Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade

Qual o sentido da vida?

A vida ganha sentido no modo como lidamos com nossos medos, escolhemos dentro do tempo e respondemos às pessoas que nos atravessam

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Outro dia estava dando uma palestra e, ao final, fui procurada por uma pessoa da plateia que me perguntou o que eu pensava sobre o sentido da vida. Dei uma resposta genérica e evasiva, mas fiquei deveras incomodada com a questão, pois ela esbarra em muitas coisas, mas não se deixa definir de fato por nenhuma delas. Por isso, a questão não é simples e sua resposta será sempre incompleta. Mas, de todo modo, achei importante sondar melhor a pergunta, pois, se entendemos o sentido da vida – ainda que parcialmente – isso pode nos conduzir à possibilidade de vivermos o que a filosofia chama de “uma vida boa”.

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Primeiro fui a Epicuro, em seu livro “Carta a Meneceu”, no qual ele sugere um caminho prático para viver bem. Segundo o que pode ser extraído do autor, o sentido da vida estaria em viver a vida com tranquilidade e amizade, buscando satisfação nos prazeres simples e evitando perturbações desnecessárias. O objetivo é que vivamos a vida sem medos desnecessários e com desejos bem avaliados e, para isso, ele discorre sobre cada um dos elementos que podem perturbar nossa paz.

Ele diz que não devemos ter medo dos deuses, pois eles são plenos, perfeitos, não carecem de nada e não têm emoções humanas. Assim, não teriam qualquer interesse em interferir nos assuntos humanos. Ele prossegue afirmando que o medo da morte é um sofrimento em vão, pois, quando a morte chega, já não estamos mais presentes e, portanto, não sentiremos nada. Outro elemento de perturbação seria o medo da dor, que, para ele, é exagerado.

Ele sugere que as dores intensas são breves e as dores prolongadas costumam ser administráveis pela lembranças de bons momentos e pela amizade. A ideia não é eliminar a dor, mas não deixar que a dor e o sofrimento definam o sentido das nossas vidas. Por fim, ele diz que os desejos sem limite são fonte enorme de perturbação, pois eles nunca acabam.

A gente acha que vai ser feliz realizando todos os nossos desejos, mas, para ele, essa atitude só nos gera mais desejo e perturbação. Focar naquilo que realmente sustenta e não na satisfação imediata de todos os desejos seria o caminho para evitar esse mal. Assim, o sentido não estaria em descobrir algo secreto, mas em viver com menos excesso, mais presença e mais cuidado com os laços que criamos.

Mas será que uma vida menos perturbada seria suficiente para que encontrássemos sentido? Achei a resposta boa, mas insuficiente. Então fui a Heidegger para tentar entender o que ele pode trazer ao debate.

Na verdade, Heidegger não está preocupado com a vida boa, mas com a própria estrutura da existência humana. Em Ser e Tempo ele parte da ideia de que o ser humano não é uma coisa pronta, com essência fixa. Somos lançados em um mundo que já estava aqui antes de nós e em circunstâncias que não escolhemos. No entanto, ao lado disso, somos seres de possibilidades, ou seja, estamos sempre nos projetando para aquilo que ainda podemos ser.

O problema é que o cotidiano não nos deixa ver nossas possibilidades com inteireza, já que ele tende a nos empurrar para uma vida automática, na qual nossas escolhas são feitas muito mais por aquilo que esperam de nós do que por aquilo que de fato nos constitui.

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Para o autor, a antecipação da nossa própria morte como possibilidade pode ter o condão de romper com essa impessoalidade em relação à própria vida, já que ela nos escancara que o tempo é finito. E se o tempo é finito, nossas escolhas são dotadas de grande importância. Pensada desse modo, a morte aparece não como evento final de uma vida, mas como um ponto de reflexão que nos conduz a uma vida mais autêntica, já que ela estrutura o modo como habitamos a existência.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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