Em novembro passado, quando a première de “Hamnet” tomou conta do maior cinema do Museu da Academia, em Los Angeles, a diretora Chloé Zhao, ganhadora do Oscar por “Nomadland”, em 2021, teria tudo para ficar nervosa.


Ali, no coração de Hollywood, ela apresentava seu primeiro longa desde o fracasso de crítica e público de “Eternos”, da Marvel, logo depois de Steven Spielberg ter discursado no palco do David Geffen Theater sobre “o milagre de filme” que ela havia criado.


Diante de mil convidados, Zhao não pareceu sentir nenhuma pressão. Em vez de agradecimentos a executivos e ao elenco, ela começou a comandar um exercício de meditação para todo o cinema. Com voz quase hipnótica, a cineasta chinesa pediu para cada espectador fechar os olhos, pensar em um ponto de tensão, respirar fundo e saber que não precisava carregá-lo sozinho. “Temos uns aos outros nesta noite”, disse ela.


A atitude zen budista foi essencial para a condução de “Hamnet: A vida antes de Hamlet”, que venceu diversos prêmios de público em festivais, levou os troféus do Globo de Ouro de melhor filme de drama e de melhor atriz (Jessie Buckley) e é sério candidato ao Oscar deste ano.


Chloé Zhao foi a primeira escolha da produtora Liza Marshall quando ela adquiriu os direitos do livro homônimo de Maggie Ofarrell? sobre Agnes, uma misteriosa mulher que lida com a morte do filho pequeno, Hamnet, de uma forma diferente do marido, um professor de latim que escreve uma peça chamada “Hamlet” para lidar com sua dor. Mas a cineasta só toparia se a autora também participasse do roteiro.


“Falei que se ela não fizesse, eu não faria”, afirma Zhao, que passou a trocar mensagens de áudio com a escritora irlandesa até finalizar um roteiro com 90 páginas. Uma das mudanças aplicadas por Zhao foi eliminar os flashbacks, recurso narrativo com o qual teve dificuldades em “Eternos”, e dividir o foco do protagonismo entre Agnes e lta o professor de latim – que ganhou o nome verdadeiro de William Shakespeare.


“O livro se concentra em Agnes, mas estava em um ponto da minha vida que precisava compreender minha guerra? civil interna?, meus lados masculino e feminino. Sabia que aqueles dois personagens poderiam representar as forças arquetípicas. Com a permissão de Maggie, trouxemos mais Will e tiramos a tensão disso”, explica Zhao.


Com Jessie Buckley já no papel de Agnes, a produção foi atrás de Paul Mescal para viver Shakespeare. O astro diz que não cresceu sob à sombra intimidadora do dramaturgo por ser irlandês, mas se sentiu grato pelo filme ter se interessado pelo homem por trás do mito.


“Ele é um marido e um pai. Senti que seria uma maneira para começar a trabalhar o personagem e não interpretar o gênio escritor”, diz ele, que releu diversas peças do bardo sobre luto para aplicá-las a “Hamnet”. Ao mergulhar na dor de um pai que perde um filho e deságua seu pesar na encenação de uma das maiores histórias da dramaturgia mundial, Mescal encontrou os maiores desafios da sua curta, mas celebrada carreira.


“Olimpíadas da atuação”

“Foi uma espécie de Olimpíadas da atuação”, afirma o ator ao descrever a cena em que descobre que sua filha doente está viva, mas que perdeu Hamnet. “Vou da alegria à devastação em questão de 35 segundos.”


O ator diz que passou a compreender mais Shakespeare após a experiência. “Sua genialidade não se deve à beleza da linguagem, mas à compreensão fundamental da condição humana e ao fato de que ele a documenta com as frases mais lindas que já pousaram sobre uma folha de papel.”


Mesmo com o crescimento da importância de Shakespeare na trama, a história de “Hamnet” ainda é a de Agnes, vista em seu vilarejo como uma mulher ligada a antigas tradições pagãs de bruxaria.


