Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade

O afeto que os homens aprendem a esconder

Os meninos são ensinados, desde muito cedo, a esconder a ternura para não parecerem diferentes

Publicidade

Mais lidas

 
Imaginemos a seguinte cena: dois meninos de 13 anos dormem na mesma cama, conversam até tarde e brincam nos campos de flores que a família de um deles trabalha. Mandados para um colégio novo, na primeira semana, uma colega pergunta se eles são um casal. Um deles responde que não, que são apenas amigos. 
No entanto, essa pergunta, aparentemente banal, é o estopim para nos mostrar como o olhar alheio pode ir se instalando dentro de alguém até desfazer aquilo que era genuíno e espontâneo.
Esse é o enredo do filme "Close", de Lukas Dhont, lançado em 2022, que será objeto de debate no meu grupo de estudos nessa semana. Toda semana nos reunimos para discutir um filme à luz de um ou dois autores para levantarmos temas que esbarram na filosofia, no direito e na cultura, tudo com a finalidade de aprendermos a viver um pouco melhor nossas próprias vidas. 

Esse filme conta a história linda e trágica de uma amizade entre dois adolescentes e, desde que o vi, não consigo pensar na assimetria com que meninos e meninas são tratados no campo afetivo.

A nós, mulheres, é dado o direito à intensa intimidade, sem que isso signifique nada além de amizade. Duas meninas podem andar abraçadas, dividir a mesma cama ou trocar declarações de amor sem que ninguém lhes peça explicação. 

No entanto, se tais gestos ocorrerem entre meninos, eles provocarão comentários maldosos e suspeitas indevidas.

É claro que isso não significa que entre os homens não haja intimidade. Ela existe e muitos deles mantêm relações de enorme lealdade e afeição. Dois amigos dividem preocupações, vão aos jogos juntos, ajudam-se em momentos difíceis, viajam juntos e podem passar horas conversando.

Porém, quase nunca se sentem autorizados a dizer que sentiram saudade ou a oferecer um abraço demorado sem constrangimento. O interdito não é propriamente sobre o sentimento – isso lhes é autorizado – mas sim sobre o modo como ele pode aparecer. 

Entre amigos, o afeto masculino só circula disfarçado, em forma de provocação, favor, brincadeira ou lealdade silenciosa. Quando a ternura se apresenta sem disfarce, parece perigosa demais.
No livro "A expulsão do outro", Byung-Chul Han afirma que nossas sociedades tendem a eliminar tudo aquilo que não conseguem enquadrar. Para ele, não suportamos a estranheza do outro, aquilo que nele não se deixa conhecer por inteiro e, por essa razão, tentamos convertê-lo para ser mais um de nós. 

É exatamente isso que está por trás da pergunta da colega a um deles: ela não desejava entender o que existia entre os dois meninos; ela queria apenas uma resposta, qualquer uma. Pode ser que eles fossem namorados ou só amigos — não importa —, pois o que incomodava era exatamente aquele vínculo não caber nas categorias convencionais. Nós não conseguimos simplesmente acolher o vínculo, precisamos domesticá-lo em um rótulo.

O intrigante é que o filme nos mostra que essa vigilância não fica restrita aos outros. Em algum momento, o olhar social passa a habitar a própria cabeça do adolescente observado. Léo, que é o nome de um deles, não é proibido e ninguém o obriga a se afastar de seu amigo, mas ele o faz mesmo assim. Ele se inscreve no time de hóquei no gelo e aprende ali a responder às provocações dos outros meninos na mesma moeda. Para continuar pertencendo ao grupo, afasta-se do amigo que ama e, com isso, da parte de si que sabia amar daquele modo.

Fico imaginando o que teria acontecido se, no pátio, quando a colega pergunta sobre o status da relação dos dois amigos, Léo tivesse apenas respondido: “E se fôssemos?”. Provavelmente a pergunta teria perdido sua força. Mas Léo só tinha 13 anos e ninguém lhe mostrou outra possibilidade. 

Um homem adulto já sabe que um abraço demorado aquece e que uma saudade, quando dita em voz alta, torna a dor mais suportável. Por isso, esconder o que se sente em nome de um modelo de masculinidade socialmente desejável parece um preço alto demais para pertencer a um grupo que, no fundo, está a nos exigir, todo o tempo, que sejamos como os demais e que caibamos nos estreitos limites do socialmente aceitável.


 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay