Reality de modelos tem bastidores expostos em documentário
Produção revisita o formato criado por Tyra Banks, que chegou a 100 milhões de espectadores e hoje é questionado por denúncias de humilhação e exploração
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Lançado originalmente em 2003, o reality show norte-americano que prometia transformar mulheres comuns em supermodelos voltou aos holofotes com a estreia de um documentário na Netflix. Dividida em três episódios de cerca de uma hora cada, "Americas next top model: choque de realidade" revisita os bastidores do programa idealizado e comandado por Tyra Banks e traz à tona discussões sobre os limites do entretenimento na televisão.
Fenômeno de audiência na TV e, anos depois, no streaming – especialmente durante a pandemia, quando voltou a ser maratonado por milhares de pessoas – o programa passou a ser revisto sob outra ótica. O que antes era tratado como diversão começou a ser apontado como abuso. Cenas de assédio moral e até físico, relatos de distúrbios alimentares, crises de choro e desmaios em sessões de fotos e acusações de racismo estão entre os episódios relembrados.
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Criado com o discurso de romper padrões da indústria da moda, o reality se propunha a abrir espaço para mulheres fora das medidas consideradas ideais. Tyra Banks, a criadora dizia que queria mudar o mundo da beleza. Uma das primeiras supermodelos negras de grande projeção internacional, primeira Angel negra da Victoria’s Secret e pioneira ao estampar capas de revistas, ela afirmava que queria desafiar o sistema que ela própria enfrentou no início da carreira.
No documentário, ela relembra como características afro eram frequentemente desvalorizadas no mercado. Mesmo quando modelos negras vendiam mais, recebiam menos e tinham menos oportunidades. “Eu queria mostrar que a beleza não é uma coisa só e lutar contra a indústria da moda”, diz sobre a criação do programa em entrevista exibida no documentário.
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O formato era simples. Dez garotas viviam juntas em um apartamento e, durante oito semanas de provas, aprendiam a cada episódio uma habilidade ligada à modelagem, passarela, fotografia e postura diante das câmeras. Antes de os desafios começarem, passavam por uma transformação radical de visual, nem sempre consentida. A cada semana, uma participante era eliminada, até que restasse apenas a vencedora.
O prêmio prometia um pacote para entrar na indústria com capa de revista e contrato com uma agência. Na prática, porém, a realidade era outra. Muitas relataram que as agências as deixavam de lado por preconceito por terem participado de um reality show. A produção também não oferecia suporte depois do fim das gravações.
RESISTÊNCIA
Antes de virar fenômeno, o projeto enfrentou resistência. Emissoras recusaram a ideia por acreditarem que modelos não cativavam o público e não tinham apelo para a televisão. O formato só foi aceito pela UPN, um canal que atravessava dificuldades financeiras e precisava de um grande sucesso para não falir. A aposta funcionou. No auge, o reality alcançou audiência estimada em 100 milhões de pessoas e era exibido em cerca de 180 países.
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Com o tempo, porém, o desgaste começou a aparecer. Para manter os índices de audiência, as provas foram ficando cada vez mais exageradas. Em uma época em que realities de resistência faziam sucesso, as participantes passaram a ser expostas a situações degradantes. Posavam com carcaças de animais mortos, transformavam medos pessoais em ensaios fotográficos e enfrentavam desafios físicos. Muitas relatam jornadas exaustivas de trabalho e alimentação restrita, com medo de engordar e sair do padrão exigido.
O documentário mostra que várias ex-participantes carregam traumas até hoje. Distúrbios alimentares, ansiedade e impactos na autoestima aparecem nos depoimentos. Enquanto isso, Tyra surge como a primeira entrevistada e conduz grande parte da narrativa. Diz que evitou falar sobre o assunto por anos, mas que agora seria o momento. Ao longo dos episódios, tenta contextualizar decisões e suavizar acontecimentos, buscando uma espécie de redenção e se afastando da responsabilidade pela falta de ética nos bastidores em nome da audiência.
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A 12ª temporada do programa teve gravações em São Paulo, mas essa passagem pelo Brasil não é explorada no documentário. A única referência ao país é quando esteticistas aparecem na casa das participantes para fazer depilação íntima com cera – o que nos Estados Unidos ficou conhecido como “depilação brasileira”.
O sucesso internacional também gerou versões locais, como o “Brazil’s Next Top Model”, exibido pelo canal Sony entre 2007 e 2009. O júri principal reunia a jornalista Erika Palomino, o estilista Dudu Bertholini e o maquiador Duda Molinos. A apresentação ficou com Fernanda Motta, depois que Gisele Bündchen recusou o convite.
Uma das concorrentes chegou a denunciar as condições da casa onde as participantes ficavam confinadas, afirmando que não havia água quente. A frustração também marcou as vencedoras. Mariana Velho, campeã da versão brasileira, recusou contrato com a agência Ford ao considerar abusivas as cláusulas impostas. Segundo ela, o acordo previa multas altas caso ganhasse peso ou recusasse testes. Decepcionada, abandonou a carreira de modelo e passou a cursar Direito.
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Com entrevistas de ex-jurados, produtores e participantes, o documentário revisita o reality que se vendia como vitrine de oportunidades sob a perspectiva de quem viveu a experiência e ainda lida com suas consequências. Tyra Banks, porém, evita assumir responsabilidade direta. Ao longo dos episódios, tenta contextualizar decisões, suavizar episódios polêmicos e construir uma narrativa de redenção, afastando de si a culpa pela falta de ética nos bastidores em nome da audiência.
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“AMERICA'S NEXT TOP MODEL: CHOQUE DE REALIDADE”
- Documentário com três episódios já disponíveis na Netflix.