“O pouco que se sabia sobre ela não era muito lisonjeiro, como é o caso sobre toda mulher por trás desses homens gigantes”, diz Jesse Buckley. “De certa maneira, isso foi uma dádiva, porque me deu a oportunidade de encontrá-la como uma desconhecida na rua. Ao mesmo tempo, Agnes é uma mulher muito segura em seu corpo e inflexível em relação à sua natureza elementar e à natureza do mundo.”

Aos 36 anos, Jessie Buckley já se firma como um ícone contemporâneo do cinema e do teatro. Versátil, mantém viva sua relevância em múltiplas expressões artísticas, conectando público e crítica. O futuro aponta para novos papéis e desafios que ampliarão uma trajetória que continuará a ser escrita com brilho. reprodução
Na vida pessoal, Jessie é casada com um profissional da área de saúde mental que conheceu em um encontro às cegas e conhecido como Freddie. O casamento aconteceu em 2023, após o término de seu relacionamento anterior com o ator James Norton. gemini
A atuação de Jessie em "Hamnet" foi vista como redefinição de papéis femininos históricos, e sua entrega trouxe nova perspectiva sobre Shakespeare e sua família. O impacto cultural do filme foi amplamente discutido, tornando Jessie um símbolo de renovação artística. reprodução
Em 2025, Jessie estrelou o filme "Hamnet – A Vida Antes de Hamlet", dirigido por Chloé Zhao e que foi aclamado em festivais e considerado obra-prima. Sua atuação intensa emocionou plateias e críticos, configurando-se como um papel que viria a ser decisivo em sua carreira. reprodução
A atriz trabalhou com cineastas como Maggie Gyllenhaal e Chloé Zhao, e cada colaboração trouxe novos desafios e experiências. Sua capacidade de reinvenção impressionou diretores e críticos e, assim, se consolidou como atriz de prestígio. reprodução
Além da atuação, Jessie Buckley manteve projetos musicais paralelos: gravou canções e participou de trilhas sonoras. Sua voz potente sempre foi um diferencial, proporcionando à sua carreira a junção de música e interpretação. reprodução
Em 2022, além da indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, a irlandesa venceu o Laurence Olivier Award por sua atuação em "Cabaret". O prêmio consolidou sua força nos palcos londrinos e a imagem de artista completa em meio à polivalência entre teatro e cinema. reprodução
Sua estreia nos cinemas ocorreu em 2017 com "A Fera" e, no ano seguinte, ganhou o British Independent Film Award pelo papel que revelou sua força dramática e intensidade emocional. A crítica destacou sua entrega e profundidade, um reconhecimento que abriu portas para produções maiores. reprodução
A consolidação como atriz veio alguns anos depois, quando sua carreira ganhou força. Em 2016, integrou o elenco da BBC em "Guerra e Paz", adaptação do clássico de Liev Tolstói. reprodução
Após o teatro, ela começou a aparecer em produções televisivas britânicas. Atuou em séries e minisséries, revelando versatilidade diante das câmeras. Com cada papel, ampliava seu repertório, conquistava novos públicos e sua carreira se expandia para além dos palcos.
Buckley também estudou na Royal Academy of Dramatic Art, em Londres, onde aprimorou sua técnica. A formação em 2013 lhe deu ferramentas para explorar diferentes estilos de atuação. Com disciplina, desenvolveu habilidades tanto para o drama quanto para o musical. reprodução
No mesmo ano, estreou como Anne Egermann na peça "A Little Night Music", de Stephen Sondheim, no West End, em Londres. Tal oportunidade marcou sua entrada no teatro profissional e, com talento e disciplina, chamou atenção da crítica especializada. Desse modo, consolidou sua transição da TV para os palcos. reprodução
Em 2008, Jessie participou do programa de talentos "I'd Do Anything", da BBC, e foi a vice-campeã do reality show. A experiência lhe deu visibilidade e mostrou sua capacidade de interpretar personagens complexos. Mesmo sem vencer, conquistou público e críticos. A partir daí, sua carreira começou a ganhar ritmo. reprodução
Ainda adolescente, se destacou em torneios de canto, mostrando potência vocal e presença de palco. Participou de corais e apresentações locais, sempre conectando emoção e técnica. A vivência musical abriu portas para a entrada em programas de talentos. Sua jornada artística, assim, começou pela música antes de migrar para o teatro. reprodução
Jessie Noelle Buckley nasceu em 28 de dezembro de 1989, em Killarney, Irlanda. Desde cedo, mostrou interesse por música e artes cênicas, influenciada pelo ambiente cultural familiar. Sua formação inicial incluiu estudos na Royal Irish Academy of Music, o que lhe deu base sólida fundamental para a versatilidade como atriz e cantora. divulgação
Com uma carreira marcada por talento musical e força dramática, Buckley transitou entre palcos e telas com naturalidade, conquistando público e crítica. Sua trajetória é um exemplo de dedicação e evolução constante. reprodução
Caso a indicação se concretize no dia 22 de janeiro, será a segunda vez em que a atriz concorrerá ao prêmio. Afinal, em 2022, ela foi indicada na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por "A Filha Perdida". Neste filme, interpretou a versão jovem da personagem de Olivia Colman. reprodução
Jessie também foi vencedora do Critics Choice Awards em 4 de janeiro de 2026 como Melhor Atriz. Ela agora se consagra ainda mais como a favorita ao Oscar deste ano na mesma categoria. O título, aliás, chega aos cinemas do Brasil no dia 15 de janeiro. reprodução
No discurso, Jessie agradeceu aos 400 figurantes da produção. Ela competia com Jennifer Lawrence ("Morra, Amor"), Renate Reinsve ("Valor Sentimental"), Julia Roberts ( "Depois da Caçada"), Tessa Thompson ( "Hedda") e Eva Victor ("Sorry, Baby") Reprodução TV Globo
A atriz Jessie Buckley venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama pelo filme ‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet’, que, por sinal, levou o prêmio de Melhor Filme de Drama. O filme produzido por Steven Spielberg tem direção de Chloé Zhao. Reprodução TV Globo


