O britânico Ricky Gervais está a caminho de se tornar o Roberto Carlos da Netflix. Na virada do ano, lançou mais um especial de stand-up na plataforma, “Mortalidade”, e já declarou que pretende fazer outro no fim de 2026. O anterior, “Armageddon”, estreou no final de 2023.

Diante da repercussão que costuma gerar após uma hora de piadas disparadas em ritmo de metralhadora, o lançamento anual parece um passo natural.

Neste que é o quarto especial dele para a Netflix, havia muita expectativa sobre os “limites” de seu texto. Em “Armageddon”, as piadas sobre crianças com câncer causaram a maior manifestação negativa em relação a um programa exibido em streaming. Mesmo um ano depois, a plataforma ainda recebia pedidos para sua retirada do catálogo, o que não aconteceu.

No novo “Mortalidade”, crianças com câncer são poupadas por Gervais. Mas isso não se aplica a autistas, anões, idosos, cegos, bebês deformados, pessoas com TDAH, imigrantes e até marginais brasileiros – o comediante usa a figura de um sequestrador em um trecho do show sobre apologia da pena de morte.

Nomes famosos são alvos de narrativas pesadas, como Gandhi, Stephen Hawking e Anne Frank – personagem da melhor piada do especial.

Com esse repertório à primeira vista ultrajante, Gervais mantém tanto sua popularidade quanto o prestígio junto à crítica, apoiado em um uso afiado de inteligência e perspicácia. Nada soa como ofensa gratuita.

Ele constrói situações – muitas delas plausíveis– em que o preconceito e a humilhação permanecem latentes na conversa até serem disparados no instante exato. Sem entrar em muitos “spoilers”, vale citar um exemplo.

Gervais reclama do péssimo sinal de celular em sua mansão na Inglaterra. Ele disse ter descoberto que isso acontece porque seus vizinhos não colocam antenas em seus jardins com a justificativa de que as consideram feias e que ficar próximo a elas poderia causar câncer.

“Sugeri à prefeitura que procurássemos um morador cego e que já tem câncer. Podemos colocar a antena horrorosa no jardim de sua casa. Nem precisamos contar para ele.”

Assim é o humor desse ator e roteirista britânico. Existe uma lógica construtiva da piada. Enquanto ele está falando, às vezes é muito difícil prever no que vai dar, mas, quando a piada vem, é matadora. E ele demonstra um enorme poder de perceber a capacidade das pessoas se perderem em situações constrangedoras em seus próprios discursos.

Ele já demonstrava isso quando escrevia os roteiros da mítica série “The office”, de 2001 a 2003, sua maior criação.

O especial tem momentos antológicos, como quando Gervais sugere a existência de um fazendeiro antirracista dono de escravos antes da abolição nos Estados Unidos.

O personagem prega ser “o escravocrata mais bacana da história”, enumerando o que pensa ser coisas boas que oferece a seus escravos. No entanto, todas elas são cruéis e fascistas.

Este especial é o mais irregular de todos produzidos por ele para a Netflix. Não há um tema específico conduzindo o roteiro. Ele admite em determinado momento que o título não faz muito sentido. Por duas vezes, ele deixa escapar um “preciso melhorar isso” após uma piada.

Há um demorado bloco no qual ele imagina como deve ser a vida do inferno, que pode ser a pior coisa que ele já desenvolveu querendo fazer os outros rirem.

Há um bônus para cinéfilos. Ele relata conversas absurdas que teve com os advogados do Globo de Ouro, revelando que os dobrou com sua lábia e nunca teve uma piada censurada nas cinco vezes em que apresentou a cerimônia do prêmio, mesmo com piadas corrosivas sobre os astros na plateia. 

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“RICKY GERVAIS: MORTALIDADE”
Direção: John L. Spencer. Com
Ricky Gervais. Classificação: 16 anos.
Disponível na Netflix.

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