Na noite de 2 de março de 1996, os Mamonas Assassinas subiram ao palco pela última vez. A apresentação em Brasília reuniu mais de 4 mil pessoas no estádio Mané Garrincha. Ao retornarem para casa, em Guarulhos (SP), veio a tragédia que calou Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli. A morte deles ainda ecoa na memória de uma geração que cresceu cantando refrões irreverentes e assistindo a performances escrachadas na TV.

O grupo voltava para casa para começar uma série de shows em Portugal, após oito meses ininterruptos de estrada no Brasil. A turnê de lançamento do primeiro e único disco da banda — homônimo, lançado em junho de 1995 — havia percorrido o país e se encerrava naquela noite. Depois, eles começariam a trabalhar no próximo álbum.

Na sexta-feira, 1º de março, o quinteto se apresentou em Caxias do Sul (RS). À noite, seguiu para Piracicaba (SP). Na manhã do sábado, 2 de março, fez uma rápida parada em casa, em Guarulhos, antes de embarcar para Brasília. O pouso na capital ocorreu às 18h20. Quarenta minutos depois, os músicos chegavam ao Mané Garrincha.

“Esse é o nosso último show!”, gritaram juntos, de mãos dadas, minutos antes de subir ao palco, às 19h50, segundo registrou uma reportagem da época. Vestido com uma fantasia de coelhinho de pelúcia, o vocalista Dinho, como ficou nacionalmente famoso Alexandre Alves, comandou o espetáculo com a energia habitual. Ao fim, desceu ao gramado para agradecer ao público. Depois da apresentação, todos seguiram direto para o aeroporto.

O voo que não chegou ao destino

O grupo embarcou no Learjet 25D, prefixo PT-LSD, fretado pela banda. A aeronave decolou de Brasília às 21h58 rumo ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. A bordo estavam os cinco integrantes — Dinho (voz), Bento Hinoto (guitarra), Samuel Reoli (baixo), Júlio Rasec (teclados) e Sérgio Reoli (bateria) —, além do piloto Jorge Luiz Germano Martins, do copiloto Alberto Takeda, do roadie Isaac Souto e do segurança Sérgio Porto.

Às 23h15, durante a aproximação para pouso no Aeroporto de Guarulhos, o jato se chocou contra a Serra da Cantareira, na zona norte de São Paulo, após uma tentativa de arremetida. Não houve sobreviventes.

 

Segundo investigações conduzidas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o avião iniciou a descida com velocidade acima da recomendada e apresentava leve deslocamento à esquerda do alinhamento da pista. Ao perceber que não conseguiria estabilizar a aproximação, o piloto optou pela arremetida, manobra considerada padrão.

O erro crucial ocorreu na retomada. Em vez de curvar à direita — procedimento específico exigido em Guarulhos devido ao relevo —, a aeronave virou à esquerda, colidindo com a montanha em meio à neblina. A investigação apontou imperícia, fadiga da tripulação, falhas na comunicação com a torre de controle e possível exaustão do piloto, que já acumulava cerca de 14 horas de trabalho.

Um piloto da Varig que sobrevoava a região alertou a torre ao avistar uma nuvem escura de fumaça. Equipes do Corpo de Bombeiros chegaram às 23h38, mas os destroços só foram localizados ao amanhecer. “Era quase impossível reconhecer. Não sobrou nada, nem dos Mamonas, nem do avião”, relatou, à época, Waldomiro Ramos, tio de Dinho, ao jornal O Globo.

O Brasil em luto

Na época, a maior parte dos brasileiros só soube do acidente na manhã de domingo, 3 de março, ao ligar a televisão. As imagens dos destroços e do trabalho de resgate dominaram a programação. Programas como o “Domingão do Faustão” e o “Domingo Legal”, do Gugu, exibiram homenagens ao grupo.

A comoção era geral. Crianças e adultos choravam a perda da banda que, em apenas oito meses de sucesso, havia vendido cerca de 1,8 milhão de cópias do único álbum (ao longo dos anos, o número ultrapassou os 3 milhões).

Na madrugada de segunda-feira, os corpos chegaram ao Ginásio Municipal Paschoal Thomeu, em Guarulhos. Os sete caixões dos músicos e da equipe da banda foram colocados lado a lado na quadra esportiva.

Cerca de 100 mil pessoas passaram pelo velório ao longo de 12 horas. Crianças e jovens formaram um carrossel humano ininterrupto diante dos caixões. Cantavam sucessos como “Pelados em Santos” e “Sabão Crá-Crá” em meio às lágrimas. Mensagens escritas em panos e camisetas eram estendidas sobre os caixões: “Você é dez”, “O céu estava precisando de alegria”, “Ainda te vejo”.

À tarde, a multidão também acompanhou o cortejo até o Cemitério Parque das Primaveras I. A pedido das famílias, a entrada foi restrita a parentes e amigos próximos. Houve tumulto e registro de desmaios sob calor intenso. Alguns familiares não conseguiram entrar.

No cemitério, cerca de 500 pessoas participaram da cerimônia, que durou pouco mais de 40 minutos. Os cinco integrantes foram sepultados no mesmo túmulo. Houve um “Parabéns a você” antecipado para Dinho, que completaria 25 anos em 4 de março.

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