A julgar pelos filmes sobre Shakespeare que nos chegam de tempos em tempos, o maior dramaturgo moderno foi, no fundo, o criador da autoficção. Segundo “Shakespeare apaixonado”, que ganhou o Oscar de 1998, ele escreveu “Romeu e Julieta” sob o efeito de uma paixão avassaladora.


Em “Hamnet”, os problemas são mais dramáticos: produzem uma ficção em torno da família de Shakespeare e mesmo da morte de Hamnet, um de seus três filhos. Então, um Shakespeare atormentado, em crise com sua amada mulher, Agnes, dará ao mundo nada menos do que “Hamnet”.


O abandono aqui é central, porque a protagonista do filme de Chloé Zhao é muito mais Agnes – Jessie Buckley – do que o dramaturgo. Ele é o homem instruído, que sente necessidade de partir para Londres, abrir horizontes, deixando a família no lugarejo, aos cuidados de Agnes. Estamos de novo com a família no centro de tudo – assim é o nosso século.


Agnes, mulher ligada à natureza – o plano de abertura a toma dormindo na raiz de uma árvore enorme – , de talentos médicos tão sólidos quanto sua ligação com a natureza, sente a ausência do marido como um abandono e, essa é a verdade, talvez não compreenda sua carreira. Que vai bem, diga-se, tanto que ele pode comprar para Agnes e os três filhos a casa mais suntuosa de Stratford.


Agnes vê tudo isso com reservas. Esse marido que não aparece não só lhe soa como traição. É também o que levará o filme ao melodrama. A construção não é original, exceto pelo destaque que dá menos ao papel da mulher do que ao sentimento de abandono, mas a ideia motora é a criação de um filme “de prestígio”.


Ressentimento

A morte de Hamnet levará Agnes a um ressentimento profundo. Assim como o pai de Shakespeare, que achava o filho não mais que um vadio, Agnes passa a imaginar que ele leva uma vida de nababo em Londres, e a pouca atenção que lhe dá é meramente convencional. Ela sofre muito nessa parte – e como Jessie Buckley é ótima atriz, sua candidatura ao Oscar está lançada.


Boa parte do filme é convencional. Depois de um início em que a simbiose de Agnes com a natureza é enfatizada, essa parte de sua vida se reduz um tanto depois do casamento, feito de certo equilíbrio entre a família e a natureza.


Um aspecto meio fraco do filme – a jovem Agnes, personagem um tanto maldita, vista como bruxa por parte da comunidade, garota que se casa grávida e tal, torna-se uma mãe exemplar e todas essas tensões desaparecem.


As coisas seguem assim, sem grandes lances, e o filme avança para se tornar até desinteressante. Mas Shakespeare ressurge para salvar a situação, como sempre. Sua angústia com a profissão e a vida o projeta no célebre “ser ou não ser”, remetendo, no caso, a tudo que um homem deve renunciar para poder seguir seu caminho.


Teatro

Mas, quando “Hamlet” estreia em Londres, temos o grande momento de Chloé Zhao também. A representação de uma peça do século 17, buscando reencontrar o que seria uma sessão de teatro na época, seu aspecto popular, o que haveria de próprio da época na representação, tudo isso constitui o principal momento do filme, em que todas as peças se encaixam – a encenação, a cenografia, os figurinos.


Um dos motivos do encaixe, é claro, é o nome da peça, que, com uma letra de diferença, é o mesmo de Hamnet, o filho de Shakespeare. O filho que morre enquanto ele está ausente.


Não importa que com isso fiquem em segundo plano os mil e um motivos de inspiração que desde sempre rondam o “Hamlet”. O importante, no caso, é colocar em relevo o Shakespeare homem de família, que embora distante manda dinheiro para Agnes e tudo mais, sem deixar de lado os sacrifícios a que a vida obriga os humanos – entre eles o de estarem longe dos seus para ganhar a vida, o que vale para tanto para um gênio como Shakespeare quanto para qualquer mortal que labuta na escala 6x1 ou mesmo na 7x0.

