Quando chega o carnaval, Fabinho do Terreiro admite: “endoida”. A ansiedade vira combustível, fazendo com que ele precise até de remédio. “É porque eu gosto mesmo da folia, do carnaval”, afirma. Considerado por muitos o maior puxador de samba da história recente do carnaval de Belo Horizonte, Fabinho é daqueles artistas que cantam antes mesmo de subir ao palco, fazendo da rua extensão da própria casa.
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Entre memórias da infância no Boa Vista, a influência do terreiro da tia Dalva – daí a origem do nome artístico – e a defesa ferrenha da produção local, o sambista fez um breve panorama da cena musical de Belo Horizonte e do carnaval da capital mineira em entrevista ao programa “EM Minas”, exibido no sábado (14/2), pela TV Alterosa. A íntegra da entrevista está disponível no canal de YouTube do Portal UAI.
Por que todo bloco quer que o Fabinho do terreiro vá participar?
Eu acho que é porque gosto mesmo da folia, do carnaval. Chega o carnaval, fico louco. A mulher já compra alguma coisa na farmácia para eu tomar, por causa da ansiedade. Tenho até uma música que fala: “Nem todo criolo é doido / Preste atenção, pessoal / O criolo só endoida quando chega o carnaval”.
Zeca Pagodinho, Agepê, Originais do Samba e outros tantos te pedem música. Você tem noção do tamanho do que virou o Fabinho do Terreiro?
Não tenho essa noção, porque procuro ter o pé no chão. Mas a gente fica feliz das coisas acontecerem. As pessoas viviam falando: “Você tem que ir pro Rio ou para São Paulo”. Eu ficava chateado, porque amo Belo Horizonte e minha missão é fazer Belo Horizonte acontecer. E estamos vendo essa realidade chegando.
Você é o nosso Jamelão, é o maior puxador de samba da história do carnaval de Belo Horizonte. Você segue puxando samba na avenida até hoje?
Sim e ainda tive o prazer de gravar com o Nego, irmão do Neguinho da Beija-Flor, o samba-enredo deste ano da Cidade Jardim. O Nego é o intérprete carioca mais premiado do Rio de Janeiro.
Você toca um samba na segunda-feira, chamado Barca Furada. O samba começa meio-dia e fica lotado. E o que eu acho mais interessante é que você começa a cantar na rua até chegar no palco, não é?
O cara traz o microfone para mim na avenida para já chegar cantando, porque se eu chegasse e fosse cumprimentar todo mundo, não chegaria ao palco (risos). Então, toda segunda-feira tem esse samba na Av. Heráclito Mourão de Miranda, 2.230, no Castelo. A gente leva todos os grupos de Belo Horizonte. E, na última segunda-feira do mês, tem o Samba Delas, que é o samba das mulheres.
O menino Fábio Lúcio Maciel é de onde?
O menino é da Zona Leste, do Boa Vista.
É verdade que você trabalhou de office boy no Hospital das Clínicas?
Trabalhei de office boy na Faculdade de Medicina. Eu fazia meu trabalho o mais rápido possível, porque de tarde eu sabia que tinha show no anfiteatro da faculdade. Naquela época, teve show do Ednardo, Fagner, Zé Ramalho. Aí eu ficava escondidinho lá atrás da cortina, só ouvindo.
Você já era músico?
Eu tinha 18 anos. Nessa época, fazia música de brincadeira, não acreditava ainda que podia profissionalizar.
Muita gente fala: “Fabinho do Terreiro por causa de religião afro”. O terreiro aí é de quê?
Muita gente quer até marcar consulta comigo (risos). Mas a verdade é que “terreiro” é da tia Dalva, no Boa Vista, que acolhia a gente e deixava a gente tocar. Fomos aprimorando e juntando uma galera lá no terreiro da tia Dalva.
Você tem essa fama de paizão, sempre trazendo novos músicos talentosos. Você gosta de empurrar a meninada, não é?
Isso vem comigo de maneira muito natural. Lá em casa, eu dava oficina de cavaquinho. Muita gente veio de Betim para aprender a tocar comigo, outros vieram do São Lucas, da Pedreira Prado Lopes. Muita gente da periferia. Consegui fazer muita gente da periferia ir para a música. O cara não precisa estourar e ganhar muito dinheiro, mas, se ele sai do mau caminho, eu já considero uma vitória.
Você vai cantar em muitos lugares onde muita gente diz que é perigoso.
Vou em tudo quanto é lugar. Muita gente tem preconceito (com as comunidades), mas todo mundo busca tudo lá, né? Os melhores artistas estão lá, as melhores cozinheiras, a melhor mão de obra…
Neste ano são 600 blocos registrados em BH. Como você recebe isso?
Tudo começou como uma brincadeira na Praia da Estação, um protesto contra o decreto que não permitia que as pessoas levassem o cooler para os blocos. E aquilo virou uma revolução. Veio o Então, Brilha!, na Guaicurus, um lugar discriminado; e outros megablocos, que não deixaram o carnaval de BH morrer.
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Recentemente a gente perdeu o Lô Borges, um cara que era vizinho nosso e que integrou um movimento mundial, que foi o Clube da Esquina. E o Lô era um cara tarado com o samba…
E o samba mineiro herdou muita coisa do Clube da Esquina. Tem o DNA do Clube da Esquina. Eu, o Toninho Geraes e o Serginho Beagá concordamos que o samba de Minas tem muito da poesia dos Borges e as harmonias do Milton (Nascimento). Então, quando essa música chega ao Rio, Salvador e São Paulo, as pessoas ficam loucas. n
