Em novembro do ano passado, João Gomes conquistou o primeiro Grammy Latino da carreira, aos 23 anos, com o projeto “Dominguinho”, desenvolvido em parceria com os amigos Jota.Pê e Mestrinho. Apesar da vitória, o cantor não saiu totalmente satisfeito da cerimônia, realizada em Las Vegas.

Em entrevista ao programa “Roda Viva” (TV Cultura), ele contou que ficaria mais feliz se o prêmio tivesse vindo na categoria Forró, ainda inexistente na premiação, e não em Música de Raízes Brasileiras, como aconteceu.

Natural de Serrita, no sertão de Pernambuco, João Gomes é filho da agricultora Kátia e do barbeiro Fábio, de quem sempre fala com orgulho. Em 2025, tornou-se o nome mais comentado da música brasileira. A unanimidade com que público e crítica o acolhem é rara e chama a atenção.

Com perfil de bom moço, casado com a influenciadora Ary Mirelle e pai de dois filhos, João Gomes passou por mudanças importantes fora dos palcos. Eleito Homem do Ano pela revista “GQ”, o cantor viveu, no último ano, um processo que define como “reeducação emocional”.

O artista retomou a terapia e iniciou o uso de medicação psiquiátrica. Após um alerta médico sobre o início de gordura no fígado, adotou novos hábitos e se afastou do consumo de álcool, numa tentativa, segundo diz, de “colocar a cabeça no lugar”.


Fenômeno de público e crítica

A aceitação em massa surpreende. Anitta, outra artista brasileira de grande alcance, por exemplo, costuma reunir, na mesma medida, admiradores e detratores. João Gomes, por outro lado, é visto quase como um consenso. Para críticos de música, trata-se de uma questão complexa de avaliar. O cantor agrada tanto os setores populares quanto a chamada “elite intelectual”, que historicamente tende a desprezar produções culturais fora do cânone.

O historiador e professor da UFPE Gustavo Alonso acredita que parte dessa recepção passa pelo interesse do próprio artista e, consequentemente, de sua equipe, em dialogar com esses públicos. “Ele é ativo na busca por códigos de uma determinada elite cultural, de um público mais intelectualizado”, afirma. O cantor já divulgou, por exemplo, planos de lançar um livro de poemas ainda neste ano.

“João Gomes tinha tudo para ser como qualquer outro artista do piseiro, usar boné e cordão de ouro. Isso incomoda muito a MPB e um público mais intelectualizado. Ele não faz esse personagem. Pelo contrário. Acho que isso ajuda a compreender o interesse dessas elites e afins, por ele”, diz Alonso.


Artista com "escaninho próprio”

Já Lúcio Ribeiro, crítico de música, vê em João Gomes uma autenticidade rara no mercado. “Ele é desses artistas que têm uma luz própria, que penetram em vários espectros da música brasileira. É quase como se ele fosse um gênero. Essa autenticidade quase não cria antipatia, muito pelo contrário. Ele em si parece um gênero, tem que ter um escaninho próprio. O João Gomes perpassa qualquer tipo de gênero.”

Com cinco álbuns lançados e dezenas de singles, o artista transita com naturalidade entre festas de rodeio e festivais alternativos. A ambição, como afirmou na entrevista ao “Roda Viva”, é valorizar o forró e mostrar que poucos estilos no Brasil têm tanto significado quanto o gênero.

Técnico em agropecuária, João se mudou para Recife em busca de um ritmo de vida menos pacato. Nesse contexto, surgiu o projeto “Dominguinho”, que o ajudou a alcançar novos públicos. O EP, gravado de forma despretensiosa entre amigos, acabou virando hit e marcou um retorno a sonoridades mais tradicionais, com destaque para a sanfona, em contraste com o piseiro, mais eletrônico.

No último ano, João Gomes também ampliou sua presença em diferentes camadas da música brasileira, ao dividir o palco com nomes que vão de Gilberto Gil a Pabllo Vittar. A participação ao lado de Roberto Carlos no especial de fim de ano da Globo gerou certo burburinho, por suposta frieza do Rei. Ainda assim, o cantor se mantém distante de polêmicas maiores – outro fator que contribui para a ampla aceitação.


Papel de mediador

“O Brasil viveu durante muito tempo, sobretudo antes do advento das redes sociais, um racha muito grande entre artistas da MPB e outros gêneros. Talvez porque tivemos poucos mediadores desse processo. Pessoas que façam a leitura do popular e dialoguem, e vice-versa. Acho que o João passou a ocupar um pouco esse lugar, ele acaba sendo um mediador. É um papel muito interessante e muito delicado, porque demanda um certo vai e vem. Você não pode perder nenhum dos dois lados, se quer ocupar exatamente esse lugar”, avalia Gustavo Alonso.

Para 2026, anunciou turnê de “Dominguinho” que percorrerá França, Alemanha e Espanha. O projeto chega pela primeira vez a Belo Horizonte, no próximo sábado (7/2), com todos os 15 mil ingressos vendidos. Prever o futuro é difícil, e a continuidade da carreira de um artista depende de muitos fatores. Alonso evita arriscar na futurologia. “É um caminho bem complicado de ser pavimentado. Mas o que é interessante é que ele já construiu isso, já construiu, de certa forma, essa possibilidade”, afirma.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Já Lúcio Ribeiro pondera que o fenômeno é difícil de ser repetido e se arrisca a dizer que a fama deve continuar. “Acho difícil surgir outro João Gomes, algo tão marcante com a idade que ele tem. Não existe representante do forró com o alcance que ele conquistou. Ele tem 23 anos e penetra exatamente numa modernização de clássicos brasileiros”, avalia. 

compartilhe