Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
Vitalidade

Big Brother Brasil: uma pausa antes de julgar

Como as pessoas boas se tornam más?

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 Há uma conhecida frase de Sartre, retirada do livro “Entre Quatro Paredes”, que afirma que “o inferno são os outros”. O autor queria com isso se referir ao incômodo olhar do outro, do qual, para mantermos nossa saúde mental, precisamos eventualmente nos afastar. O inferno para Sartre não é o outro em si, mas a impossibilidade de nos retirarmos de cena, ainda que por uns instantes, para existirmos fora da fixação que o olhar do outro nos impõe. A ausência dessas pausas, nas quais podemos “ser em liberdade”, tem um efeito desorganizador na nossa mente. E é precisamente isso que os reality shows exploram com tanta perspicácia.  

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Ali são pessoas reais, famosas ou não, submetidas às mais diversas situações, muitas delas, cotidianas em nossas vidas, todavia, lá dentro, vivenciadas ou percebidas de modo extremado. O que um programa de televisão como o Big Brother Brasil faz é praticamente suprimir os espaços de silêncios e pausas, nos quais podemos existir sem sermos observados. O confinamento em condições psicologicamente aflitivas e a convivência forçada, somados à escassez de privacidade e de tempo subjetivo, produz um ambiente sempre prestes a explodir. Como não há como dissipar o pensamento, cada gesto e cada palavra mal colocada ganha um peso desproporcional e logo são julgados como falhas de caráter inaceitáveis.

Há um livro de psicologia social bastante interessante, chamado “O Efeito Lúcifer: Como Pessoas Boas se Tornam Más”, do professor que conduziu o ‘Experimento de Stanford’, Philip Zimbardo. No livro ele defende que pessoas comuns, diante de um ambiente estressante e cuidadosamente organizado para gerar tensão, produzem o mal, ainda que isso não constitua seu caráter originário. Ele se refere, não àquele mal ocasionado por um indivíduo com um comportamento normalmente perverso, mas aquele mal gerado nas situações nas quais os excessos são normalizados e a hostilidade é incentivada. Obviamente que não estou propondo que o Big Brother Brasil seja um experimento científico, mas o jogo é interessante na medida em que cria condições de escassez, hierarquia, competição e exposição contínua e consegue nos mostrar, ainda que de maneira caricaturada, como nós reagimos diante do estresse profundo e da exposição constante.

Acredito eu, que o confinamento sob pressão e essa ausência prolongada do espaço de silêncio, produzem um profundo abalo psicológico nos participantes. Ninguém consegue manter a mente em vigilância 24 horas por dia; e, quando tenta, o resultado é irritabilidade, ansiedade, hipervigilância e exaustão emocional, isso apenas para dizer alguns. Quanto mais prolongado for o período, maiores são as chances de que os comportamentos impulsivos e primários dominem a atuação do participante. Acredito que em um ambiente de tal modo estruturado, o pensamento deixa de circular na cabeça e fica girando em torno de si repetidamente, de modo quase claustrofóbico, pois não há espaços de pausas para que o pensamento possa se organizar.

Assim, proponho que da próxima vez que formos julgar um participante do Big Brother Brasil ou qualquer outro indivíduo colocado em situações extremas, compreendamos o contexto a que essas pessoas foram submetidas e seus efeitos em seres humanos normais. Não é que isso justifique os desvios morais, mas certamente devemos pensar que as ações de alguns participantes podem não ser a expressão fiel do seu caráter, mas resultado de uma exposição radical, que suprime a possibilidade de retirada, ainda que por algumas horas, para que se possa fazer a famosa higiene mental, necessária a uma boa decisão.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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