Filme criado por Paulo Gustavo sobre dupla de policiais gays estreia em BH
Com ação e comédia, 'Agentes muito especiais' não escapa de clichês ao acompanhar gays às voltas com o machismo do ambiente policial
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O longa “Agentes muito especiais”, que estreia nesta quinta-feira (8/1) em Belo Horizonte, surgiu como celebração da amizade entre Marcus Majella e Paulo Gustavo. Idealizador da comédia, o humorista morto em 2021, vítima da COVID-19, faria parte do elenco.
Em 2025, o projeto foi retomado como homenagem a Paulo, cujo papel coube ao ator Pedroca Monteiro, que contracena com Majella. A direção é de Pedro Antonio.
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No filme, dois amigos homossexuais estão às voltas com o ambiente heteronormativo das corporações policiais. Jeff (Marcus Majella) é gay assumido. Experiente, ele trabalha na delegacia de uma cidadezinha e lida com pequenos delitos. Acredita ter nascido para ser o melhor de todos, mas precisa aprender a respeitar hierarquias.
Johny (Pedroca Monteiro) é o completo oposto. Ainda “no armário”, trabalha como vigia de parque municipal, mora com a mãe e é virgem.
O cineasta Pedro Antonio e o ator Marcus Majella são parceiros de longa data. A colaboração mais conhecida da dupla é a franquia “Um tio quase perfeito”, em que o ator interpreta o trambiqueiro Tony. Outras parcerias deles são “Os salafrários” e “Tô ryca!”.
Quando recebeu o convite para comandar “Agentes muito especiais”, o diretor havia acabado de lançar a comédia romântica “Evidências do amor”, estrelada por Fábio Porchat e Sandy. “Não é comum no Brasil ver filmes que misturam ação e comédia. Essa ideia era muito original. Quando o convite veio, foi quase irrecusável. É um terreno muito bom para trabalhar criativamente”, afirma Pedro Antonio.
Outro desenho
O diretor encontrou o argumento do filme pronto e um início de roteiro. Atraídos por um comercial de TV, Jeff e Johny ingressam no Centro de Operações de Inteligência da Polícia (Coip), uma espécie de Bope, e passam a lidar com crimes mais pesados. Junto do roteirista Fil Braz, Pedro redesenhou a trama, pois a morte de Paulo Gustavo impôs nova configuração ao projeto.
No centro de operações, os protagonistas dividem quarto. Sob o comanda do coronel Queiroz (Chico Diaz) e da agente Nanda (Bárbara Reis), o treinamento inclui preparação física com circuitos que envolvem rolamentos, corridas, saltos, pneus, rastejos, escaladas e tiro ao alvo. Rejeitados pelos outros recrutas, os dois acabam formando uma dupla por falta de opção.
Mais adiante, o coronel designa os agentes para missão especial: a dupla deve se infiltrar em presídio de segurança máxima para se aproximar de gangue perigosa, liderada pelo bandido Onça. Eles devem descobrir quem está por trás do comando da organização. Descobrem que o líder, na verdade, é mulher, interpretada por Dira Paes.
Pedro Antonio diz que buscou referências em filmes de ação como “As panteras”, “Máquina mortífera”, e “Anjos da lei”, além de duplas icônicas como Walter Matthau e Jack Lemmon. “Minha contribuição foi trazer referências”, resume o cineasta, citando também cenas inspiradas em “Kill Bill” e “007”.
Gênero consolidado no cinema nacional, a comédia divide espaço com cenas de ação. “Foi um desafio. Você precisa trabalhar com os recursos que tem. Fazer ação é muito diferente de fazer comédia”, explica Pedro Antonio.
Enquanto na comédia há mais espaço para improviso, nas cenas de ação o controle é maior, com ritmo e planejamento rigorosos.
Majella e Pedroca tiveram mais liberdade nas cenas cômicas. Já as sequências de ação (cerca de cinco) foram cuidadosamente planejadas, com decupagem, storyboard, dublês e acompanhamento de coreógrafos. “Eu precisava ter muito claro na minha cabeça quais planos faria e como os atores se movimentariam em cada cena”, conta Pedro Antonio.
O elenco ensaiou um mês as cenas mais complexas, que incluíram queda dentro de aquário, helicóptero, explosões e tiroteios.
“Você não chega para fazer cena de ação sem ela estar muito bem desenhada. O tempo é curto, é preciso criar planos que tornem a ação crível. Não tem coisa pior do que ação malfeita”, comenta o diretor.
A presença de gays no ambiente excessivamente heteronormativo poderia facilmente descambar para a caricatura. Risco que, segundo o diretor, foi enfrentado ao longo do processo. “Você consegue misturar os dois universos de forma crítica, leve e inclusiva. Esse é o nosso mote”, afirma Pedro Antonio.
Jeff e Johny ocupam posições de poder. Ajudam a desmontar a ideia de que personagens gays são necessariamente frágeis ou menos capazes. Em vários momentos, o filme sugere que eles podem ser mais eficientes e determinados do que colegas heterossexuais.
Jeff, por exemplo, tenta desconstruir a associação entre “viadagem” e fraqueza dentro do quartel.
Alívio cômico
Ainda assim, o longa não consegue escapar completamente de armadilhas do gênero. Mesmo com a intenção de subverter preconceitos e o fato de Marcus Majella e Pedroca Monteiro serem atores assumidamente gays, os personagens, muitas vezes, reforçam o estereótipo do LGBT raso e afeminado, usado como alívio cômico.
Dedicado a Paulo Gustavo, o filme conta com grande parte da equipe que trabalhou com o humorista. “É uma homenagem genuína, a continuidade do legado de alguém muito marcante. Pessoas assim deixam marca eterna”, conclui o diretor Pedro Antonio, torcendo para que o longa traga um bom começo de ano para o cinema brasileiro.
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“AGENTES MUITO ESPECIAIS”
(Brasil, 2026, 99 min.) Direção de Pedro Antonio. Com Marcus Majella, Pedroca Monteiro, Dira Paes e Bárbara Reis. Estreia nesta quinta-feira (8/1), em salas das redes Cineart, Cinemark, Cinépolis e Cinesercla.