Vilão de “O agente secreto”, Henrique Ghirotti foi pego de calças curtas.“Fiz o teste, mas não fui aprovado”, conta seu intérprete, Luciano Chirolli. Um mês após a audição, ele recebeu, da produção do filme, um telefonema: “Houve uma mudança nos planos e sabe a cena do teste? A gente vai começar por ela. Você tem que pegar um voo hoje às oito da noite para estar amanhã às oito da manhã no set.”


Em julho de 2024, Chirolli chegou para filmar no Recife, vindo de São Paulo, tresnoitado. Tinha ido dormir às 2h da manhã e às 4h já estava de pé fazendo prova de figurino. “O Wagner (Moura) me recebeu no set me dando um abraço e dizendo: ‘Vamos em frente’. Aí o Kleber (Mendonça Filho) começou a orquestrar a cena. Passamos o dia inteiro, com um intervalo para o almoço, filmando a cena. Ele me deixando à vontade, dando as diretrizes do que queria. Nem parecia que eu não tinha dormido. Estava com sangue nos olhos”, acrescenta.

Além do cinema, Luciano Chirolli está no espetáculo "Os vencedores", que terminou temporada em dezembro no Sesc, em São Paulo, e voltará ao cartaz neste ano

Nadja Koucki/Divulgacão

Chirolli e Moura eram os principais personagens da cena, momento de “O agente secreto” em que o empresário paulistano Ghirotti tem uma reunião com parte do corpo docente do departamento de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e protagoniza uma discussão com o personagem de Moura.


“Tinha muita gente. Só na mesa, oito ou nove atores, além do pessoal do entorno fazendo figuração. Nunca tinha filmado assim, com essa aparente urgência. Mas quando você chega ao local, tem todo o tempo do mundo para se sentir dentro e aproveitar a proposta. O Kleber registra tudo, depois começa a falar ao ouvido, baixo, bem discreto, e dando o direcionamento. Cheguei no susto e foi uma delícia”, completa.

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Chirolli entrou no filme por meio de Marcelo Caetano, realizador mineiro que deu consultoria na escalação dos atores. “Como o Gabriel Domingues (indicado ao Oscar na nova categoria, de Seleção de Elenco) estava mais focado no elenco do Nordeste, para a parte de São Paulo pediu assessoria ao Marcelo, que acompanha minha trajetória no teatro.”


Assim como Caetano, Chirolli é um mineiro radicado na capital paulista. Viveu os primeiros 18 de seus 64 anos em Poços de Caldas, no Sul do estado. Frequentou Belo Horizonte na adolescência quando seu irmão entrou para a equipe de vôlei do Minas Tênis Clube. Pouco mais velho que ele, Xandó é integrante da chamada “Geração de Prata”, a Seleção Brasileira da década de 1980 que deu ao Brasil sua primeira medalha olímpica do vôlei.

OPÇÃO PELA ARTE

Quando chegou a hora de decidir o que faria, Chirolli mudou-se para a capital paulista para prestar vestibular. Não se preparou o suficiente para passar em medicina em uma universidade pública. Entrou em ciências sociais da USP, se apaixonou por antropologia, mas no meio do caminho conheceu a atriz, diretora e professora Myriam Muniz (1931-2004). “Desisti da antropologia e entrei para a Escola de Arte Dramática da USP há 42 anos.”

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Profissionalmente, começou no teatro em 1986. Um encontro definitivo em sua carreira foi com a atriz Maria Alice Vergueiro (1935-2020). Grande atriz e diretora, que as gerações mais novas conhecem pelo “Tapa na pantera” (2006), um dos primeiros virais do Brasil, se encontrou com ele quando estava deixando o Teatro do Ornitorrinco. Levou Chirolli ao fundar o núcleo 2 do Ornitorrinco, grupo teatral pequeno que viajou pelo mundo.


A parceria Chirolli e Vergueiro gerou, em 2007, o Grupo Pândega, formado sob forte influência do artista (escritor, dramaturgo, cineasta, ator e mais um punhado de coisas) Alejandro Jodorowsky. A obra do franco-chileno continua movendo os trabalhos do Pândega, hoje com seis integrantes. A próxima montagem, Chirolli diz, será “De Tar a Taz”, baseada no filme “Fando e Lis”, que Jodorowsky lançou em 1968.


Enquanto não retorna ao “teatro sagrado”, como ele mesmo chama, Chirolli espera deixar de ser um ator bissexto para o cinema. A repercussão em torno de “O agente secreto” está começando a trazer frutos e ele tem em vista projetos audiovisuais.


Chirolli tem oito cenas em “O agente secreto”. A maior parte delas foi rodada no Recife, onde ele filmou durante 10 dias. Mas houve também uma sequência em São Paulo, filmada por último. É a cena em que Ghirotti, em seu escritório, contrata os matadores que deverão dar cabo de Armando/Marcelo (Moura).
A cena foi rodada em estúdio. “Tudo foi feito com uma respiração que o cinema, às vezes, não dá.

Passei meu último dia de filmagem só com essa cena, então é uma delícia trabalhar assim. Tem a cena que a gente amadurece em casa, um trabalho solitário mais para decorar e descobrir possibilidades. Mas a cena mesmo só acontece quando se faz o trabalho junto.”

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Atuar sob a direção de Kleber Mendonça Filho, comenta Chirolli, é um prato cheio de possibilidades. “Ele primeiro filma combinando, e você faz o texto como está escrito. Ele faz, refaz, daí tem o almoço e depois ele diz: ‘Vamos fazer versões da cena’. Aí o ator pode sugerir um improviso.”

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Na tal sequência em que Ghirotti contrata os matadores, Chirolli deixou sua marca. “Quando eu digo que quero um tiro na boca, o movimento que faço com o dedo, escolhendo o lugar, veio de improviso. (O roteiro) Não tinha essa sugestão, de colocar o dedo na cara como se fosse uma arma. Isso veio da emoção de criar com o diretor. E quando, na hora de montar o filme, ele opta pela versão com o momento de improviso, você se sente pertencendo, pois ali o personagem está ganhando vida própria”, finaliza.

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