ARTES VISUAIS

Marco Tulio Resende abre a exposição ‘Ecce homo’ hoje em BH

Em individual na Galeria do TJMG, a partir desta terça-feira (3/2), artista exibe a série do título e outras obras produzidas ao longo da carreira

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Entre as décadas de 1980 e 1990, o artista Marco Tulio Resende havia exposto algumas telas no Palácio das Artes. Quando recebeu as obras de volta, percebeu que uma delas havia sido “agredida”. Observando de perto, constatou que se tratava de uma marca de batom. Alguém havia beijado a tela.

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Era um ato de vandalismo ou uma homenagem imprudente? O que teria passado pela cabeça da pessoa que fez aquilo? Na incerteza, Marco Tulio incorporou a marca do beijo ao trabalho.


Essa abertura ao improviso ajuda a compreender a produção do artista belo-horizontino ao longo dos últimos 50 anos. Parte de sua trajetória é revisitada na mostra “Ecce Homo”, em cartaz na Galeria de Arte do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a partir das 18h desta terça-feira (3/2).


Marco Tulio Resende construiu uma obra marcada pela experimentação e pelo diálogo entre pintura, desenho, gravura, cerâmica e fotografia. “Não é um artista muito colorista”, observa o museólogo Alexandre Madalena, curador da mostra. “Ele utiliza uma paleta bastante restrita, com tons terrosos, como marrons, vermelhos, ocres e amarelos. Muitas dessas cores vêm de pigmentos naturais que o próprio artista produziu a partir de terras e minerais coletados ao longo da vida”, diz.


Coube a Alexandre selecionar 50 obras capazes de apresentar um panorama da produção de Marco Tulio Resende e, ao mesmo tempo, estabelecer diálogo com o local da exposição. Foram reunidas pinturas das séries “Cabeças”, “Etcoetera”, “Ex-Libris” e “Ecce Homo”, que dá nome à mostra, além de desenhos, esculturas e os livros-objetos, um dos trabalhos mais conhecidos do mineiro.


Réplicas de livros

Neles, réplicas de livros em grandes dimensões têm as páginas substituídas por tecido, madeira ou outros materiais, transformando o objeto em escultura. O conjunto das obras, de acordo com a curadoria, estimula reflexões sobre justiça e dialoga com terminologias jurídicas em latim.


“Eu uso muito latim nos meus trabalhos”, reconhece o artista. “Acho que tem relação com o fato de eu ser mineiro. Como dizia Guimarães Rosa, mineiro está sempre ‘pegado com Deus’. E é isso mesmo, não tem jeito. Qualquer cidadezinha de Minas tem a igreja como ponto mais importante”, afirma, lembrando que o termo “Ecce Homo” foi dito por Pôncio Pilatos ao apresentar Jesus ao povo, antes de lavar as mãos sobre o destino do galileu.


A influência do catolicismo, porém, vai além do latim. Em muitas de suas pinturas – sobretudo as da série que dá nome à exposição – Marco Tulio aborda a tradição votiva mineira, com representações de seres alados e ex-votos.


Em uma das obras, o fundo amarelo-ocre remete à parede de uma igreja antiga. No centro, duas formas semelhantes a pernas humanas parecem ter sido esculpidas em cera ou madeira, sugerindo ex-votos. Há também a figura da mão isolada diante de uma das pernas. Atravessando ambos os elementos, lê-se “Ecce Homo”.


Para além da referência religiosa, a obra permite leituras seculares – ou mesmo pagãs. As pernas e a mão “cortadas”, atravessadas pelos dizeres “Eis o homem” (tradução de Ecce Homo), podem sugerir uma condição humana fragmentada, marcada pelo sofrimento, mas ainda sustentada pela esperança.


Corpo, memória e homem

Já em outra tela, uma figura humana pintada de azul parece correr, afastando-se de uma escada. No peito, carrega uma cruz, como se fosse um sinal marcado na própria pele. “A tonalidade azul, na obra do artista, quase sempre remete ao divino”, explica Alexandre Madalena, acrescentando que Marco Tulio Resende trabalha com o tripé corpo, memória e homem.


As palavras também são recorrentes na produção do artista. No entanto, muitas vezes surgem esvaziadas de sentido literal, sugerindo mais do que afirmando. “Deixo-as lá para provocar a imaginação de quem for ver”, afirma o artista. “Outro dia, li um filósofo que dizia: ‘A palavra é sempre a metade de quem fala e a metade de quem ouve’. Ou seja, cada um interpreta de acordo com a própria memória, com suas questões pessoais”, diz.


Aos 75 anos, Marco Tulio Resende diz se sentir livre para criar sem amarras. “Quem gostar, gostou. Quem não gostar… O que eu posso fazer?”

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“ECCE HOMO”
Individual de Marco Tulio Resende. Na Galeria de Arte do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (no andar térreo do edifício-sede, localizado na Avenida Afonso Pena, 4.001, Serra), a partir das 18h desta terça-feira (3/2). A mostra fica em cartaz até 17/3, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. Entrada franca.

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