A turma de aspirantes a atores que ingressou no curso técnico em teatro do Cefart em 2020, no turno da manhã, chegou ao fim, em 2023, com apenas quatro formandos, por causa da pandemia e de desistências. Ainda assim, Glauco Gomes, Márcio Murari, Maria Carolina Vieira e Sangô cumpriram a praxe, criando e apresentando o espetáculo de formatura, batizado “Nuvem”. Durante o processo, se constituíram como Grupo Rapa de Tacho.

Em 2024, Márcio Murari deixou a trupe, sendo substituído por Lucas Matias, que atuava como produtor técnico do Palácio das Artes e já mantinha uma relação de proximidade com os outros integrantes. Desde aquela montagem de formatura, eles nutriam o desejo de reapresentar “Nuvem”, mas esbarravam na falta de recursos que a estrutura da peça demandava. A solução veio, no ano passado, na forma de uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo.


Graças a ela, o Grupo Rapa de Tacho finalmente reestreia o espetáculo neste sábado (28/2), às 19h, no Galpão 1 da Funarte-MG, e o reapresenta no domingo (1º/3) e no final de semana seguinte, em 7 e 8/3, no mesmo local e horário.

Maria Carolina conta que depois de tentar, sem sucesso, aprovar o projeto de uma nova temporada de “Nuvem” nas leis de incentivo e editais, a campanha de financiamento pareceu uma saída óbvia, pela boa recepção que a montagem teve em 2023.

TEMAS EMERGENTES

“O público gostou muito, tivemos um ótimo retorno, com as sessões da temporada de formatura lotadas. Pensamos que o melhor a fazer para trazer o espetáculo de volta à cena era contar com a boa aceitação que ele teve junto ao público. Quando anunciamos a campanha, o retorno foi imediato”, diz.

Com direção de Rogério Araújo e dramaturgia de Raysner de Paula, “Nuvem” aborda temas emergentes, como a expansão da Inteligência Artificial e a crescente precarização do trabalho no sistema capitalista.

O enredo apresenta quatro personagens que trabalham em uma empresa de treinamento de IA. A rotina dessas figuras se alterna entre o cumprimento de suas tarefas e momentos de convívio no ambiente laboral, em uma dinâmica que se mistura às interações com a IA. À primeira vista, essa empresa se apresenta com ares contemporâneos, como um lugar preocupado com o bem-estar de seus funcionários, o que apenas mascara os abusos e a precarização a que eles estão expostos.

A trama de “Nuvem” é apresentada como um delírio nonsense a respeito dessas questões. “É um espetáculo que propõe uma ambiência do absurdo, mas que encosta muito na realidade”, diz Maria Carolina, acrescentando que o texto foi criado durante o processo de montagem, a partir de ideias dos próprios atores.

“Tratamos de questões latentes para nós, então acabamos servindo de inspiração para os personagens. Raysner é um dramaturgo precioso e foi muito sagaz na escrita desse texto”, ressalta.

PERSPECTIVA DISTÓPICA

Ela observa que essa nova montagem de “Nuvem” traz algumas adaptações em relação à original, mas o texto permanece essencialmente o mesmo – não demandou atualizações em função, por exemplo, do avanço tecnológico acelerado. “A peça foi criada numa perspectiva distópica, então ela imagina um futuro em relação à IA, que, no enredo, é capaz de acompanhar os batimentos cardíacos dos personagens e sabe da vida pessoal deles, ou seja, tem poder e controle sobre esses funcionários que a alimentam”, diz.

Maria Carolina destaca que os quatro personagens representam situações típicas do trabalhador brasileiro: um é imigrante latino-americano, outra é muito aplicada e tem verdadeira devoção à empresa, o terceiro é um ator que precisa de outras fontes de renda para se manter e a quarta é mais desligada, está às voltas com uma gravidez indesejada e precisa do trabalho porque está endividada no cartão de crédito. “Raysner se inspirou em nós, mas foi adicionando camadas a esses personagens”, pontua.

CONSOLIDAÇÃO

Entre a temporada de formatura do Cefart e a reestreia de “Nuvem”, o Grupo Rapa de Tacho emplacou um segundo espetáculo, “O que fica de nós mesmos”, dirigido por Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, e Leonardo Rocha, do Grupo Maria Cutia. A atriz Maria Carolina Vieira diz que ele é tecnicamente mais simples e esteve presente nos palcos ao longo dos últimos dois anos. A ideia, agora, é circular com os dois espetáculos por Belo Horizonte e cidades do interior de Minas, como forma de consolidar o nome da companhia. “Com relação a novas montagens, temos algumas ideias, mas queremos, primeiro, dar continuidade ao que já está pronto. Queremos manter esses dois espetáculos vivos, o que tem a ver com o entendimento do que constitui a base de um grupo de teatro, que é a cumplicidade e o esforço coletivo”, diz.

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“NUVEM”
Espetáculo do Grupo Rapa de Tacho, com apresentações neste sábado (28/2), domingo (1º/3) e no próximo fim de semana, dias 7 e 8 de março, às 19h, no Galpão 1 da Funarte-MG (Rua Januária, 68, Centro). Ingresso: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na plataforma Sympla.

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