prefeito Juscelino Kubitschek (1902-1976), organizou e dirigiu o curso livre de desenho e pintura, início da escola de arte no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no Centro de BH, conhecida por Escolinha do Parque.

Nancy Guedes Junqueira, de 94 anos, sorri, sentada no sofá de sua casa, em Juiz de Fora
Aos 94 anos, Nancy Guedes Junqueira guarda com carinho a lembrança de Guignard. O mestre da pintura brasileira tinha 'alma leve, era muito cândido e simples', afirma a ex-aluna Vera Lúcia Guedes Araújo

Experiência e conhecimento, Guignard tinha de sobra. Depois de se formar na Alemanha e iniciar carreira artística na Europa, chegou ao Brasil em 1929 e passou a década seguinte com grande atuação no Rio de Janeiro, dando aulas na Escola Nacional de Belas Artes.

Após conversar com o professor e pintor sobre o interesse de se matricular na Escolinha do Parque, Nancy decidiu ficar quatro meses na capital mineira. “Expliquei que não poderia me ausentar por um ano de Juiz de Fora. Ele concordou e, me tratando por ‘Senhorinha’, aceitou minha matrícula”, recorda.

Educação dos olhinhos

Na época, a Escolinha era um “galpão” no meio do parque, com aulas ao ar livre e os alunos “diante da prancheta e da folha em branco, tendo na mão um lápis de ponta grossa azul”, conta dona Nancy.

Durante as aulas, o mestre revelava seu jeito especial de ensinar. “Costumava dizer que, na pintura, é fundamental ‘educar os olhinhos’ para enxergarmos com clareza, ao final do trabalho, os erros e os acertos.”

Guignard pinta, observado por alunas, no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, em Belo Horizonte, em 1956
Guignard pinta, observado por alunas, no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, em Belo Horizonte, em 1956 Eugenio Silva/O Cruzeiro/Arquivo EM/1956

Perto de completar o período combinado, a jovem estudante ouviu do mestre a vontade de retratá-la. Com bom humor, Nancy conta que todas as alunas queriam ser retratadas por ele. “Ah, professor, pinta meu retrato!”, “Pinta meu retrato!”, as colegas repetiam, enquanto Guignard respondia: “Uma de cada vez”.

Na opinião desta senhora perto de completar 95 anos, o mestre do Modernismo “tinha alma leve, era muito cândido e simples”.

Viúva há quatro anos de Max Luiz Monteiro Junqueira, falecido aos 96, dona Nancy volta, por alguns minutos, a 1952. “No dia em que voltei a Juiz de Fora, o quadro ainda estava molhado, era impossível trazê-lo.”

Mais tarde, em 29 de junho e 4 de novembro daquele ano, a jovem recebeu duas cartas do professor, que guarda até hoje. No período entre o envio das correspondências, Guignard foi a Juiz de Fora, em agosto, entregar o quadro. Viajou na companhia do pintor Sylvio Aragão (1901-1966), que havia participado icipou da 1ª Bienal de São Paulo.

Cartas para Senhorinha

Na primeira carta, o mestre lamenta “a partida da Senhorinha, na terça-feira passada”, e se desculpa por não ter ido à estação se despedir, acrescentando que a saída dela deixou “uma tristeza na escola”.

Na outra, Guignard recorda o passeio com as alunas a Sabará, na Região Metropolitana de BH. Ao comentar este trecho da carta, dona Nancy explica que a visita à cidade histórica foi “uma recreação”, não exatamente uma aula.

O quadro na parede ilustra a memória de um tempo bom. Dona Nancy não se dedicou à pintura de quadros, mas ao trabalho com porcelana, tornando-se professora durante 40 anos. Do alto de sua experiência, se alguém lhe pede um conselho, tem a resposta na ponta da língua: “Com Deus no coração e respeito ao próximo, vá viver sua vida”.

O “Retrato de Nancy Guedes Junqueira” despertou a atenção do especialista em história da arte e escritor André Colombo, residente em Juiz de Fora.

Ele explica que se trata de “obra autêntica e documentada de autoria de Guignard, conforme investigação da professora doutora em química Claudina Moresi, coordenadora e uma das autoras do livro ‘Pesquisa Guignard’, editado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com estudo multidisciplinar sobre 62 obras do pintor”.

No relatório técnico, Claudina Moresi destaca que “a maestria na execução da obra – perceptível em cada pincelada, seja ela naturalmente harmoniosa ou ajustada com equilíbrio – confere um significado marcante à construção de sua composição”.

Sylvio Aragão

A pesquisa de André Colombo trouxe à tona o pintor Sylvio Aragão, que foi à casa de dona Nancy com Guignard. Nascido em Rio Novo, na Zona da Mata, e desde cedo radicado em Juiz de Fora, Sylvio se mudou para o Rio de Janeiro, onde ficou amigo do professor da Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1941, Aragão retornou a Juiz de Fora e ajudou a criar a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras. Devido à forte amizade entre os dois, Guignard esteve algumas vezes em Juiz de Fora.

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“A admiração de Aragão por ele era tamanha que deu o nome de Guignard a um dos filhos. Isso em 1935, muito antes de o pintor modernista se tornar famoso”, diz o pesquisador André Colombo.

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