Especial para o EM
As nossas casas são feitas com artes? As nossas moradias contam com os traços dos artistas? Nós nos reinventamos a partir das nossas referências e possibilidades? As artes populares, as artes do povo, povoam as nossas ruas, criando as paisagens feitas de fachadas diversas?
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A pesquisa da artista, professora e pesquisadora Fernanda Goulart investigou a presença das arquiteturas decô em Belo Horizonte, a partir do interesse em recolher as artes gráficas no desenho das casas belo-horizontinas. Estas questões são abordadas na exposição de longa duração “Beagá decô e gráfica: do papel à cidade ao papel”, em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto.
Anna Marianni, fotógrafa, fez imagens de fachadas de casas no sertão nordestino, entre 1976 e 1995, interessada nas cores escolhidas pelos seus moradores e sua relação com as cores da paisagem sertaneja, registrando a dimensão imaterial da perspectiva criativa das pessoas.
No Pará, há um movimento que recebeu a nomeação de “Raio que o parta”, hoje organizados em rede, realizam um mapeamento da irreverência da população que, com cacos de azulejo coloridos, faziam formas geométricas nas fachadas das suas casas.
Na exposição de Augusto Fonseca, intitulada “Impalpável concreto”, exibida no ano passado no Centro Cultural da UFMG, Fonseca trouxe a referência do artista Joachim Torres Garcia, ao partir do desenho para a pintura na busca de entrelaçar na imagem as pessoas nas cidades.
As exposições de Fernanda e Augusto dialogam, pois ambos estão interessados nos restos, nas marcas, nas sobras, nas sombras, no traço, na marca visível e invisível na cidade, seja pelo excesso ou pelo exagero ampliado presente nas telas de Augusto, ou pelo detalhe, pelo risco identificado e destacado pelo olhar de Fernanda.
Anna Marianni, a Rede Raio que o parta, Augusto e Fernanda estão em diálogo com Torres Garcia e sua Escuela del Sur, desenvolvendo um trabalho de investigação que procura reconhecer a inteligência e o pensamento popular presentes a partir das cores, da memória gráfica, das geometrias e dos desenhos que permanecem em nossas cidades.
Vestígios
Na exposição de Fernanda Goulart é possível conhecer a história de Belo Horizonte a partir da cartografia dessas construções, passear pelo que ainda está por aqui e pelos vestígios daquilo que já foi demolido, tendo outro estabelecimento no lugar, vendo o antes e o depois.
Fernanda fez entrevistas, conheceu as pessoas, as fotografou, lembrou dos seus nomes, de suas histórias e as apresenta na exposição, as palavras compõem a sua pesquisa visual, daquilo que nomeia de memória gráfica a partir de um olhar para o que se convencionou na história da arte e da arquitetura de chamar de art déco.
Ouvir as pessoas, registrar seus relatos, interessada em ouvir sobre os modos de invenção da vida no cotidiano, demonstra uma pesquisa voltada aos aspectos plurais da cidade e dos jeitos de morar, trabalhar e criar no espaço urbano. É também ato de reconhecimento, de agradecimento, sabendo-se também plural, Fernanda compreende que seu trabalho artístico só existe enquanto parte desta rede de cocriação cultural vivenciada em Belo Horizonte.
Seu trabalho de elaboração artística, que existe no sopro de um vento forte, brincando com o acaso, que se faz entre jogos de matemática, jogos de poder e de brincar, também é lúdico, feito de montagens lógicas e/ou aleatórias, de peças de um quebra-cabeça que nasceu de um grande percurso de inventário, fichando, identificando, relacionando, mapeando, marcando, nomeando os pedaços decô presentes na cidade. Dos jogos de montar, ela faz estruturas gráficas de Belo Horizonte.
Fernanda lê a art déco/art decô naquilo que desvia de seu fundo totalitário, fascista e opressor. Fernanda analisa um fazer autônomo e libertário das pessoas que se apropriaram dos elementos gráficos para reinventar seus próprios modos de morar.
É desse ponto de partida que seu jogo de pesquisa artística principia, como uma brincante de reisado, de ciranda, de quadrilha, de catira, de samba de umbigada, remontando maneiras de morar fora de qualquer domínio cultural.
A exposição nos convida a conhecer, identificar e reimaginar uma paisagem criada pelas mãos das pessoas que habitam a cidade. Inspirada na força das festas, faço referência ao gesto da artista. O ser brincante, presente nas obras de Augusto e Fernanda, é firmeza transformadora, como também o é no desabusado mundo da cultura popular, para lembrar aqui de Dodora Guimarães e Oswald Barroso.
“BEAGÁ DECÔ E GRÁFICA: DO PAPEL A CIDADE AO PAPEL”
Exposição em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto (Avenida Prudente de Morais, 202, Cidade Jardim). Visitação de quarta-feira a domingo, das 10h às 18h. Até 28/6. Entrada franca.
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*Doutora em História da Arte pela Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, professora de Teoria, Crítica e História da Arte na Escola de Belas Artes da UFMG.
