Saem no Brasil os livros que inspiraram a série de espionagem ‘Slow horses’
Dois primeiros volumes da história criada por Mick Herron em torno do personagem Jackson Lamb, um espião britânico rebaixado, ganham edição no país
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Espiões são sofisticados, brilhantes e mulherengos, como James Bond. Podem ser também melancólicos, solitários e intelectualizados, como os anti-heróis criados por John Le Carré. Um espião que se preze não pode sofrer de flatulência constante, ter higiene pessoal zero e ser tão dominado pelo álcool e o tabaco que mal consegue correr um quarteirão.
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Jackson Lamb, um veterano da Guerra Fria, é tudo isso e mais: grosseiro com todos – subalternos, superiores, não importa. Seu sarcasmo é de uma crueldade devastadora. Por outro lado, é ferozmente leal com sua equipe. Desde que a Apple TV lançou a série “Slow Horses”, há quatro anos, não há como imaginar Lamb sem a perfeita caracterização de Gary Oldman.
Com muito atraso, já que o volume inicial saiu no Reino Unido em 2010, a franquia de romances policiais de Mick Herron chega ao Brasil. A Intrínseca lançou os dois primeiros livros (de nove): “Slow Horses” e “Leões adormecidos”. Os volumes 3 e 4, “Real tigers” e “Spook Street”, estão previstos para o segundo semestre.
A boa notícia é que a leitura vale (muito) mesmo para quem já devorou a série. No posfácio da edição brasileira, Tim Shipman, editor de política da “The Spectator”, a revista semanal mais antiga em circulação no mundo, ressalta a atualidade da obra de Herron.
“Grandes figurões da ficção literária agonizaram nos anos que se seguiram ao colapso financeiro, com o Brexit, a pandemia de COVID-19 e o tumulto político quase interminável, diante da dificuldade de escrever um romance que refletisse o clima que envolvia a nação. Eles não pareciam se dar conta de que Herron já o tinha escrito”, destacou Shipman.
Ostracismo
Slow horses (pangarés), são os ocupantes da Slough House (casa do pântano), o decadente prédio comandado por Lamb para onde espiões que caíram em desgraça foram exilados. O MI5 prefere mandá-los para lá em vez de demiti-los. Uma vez pangaré, nunca mais um cavalo de raça.
É um caminho sem volta, e o dia a dia é envolto em burocracia, tarefas intermináveis e sem sentido. Até que a corda aperta na sede, e Lamb e seus escudeiros entram para fazer o trabalho sujo – os incêndios são irremediavelmente apagados por eles, que devem também proteger o serviço secreto de qualquer escândalo.
Grosso modo, é desta maneira que cada história é desenvolvida. Ainda que seja Lamb o cabeça da trama, o herói torto é River Cartwright (Jack Lowden na TV). Sangue azul no serviço (é neto de um lendário espião aposentado, papel de Jonathan Pryce), o jovem agente caiu por causa de um (suposto) erro que marca o início da franquia. Lamb o persegue justamente por causa do passado e da relação com o avô – e River vai descobrir que sua vida está ligada ao submundo muito antes de ele nascer.
Os livros da série começam sempre com cenas de ação: uma perseguição a um homem-bomba, um ataque a uma cidade. Tais momentos são apenas prelúdios para uma descrição detalhada da vida sem emoção da própria Slough House e seus cantos esquecidos por Deus.
Além dos protagonistas, os romances têm um elenco grande de coadjuvantes: o nerd asiático que passa seus dias bisbilhotando on-line os podres dos colegas; a assistente alcoólatra de Lamb; a mulher solitária que não dorme um dia sem pensar no erro que a tirou da elite do serviço secreto.
Ainda que cada romance seja independente, ao longo dos livros os personagens envelhecem e morrem (Herron não tem a menor dó de matar alguém) e os governos mudam. Há muito de humor nos livros, ainda que na série de TV, pelas exigências do próprio meio, as piadas tendam a ser mais acessíveis.
Mesmo com as histórias independentes, há um tema recorrente: o fanatismo patriótico. No primeiro livro, depois de uma extensa apresentação da Slough House e de cada um de seus “habitantes”, o ponto de partida da trama é o sequestro de um jovem paquistanês ameaçado de decapitação pública, acompanhada em tempo real pela internet. Um jornalista outrora importante que fez uma curva para a (extrema) direita parece envolvido na história, que invariavelmente vai chegar aos grandes escalões.
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Herron tem uma escrita ágil, mas carregada de detalhes. Mesmo intercalando a miríade de personagens, ele não deixa o leitor se perder. Não demora muito para que percebamos que a trama de espionagem é quase um pano de fundo para um exercício profundo sobre a natureza humana, onde sucesso e fracasso andam de braços dados.
Novas temporadas
Série da Apple TV com o maior número de temporadas disponíveis – cinco, até o momento –, “Slow Horses” já venceu dois Emmy e quatro Bafta. Duas novas temporadas estão confirmadas, e aguarda-se para o segundo semestre a sexta, adaptada do romance “Joe Country”.
TRECHO
“O edifício...se torna uma masmorra suspensa para a qual os fracassados de algum sistema maior são enviados como forma de punição: por crimes que envolvem drogas, embriaguez e luxúria, política e traição, infelicidade e dúvida, e o descuido imperdoável de permitir que um homem numa plataforma de metrô se detonasse, matando ou mutilando cerca de 120 pessoas e causando danos no valor de 30 milhões de libras, além de uma perda prevista de 2,5 bilhões de libras em receitas turísticas.
O edifício se torna, na realidade, uma masmorra administrativa onde, lado a lado com um excesso de papelada pré-digital, uma equipe pós-útil de desajustados pode ser armazenada e largada para acumular poeira.”
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“SLOW HORSES” E “LEÕES ADORMECIDOS”
De Mick Herron. Intrínseca, 416 páginas (cada volume). R$ 79,90 (livro) e R$ 54,90 (e-book)