Faltando apenas quatro dias para o término das filmagens, Chloé Zhao concluiu que o final escrito no roteiro não era o ideal. “O texto dizia apenas ele? morre violentamente no palco e ela olha ao seu redor?, e a música era o fim. Sabia que não funcionaria cinematograficamente”, diz. “Jessie também sentiu.”


“Estava nervosa, me senti completamente perdida”, diz a atriz, sobre os momentos finais do longa, que têm repercutido desde a passagem da produção por festivais. A inspiração para o encerramento veio quando Jesse voltava para casa depois das filmagens frustradas. Ela ouviu “On the nature of daylight”, de Max Richter, que criou a trilha do filme, e a enviou para Chloé. A peça emocional que faltava finalmente se encaixou no último minuto.


“É como diz not? dark yet?, a música de Bob Dylan, por? trás de toda beleza, há algum tipo de dor.? Acredito em sincronicidade. Não creio que possa controlar uma história, porque ela é algo maior e existe simultaneamente no passado, presente e futuro”, diz a cineasta. “Certas histórias só se revelam quando você está preparada.” (Rodrigo Salem)

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“HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET”
(Reino Unido, EUA, 2025, 125 min.) Direção: Chloé Zhao. Com Paul Mescal, Jessie Buckley, Emily Watson. Classificação: 14 anos. Estreia nesta quinta (15/1) no Ponteio (Sala 2, 16h15, 21h20), Centro Cultural Unimed-BH Minas (15h, 18h), UNA Cine Belas Artes (Sala 2, 16h), Pátio Savassi (13h15, 14h40 e 19h05), Diamond Mall (12h10, 21h30).

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