Aos 36 anos, Jessie Buckley já se firma como um ícone contemporâneo do cinema e do teatro. Versátil, mantém viva sua relevância em múltiplas expressões artísticas, conectando público e crítica. O futuro aponta para novos papéis e desafios que ampliarão uma trajetória que continuará a ser escrita com brilho. reprodução
Na vida pessoal, Jessie é casada com um profissional da área de saúde mental que conheceu em um encontro às cegas e conhecido como Freddie. O casamento aconteceu em 2023, após o término de seu relacionamento anterior com o ator James Norton. gemini
A atuação de Jessie em "Hamnet" foi vista como redefinição de papéis femininos históricos, e sua entrega trouxe nova perspectiva sobre Shakespeare e sua família. O impacto cultural do filme foi amplamente discutido, tornando Jessie um símbolo de renovação artística. reprodução
Em 2025, Jessie estrelou o filme "Hamnet – A Vida Antes de Hamlet", dirigido por Chloé Zhao e que foi aclamado em festivais e considerado obra-prima., Sua atuação intensa emocionou plateias e críticos, configurando-se como um papel que viria a ser decisivo em sua carreira. reprodução
A atriz trabalhou com cineastas como Maggie Gyllenhaal e Chloé Zhao, e cada colaboração trouxe novos desafios e experiências. Sua capacidade de reinvenção impressionou diretores e críticos e, assim, se consolidou como atriz de prestígio. reprodução
Além da atuação, Jessie Buckley manteve projetos musicais paralelos: gravou canções e participou de trilhas sonoras. Sua voz potente sempre foi um diferencial, proporcionando à sua carreira a junção de música e interpretação. reprodução
Em 2022, além da indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, a irlandesa venceu o Laurence Olivier Award por sua atuação em "Cabaret". O prêmio consolidou sua força nos palcos londrinos e a imagem de artista completa em meio à polivalência entre teatro e cinema. reprodução
Sua estreia nos cinemas ocorreu em 2017 com "A Fera" e, no ano seguinte, ganhou o British Independent Film Award pelo papel que revelou sua força dramática e intensidade emocional. A crítica destacou sua entrega e profundidade, um reconhecimento que abriu portas para produções maiores. reprodução
A consolidação como atriz veio alguns anos depois, quando sua carreira ganhou força. Em 2016, integrou o elenco da BBC em "Guerra e Paz", adaptação do clássico de Liev Tolstói. reprodução
Após o teatro, ela começou a aparecer em produções televisivas britânicas. Atuou em séries e minisséries, revelando versatilidade diante das câmeras. Com cada papel, ampliava seu repertório, conquistava novos públicos e sua carreira se expandia para além dos palcos.
Buckley também estudou na Royal Academy of Dramatic Art, em Londres, onde aprimorou sua técnica. A formação em 2013 lhe deu ferramentas para explorar diferentes estilos de atuação. Com disciplina, desenvolveu habilidades tanto para o drama quanto para o musical. reprodução
No mesmo ano, estreou como Anne Egermann na peça "A Little Night Music", de Stephen Sondheim, no West End, em Londres. Tal oportunidade marcou sua entrada no teatro profissional e, com talento e disciplina, chamou atenção da crítica especializada. Desse modo, consolidou sua transição da TV para os palcos. reprodução
Em 2008, Jessie participou do programa de talentos "I'd Do Anything", da BBC, e foi a vice-campeã do reality show. A experiência lhe deu visibilidade e mostrou sua capacidade de interpretar personagens complexos. Mesmo sem vencer, conquistou público e críticos. A partir daí, sua carreira começou a ganhar ritmo. reprodução
Ainda adolescente, se destacou em torneios de canto, mostrando potência vocal e presença de palco. Participou de corais e apresentações locais, sempre conectando emoção e técnica. A vivência musical abriu portas para a entrada em programas de talentos. Sua jornada artística, assim, começou pela música antes de migrar para o teatro. reprodução
Jessie Noelle Buckley nasceu em 28 de dezembro de 1989, em Killarney, Irlanda. Desde cedo, mostrou interesse por música e artes cênicas, influenciada pelo ambiente cultural familiar. Sua formação inicial incluiu estudos na Royal Irish Academy of Music, o que lhe deu base sólida fundamental para a versatilidade como atriz e cantora. divulgação
Com uma carreira marcada por talento musical e força dramática, Buckley transitou entre palcos e telas com naturalidade, conquistando público e crítica. Sua trajetória é um exemplo de dedicação e evolução constante. reprodução
Caso a indicação se concretize no dia 22 de janeiro, será a segunda vez em que a atriz concorrerá ao prêmio. Afinal, em 2022, ela foi indicada na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por "A Filha Perdida". Neste filme, interpretou a versão jovem da personagem de Olivia Colman. reprodução
Vencedora do Critics Choice Awards em 4 de janeiro de 2026 como Melhor Atriz por "Hamnet: A Vida Antes Hamlet", Jessie Buckley é a favorita ao Oscar deste ano na mesma categoria. O título, aliás, chega aos cinemas do Brasil no dia 15 de janeiro. reprodução


Essa identidade com o homem contemporâneo explica o pacotinho de lenços distribuído pela assessoria do filme durante a sessão para jornalistas, com a justificativa de que “é para poder chorar à vontade”.


“Hamnet”, então, faz chorar ao mesmo tempo em que transfere para si o prestígio de Shakespeare. E Shakespeare é uma garantia – já deu o Oscar a “Shakespeare apaixonado”, para não ir longe. Como a atriz do filme é muito boa e Paul Mescal não destoa, o círculo dos grandes prêmios nos Estados Unidos se fecha. E Chloé Zhao, que ganhou seu primeiro Oscar com “Nomadland”, há cinco anos, pode muito bem emplacar outro. Mas os limites deste filme são tão evidentes quanto a força de seu apelo.

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“HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET”
(Reino Unido, EUA, 2025, 125 min.) Direção: Chloé Zhao. Com Paul Mescal, Jessie Buckley, Emily Watson. Classificação: 14 anos. Estreia nesta quinta (15/1) no Ponteio (Sala 2, 16h15, 21h20), Centro Cultural Unimed-BH Minas (15h, 18h), UNA Cine Belas Artes (Sala 2, 16h), Pátio Savassi (13h15, 14h40 e 19h05), Diamond Mall (12h10, 21h30).

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