RECONHECIMENTO

Cinema brasileiro brilha na Alemanha e leva quatro troféus na 76ª Berlinale

Vitórias brasileiras foram lideradas por filmes rodados no Ceará, em meio a uma cerimônia marcada por discursos sobre Gaza

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O Brasil conquistou quatro prêmios na 76ª edição do Festival de Berlim, realizada neste sábado (21/2), na Alemanha. Ao todo, dez produções nacionais participaram da programação deste ano do festival.

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“Feito pipa”, de Allan Deberton, com Lázaro Ramos no elenco, foi o principal destaque. O longa acompanha Gugu (Yuri Gomes), menino de quase 12 anos que sonha em se tornar jogador de futebol, e levou dois prêmios, o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional.

Rodado em Quixadá, no sertão do Ceará, o filme teve estreia mundial no festival e foi aplaudido de pé nas quatro sessões. O júri afirmou que a obra “cativa com sua narrativa vibrante e com um protagonista multifacetado, confiante e feroz”, além de abordar questões existenciais de forma “bem-humorada” e “comovente”.

Também foram destacadas as atuações de Yuri Gomes e Teca Pereira, que interpreta a avó do garoto. Lázaro Ramos, que vive o pai do protagonista, comemorou a conquista sem modéstia. “‘Feito pipa’ merece esses dois prêmios. Falo como ator, mas também como espectador que se emocionou e viu o público igualmente emocionado em Berlim”, escreveu em comunicado enviado para a imprensa.

Júri popular

Também filmado no Ceará, o longa de estreia de Janaína Marques, “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, venceu o prêmio do júri popular do jornal Tagesspiegel, na seção Forum. O júri é formado por leitores selecionados que atuam como comissão independente durante o festival.

“É muito emocionante ver um filme tão íntimo se conectar com o público em um festival tão especial. O Forum acolhe obras autorais e arriscadas, e esse reconhecimento tem um significado muito especial para mim”, afirmou a diretora.

Prêmio Fipresci

Já “Narciso”, do paraguaio Marcelo Martinessi, sobre um artista que deseja se tornar ícone do rock, produzido pela brasileira Júlia Murat, recebeu o Prêmio Fipresci na mostra Panorama.

Na competição oficial, Karim Aïnouz concorreu com “Rosebush pruning”, mas não levou prêmio. Também participaram das mostras paralelas os mineiros “Nosso segredo”, de Grace Passô, e “Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais Oliveira.

Polêmica

A 76ª edição do Festival de Berlim foi marcada por tensão após uma declaração do presidente do júri, o diretor Wim Wenders, defendendo a separação entre cinema e política. A fala provocou a reação de mais de 100 nomes da indústria, que assinaram uma carta criticando o silêncio do festival sobre Gaza, além de muita repreensão na internet.

Wenders evitou voltar ao tema ao longo dos dias da Berlinale e só se pronunciou novamente na cerimônia de premiação. Antes de anunciar os principais vencedores, afirmou à plateia: “Vocês certamente estão aqui esperando as decisões do júri, mas antes precisamos conversar”.

Em seguida, ele afirmou que “a linguagem do cinema é empática”, enquanto “a linguagem do ativismo social é eficaz”, mas ponderou que a dignidade e a proteção da vida humana também são causas do cinema. Dirigindo-se aos que cobraram uma postura mais contundente, reconheceu que fazem um trabalho “necessário e corajoso”, mas questionou: “Precisa estar em competição com o nosso? Nossas vozes precisam colidir?”.

Wenders concluiu defendendo que, mesmo com linguagens diferentes, cinema e ativismo “precisam um do outro”. Segundo ele, se forem tratados como “aliados, diferentes, mas complementares”, as causas compartilhadas têm mais chances de resistir.

O clima já havia esquentado momentos antes, quando a equipe do documentário “Chronicles from a siege”, vencedor do prêmio de melhor documentário, subiu ao palco com a bandeira palestina e criticou o governo alemão por sua “cumplicidade” no que chamou de genocídio em Gaza. O discurso foi seguido por gritos de apoio da plateia.

A diretora do festival, Tricia Tuttle, interrompeu dizendo que o momento era de celebrar os cineastas em competição, e não de abrir diálogo. Quando recebeu Wenders e os demais jurados no palco, Tuttle brincou que, antes da abertura, o diretor de "Paris, Texas" havia dito que estava ansioso para assistir a filmes em Berlim como se estivesse de férias. “Acho que não foi exatamente o descanso que você imaginou”, comentou.

O Urso de Ouro ficou com o drama político “Yellow letters”, de lker Çatak. Antes de anunciar o vencedor, Wenders afirmou que o filme “fala de maneira clara sobre a linguagem política do totalitarismo em contraste com a linguagem empática do cinema”, classificando-o como “uma visão aterrorizante do futuro”.

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“Rose” confirmou o favoritismo e garantiu a Sandra Hüller o Urso de Prata de Melhor Atuação. A atriz ficou conhecida internacionalmente pelo vencedor do Oscar "Anatomia de uma queda". O turco Emin Alper, vencedor do Urso de Prata, por "Salvation", e dedicou o prêmio à filha de dois anos que adora o animal.

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